Há 57 anos, Brasília era inaugurada entre as visões antagônicas de “pandemônio” e começo de “nova era”
Arquivo Público/DF
Caravanas de Integração Nacional traziam pessoas de todo o país, esperançosas pelo recomeço de vida na nova capital federal
Briga entre parlamentares para conseguir cadeiras, colchão e até
roupa de cama para seus apartamentos. Música clássica para os operários
da nova capital. O começo do sonho para milhares de candangos, vindos de
todas as partes do país. “Sonho acalentado”, na visão de seus
entusiastas. “Pandemônio”, nas palavras do então líder oposicionista
João Agripino (PB), tio do hoje senador José Agripino (DEM-RN). Com
euforia, por um lado, e certo desprezo, por outro, o nascimento de
Brasília ganhou a capa dos principais jornais do país em 21 de abril de
1960.
A transferência da capital federal do Rio para o Planalto Central
ganhou as manchetes dos principais veículos de comunicação do país como o
início de uma nova era da República. “Brasília amanhece”, “Brasil,
capital Brasília”, “Brasília, do papel ao concreto” eram apenas alguns
dos títulos de primeira página, quase sempre ilustrados por duas imagens
que se confundiam: a de Juscelino Kubitschek e a da “capital mais
moderna do mundo”.
Os jornais também destacavam curiosidades. No ano que antecedeu a sua
inauguração, por exemplo, Brasília registrou apenas oito casos de
homicídio e somente três de corrupção. Uma família gaúcha viajou 240
dias em uma carroça só para participar da inauguração da nova capital.
Em acesso de fúria por causa da mudança que não chegava, um deputado
tentou incendiar o elevador do prédio funcional em que passaria a morar.
Confira os destaques (clique nas imagens para ampliá-las) dos principais jornais em 21 de abril de 1960:
Diários Associados
(O Jornal, Estado de Minas, Folha de Goyaz, Correio Braziliense)

Brasília amanhece
O Brasil amanhece em nova capital federal. No vasto planalto central,
Brasília, o sonho acalentado desde os Inconfidentes, surge no centro de
gravidade do país para comandar a conquista do interior e trazer até
êle a civilização que se espraia pelo Atlântico. Há pouco mais de três
anos ela existia apenas na imaginação de alguns homens e era um esbôço
sôbre uma prancheta. Hoje é um marco decisivo na história do
desenvolvimento econômico do Brasil e a certeza de um amanhã melhor para
os brasileiros de tôdas as latitudes. Louvo o esforço de quantos
divulgam a saga de Brasília, suas obras, seus detalhes, suas
perspectivas. – Trabalhos como êste valem como documento e testemunho de
um momento de extraordinária beleza, em que uma nação se apossa de seu
destino para se projetar no futuro. Juscelino Kubitscheck.
Kubitscheck: o mais difícil foi começar
Entrevista exclusiva concedida a José Leão Filho
O presidente Juscelino Kubitscheck, em entrevista exclusiva para esta
edição dos Diários Associados, no dia da inauguração de Brasília,
disse, olhando através dos vidros do Palácio Alvorada, que “desde menino
olhava curiosamente aquêle quadrilátero que Cruls desenhou no centro do
mapa do Brasil”. Disse ainda o presidente: 1 – “Até o primeiro comício
de minha campanha política não tinha pensado em construir a nova
capital. 2 – Brasília é a melhor e mais importante do meu governo, na
medida em que sintetiza tôdas as demais. 3 – O mais difícil, na obra de
Brasília, foi começá-la. 4 – Só poderia pensar na honra de representar
Brasília no Congresso depois de aprovada sua organização política e
judiciária. – Meu esporte predileto é dançar.
Plano Monumental nasceu com um sentido: criar condições que levam à especulação intelectual
“Monumental não no sentido da ostentação, mas no sentido da expressão
palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa”.
Brasília, segundo o projeto Lúcio Costa, vitorioso no Concurso promovido
pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital, é uma cidade “planejada
para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e
aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual capaz de
tornar, com o tempo, além do centro de govêrno e administração, num foco
de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país”. Em seu “Relatório”,
Lúcio Costa justifica o chamado “Plano Piloto”, originariamente em forma
de cruz e que depois foi adaptado à topografia local, arqueando-se um
dos eixos da cruz para se assemelhar ao arcabouço de um gigantesco
avião.
Lema de trabalho para Israel é “tudo devia estar pronto ontem”
Um ceramista, formado na Escola de Minas de Ouro Preto, foi quem o
chefe do govêrno escolheu para dirigir a construção de Brasília.
Transformando o barro, êsse homem começou a vida. E, transformando o
barro, êle ascendeu a uma das posições mais proeminentes da atualidade
brasileira, após ter sido secretário de Estado em Minas Gerais, sua
terra natal, e deputado por diversas vezes. Seu pai, João Pinheiro,
chefe de uma família de oleiros, e antigo Presidente de Minas, deu-lhe o
nome de Israel.
Goiás fornece a maioria de candangos
É mesmo de Goiás a maioria dos “candangos” que estão construindo
Brasília, vindos os mineiros em segundo lugar, com 20,3% do total; os
baianos em terceiro, com 13,5%, e os cearenses em quarto, com 7,4%,
seguindo-se pela ordem os pernambucanos, paraibanos, paulistas e
piauienses. Os goianos concentram-se mais no povoado de Brasilândia,
enquanto os mineiros que lá residem preferem a central da Novacap, e os
baianos são encontrados em maior número no Núcleo Provisório de Bananal.
Apenas 1.216 estrangeiros residiam em Brasília durante sua construção,
representando 2,1% do total, aparecendo os espanhóis em maior número,
seguido dos italianos, portugueses, japoneses e gregos.
Ministério da Saúde dá a Brasília uma rêde hospital que é modelo
Os trabalhos preliminares do Ministério da Saúde em Brasília incluíam
desde o início o estudo para implantação de uma rêde hospital modelar e
atendendo aos requisitos modernos no que diz respeito à organização e
distribuição das unidades. O problema se apresentava tanto mais
complexo, porque dispunha de várias facetas. Compreendia o atendimento
de doentes na fase de construção da nova capital desde os seus primeiros
dias, de modo a possibilitar rapidez e assistência eficaz, não só no
perímetro da zona da nova capital, mas estendendo-se as rodovias e vias
de comunicação que caminhavam em direção ao Plano Pilôto.
Brasília espelha o Brasil: católicos são maioria com oitenta e oito por cento
Em Brasília, como no resto do Brasil, a religião católica mantém
maioria quase absoluta, com oitenta e oito por cento do total de pessoas
que revelaram ter fé numa doutrina para a alma. Fato curioso é que os
homens confirmaram que sua fé católica quase que na mesma proporção das
mulheres (88,3% contra 88,6%), o que não é comum no resto do país, onde é
ressaltante a maioria das mulheres crentes sôbre os homens, mais
rebeldes à disciplina das religiões. Os protestantes vêm em segundo
lugar, com 5,5%, seguidos dos espíritas (3,4%) e outras religiões.
Candangos ouvem clássicos e assimilam “civilização” enquanto fazem “pé de meia”
No “King’s Bar”, o bar dos candangos em Brasília, só se toca música
clássica. Nada de sambas, boleros ou foxes. De brasileira, só
folclórica, como “Casinha Pequenina”, de Haeckel Tavares, ou o “Luar do
Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense. Dá gôsto ver dezenas de
“candangos”, aproveitando momento de folga para, em meio a uma cerveja
ou uma água mineral, ouvir com devoção religiosa Liszt, Chopin,
Beethoven, Schubert, Debussy e Tchaikowski.
Prisões em Brasília apresentam média de seis décimos por mil: metade da média universal
A média anual de prisões efetuadas pela polícia de Brasília é de seis
décimos por mil, ou seja, quase metade da média que as convenções
internacionais estabelecem para as cidades ordeiras: um por mil. Essa
revelação nos foi feita pelo major Gastão Barbosa Fernandez, oficial do
Exército e comandante da Guarda Especial de Brasília (GEB), força
pública diretamente subordinada ao Departamento Regional de Polícia de
Brasília, do qual é diretor o general Osmar Soares Dutra.
Correio Braziliense
Brasil, capital Brasília
Gov. federal funciona aqui desde 0 hora
Com a elevação da Santa Hóstia à zero hora de hoje, Brasília
tornou-se capital do Brasil. Possantes refletores do Exército, que
iluminaram completamente a cidade, lançavam seus jatos de luz cruzando o
céu na Praça dos Três Poderes, num espetáculo deslumbrante, enquanto a
banda do Corpo de Fuzileiros Navais executava o Hino Nacional.
Profundamente comovido, o presidente Juscelino Kubitscheck tinha seus
olhos marejados de lágrimas, enquanto a emoção silenciava a enorme
multidão, que compreendia que uma nova era se abria para os destinos do
país.
Tentou incendiar um elevador o Deputado Clemens Sampaio
O presidente Ranieri Mazzili confessa que houve certa confusão no ato
da mudança. Dezenas de deputados não encontraram seus apartamentos
mobiliados. Para o presidente Mazzili, os responsáveis por êste setor da
mudança foram mal inspirados com as concessões feitas. Fracassou a
mudança no setor de entrega de mobília. Dizia um deputado que o objeto
mais importante do mundo para ele, na noite de ontem para hoje, era um
colchão.
- Até mesmo debaixo de uma árvore eu me deitaria, depois de mais de mil quilômetros de viagem de automóvel.
O deputado Gurgel do Amaral exasperou-se quando chegou ao seu
apartamento e o encontrou sem mobília. Eram dezenas de parlamentares nas
mesmas condições. O deputado Gurgel do Amaral, dominado por viva
emoção, chegou a tomar uma atitude agressiva, segundo informações.
Enquanto isso, o deputado Vasconcelos Tôrres conseguiu alguns caixões de
madeira e inaugurava sua nova moradia, com muito bom humor. O deputado
Clemens Sampaio quis incendiar o elevador do edifício onde deveria
alojar-se. E o deputado Carvalho Sobrinho, confundido com Mister
Davidson, da Embaixada da Dinamarca, alojava-se no luxuoso Brasília
Palace Hotel, a poucos passos do Palácio da Alvorada.
A Câmara Federal reiniciará seus trabalhos a 2 de maio
O presidente da Câmara Federal, Ranieri Mazzili, palestrou longamente
com um grupo de jornalistas em visita ao monumental edifício do
Congresso Nacional. Nessa ocasião, o representante paulista teve o
ensejo de mostrar ao pessoal da imprensa as instalações com que poderão
contar os jornalistas no desempenho da sua missão. Para facilitar o
trabalho dos jornais, do rádio e da televisão, haverá na Câmara uma sala
de imprensa, ampla e confortável, com mesas e máquinas em profusão,
junto ao próprio recinto das sessões, de modo que os jornalistas e
radialistas terão contato direto com os deputados, podendo circular em
volta do plenário sem qualquer constrangimento.
Apenas oito homicídios qualificados registrados em Brasília, em 1959
Apenas oito homicídios qualificados registraram as autoridades
policiais de Brasília em todo o decorrer do ano de 1959 no território da
nova capital – foi o que revelou, em entrevista concedida ao
Correio Braziliense, o general Osmar Soares Dutra, chefe do Departamento Policial da cidade que agora se inaugura. Acrescentou o chefe da Polícia:
- No ano passado, a nova capital contou com a média de 100 mil
habitantes, e o baixo índice de homicídios revela que não é de
marginais, de indivíduos perversos ou aventureiros, como acreditam
alguns, que se compõe a população de Brasília. Pelo contrário: o que
temos aqui é gente trabalhadora, que cuida do seu trabalho e sabe
comportar-se numa sociedade organizada.
Brasília não tem cadeia
“Esta cidade não tem cadeia, aduziu o general Osmar Soares Dutra. Os
prêsos são enviados a um depósito de prêsos e, quando deverão aguardar
julgamento remetidos para Goiânia, pois não temos prisão judiciária.
Atualmente, estão com cêrca de 75 detidos aguardando processo, entre
homens e mulheres. Estas foram prêsas por vadiagem e atentado ao pudor.
- “A situação em Brasília é, no tocante ao comportamento de sua
população, bastante boa, afirmou o chefe de polícia. O número de crimes
no ano passado é uma prova: 8 apenas. Considera-se uma cidade comportada
aquela que registra até 1 crime por mil habitantes. Nossa cidade está
abaixo dêste índice. Conheço cidades, como Aracaju, com cêrca de 30.000
pessôas, onde cometem-se 8 crimes por semana, e não por ano.
A estatística do crime
Segundo um quadro estatístico organizado pela Corregedoria de Polícia
de Brasília durante o ano de 1959 registraram-se, na área de 5.820
quilômetros da nova capital, os seguintes casos que determinaram a
abertura de inquéritos:
Homicídio qualificado – 8
homicídio culposo – 29
tentativa de homicídio – 10
lesões corporais graves – 37
lesões corporais leves – 95
lesão corporal seguida de morte – 1
suicídio – 1
rixa – 5
sedução – 6
estupro – 1
conjunção carnal para fraude – 1
rapto consensual – 1
atentado violento ao pudor – 3
desacato – 31
corrupção ativa – 2
corrupção ativa e passiva – 1
furto – 20
roubo – 3
furto qualificado – 26
estelionato – 22
acidente de trabalho – 17
acidentes diversos – 3
tráfico de entorpecentes – 4
porte ilegal de arma – 16
jôgo de azar – 4
falsificação de moeda – 1
lenocínio – 8
apropriação indébita – 8
adultério – 1
receptação – 5
ameaça – 2
aliciamento de trabalhadores para imigração – 2
economia popular – 3
incêndio – 3
falsificação de documento público – 2
imprudência – 3
dano 1
falsa identidade – 1
violação de correspondência – 1
constrangimento ilegal – 2
violação de domicílio – 1
calúnia – 1
Abastecimento
Brasília, ontem, estava preparada para alimentar mais de quatrocentas
mil pessoas. Ouvido pela nossa reportagem, o sr. Guilherme Romano
afirmava que os alimentos não faltariam, qualquer que fôsse o número de
visitantes: aviões, carros, frigoríficos, caminhões, estavam a postos.
Enquanto isso, a vasão da Brasília-Rio, em Belo Horizonte, era de oito
carros por minuto: mais de cem mil carros, em 24 horas, trazendo
mobílias, alimentos e passageiros para a Nova Capital. Alimentos não
faltaram, até agora. Talvez não tenha havido um cardápio “exquise”, de
finas iguarias para todos: mas sobrou a brasileiríssima comida do
candango, principalmente feijão, farinha, arroz, carne, doce e queijo.
Não se pode prever, com segurança, se teremos no futuro, novos hábitos
da frugalidade, porventura, anteriormente adotado pelos candangos. Mas
está provado, pela experiência, que foi possível alimentar, em cinco
dias, uma cidade de quatrocentos mil habitantes, que será a população de
Brasília dentro de cinco anos.
Candangos
Êles demonstraram, antes que a frase se transformasse em “slogan”,
que “todos os caminhos conduzem a Brasília”: vieram de tôdas as setas da
rosa dos ventos, do Brasil e de fora. Não são jovens, todos, porque
raramente a juventude constrói cidades adultas.
Tancredo Neves ao Correio: “Brasília é o Cérebro e o Coração da Pátria”
Dia 19, pela manhã, chegavaa Brasília o sr. Tancredo Neves.
Transmitindo suas impressões sôbre a nova Capital, declarou ao Correio
Braziliense o candidato ao govêrno de Minas Gerais:
- Sou um velho adepto de Brasília, desde os tempos do govêrno do
presidente Getúlio Vargas. Participei de várias reuniões que visavam a
escolha dos meios para a definição da área da nova capital. Eleito
presidente da República nosso eminente coestaduano Juscelino Kubitscheck
de Oliveira, fui dos que mais o animaram à realização dêste ciclópico
empreendimento. Acompanhei mês a mês a evolução da idéia e a superação
de tôdos os obstáculos que ela enfrentou para se transformar na
esplêndida realidade de hoje.
Servir o Brasil
Em seu último artigo do
Correio Braziliense, cujo derradeiro
número tinha a data de janeiro de 1823, Hipólito José da Costa falou do
seu periódico “cujo escôpo é ùnicamente servir o Brazil”. Provando que
nada se perde na vida dos povos, como na natureza, reata-se hoje a
existência do jornal, fundado e impresso em Londres, mas para advogar a
causa da independência, as idéias liberais e o constitucionalismo, que
eram as grandes aspirações do tempo.
O “Correio Braziliense” volta a circular depois de 137 anos
Instalada a sua publicação em Londres, em 1808, e interrompida em 1823, volta o
Correio Braziliense
a circular. E ontem, com a presença da Sra. Sarah Lemos Kubitscheck, de
S. Eminência o Cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, do Sr.
João de Medeiros Calmon, diretor geral dos Diários Associados, do Sr.
Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, do
deputado Abelardo Jurema, líder da maioria na Câmara dos Deputados, além
de destacadas autoridades civis, militares e eclesiásticas
especialmente convidadas, foram inauguradas as suas novas instalações.
Correio da Manhã
Brasília desde hoje capital da União
Com saudação a novo Estado, presidente voa para Brasília
O presidente da República, acompanhado de sua esposa e filhas, antes
de embarcar para Brasília, na manhã de ontem, esteve no Palácio do
Catete, onde se despediu de todos os funcionários que não foram
transferidos para a nova Capital do país. A cerimônia foi simples, sem
qualquer protocolo. O chefe de Govêrno fez questão de reunir no seu
antigo gabinete de trabalho todos os servidores do Catete independente
de sua categoria funcional e abraçou um a um.
Brasília é pandemônio, diz líder da Oposição
O líder oposicionista, João Agripino (UDN-Paraíba), criticou
duramente o atual estado das coisas em Brasília com as seguintes
expressões:
1- Brasília é um pandemônio;
2 – Fatos degradantes têm acontecido com deputados em plena briga para
conseguir colchões, roupas de cama, toalha de banho, cadeiras, água e
gás para seus apartamentos;
3 – Brasília não tem condições de receber a Capital, nem simbolicamente;
4 – A quase totalidade dos apartamentos não está pintada;
5- Não há energia para os elevadores, nem telefone nos apartamentos. Ninguém sabe de ninguém.
Estado da Guanabara começa hoje sua existência
Nos primeiros minutos de hoje o Sr. Sette Câmara assumiu o cargo de
governador do Estado da Guanabara. A cerimônia realizou-se no Palácio da
Guanabara na presença de altas autoridades federais e outras até então
municipais, tendo o ex-prefeito Sá Freire Alvim usado de palavra em
primeiro lugar, pronunciando um discurso, no qual fêz uma exaltação de
sua administração e das dificuldades que têve de enfrentar.
Nova capital inaugurada com a missa do Legado Pontífice
A nova capital do Brasil foi inaugurada. Chovia torrencialmente nas
últimas horas de ontem. Ao primeiro minuto da madrugada de hoje, no
altar improvisado, à porta de vidro do belo e inacabado do edifício do
Supremo Tribunal Federal na Praça dos Três Poderes, o Cardeal Dom Manoel
Gonçalves Cerejeira, elevou o Santíssimo à frente da cruz de Frei
Henrique de Coimbra, diante da qual foi celebrada a primeira missa no
Brasil e a Banda do Corpo de Fuzileiros Navais fez ecoar ao infinito os
acordes do Hino Nacional.
Folha de S. Paulo
Brasília converte-se em capital
Brasília, a mais moderna cidade do mundo, converte-se na manhã deste
21 de abril de 1960 na capital do Brasil. A solenidade culminante das
festas organizadas para celebrar, com adequada grandiosidade, o episódio
histórico que a nação vive, emocionada e renovada em suas esperanças,
está prevista para as 9h30: a instalação simultânea dos Três Poderes.
Brasília, do papel ao concreto
No principio era apenas um sonho. Apenas isso. Brasília há séculos
sugerida como imprescindível para o desenvolvimento nacional. Um dia
decidiu-se que seria construída à custa de qualquer sacrifício. É feito
um plano-piloto, arrojado e prático. Poucos crêem. Poucos lutam. Vem
depois a maqueta. Todo mundo vê. Todo mundo gosta. Assenta-se o cruzeiro
para ser dita a primeira missa. Dia 2 de maio de 1957. Mais de 15 mil
pessoas estão presentes, a maioria para tirar a dúvida. É preciso ver
para crer. O plano está indo mesmo. Começa-se a sedimentar no íntimo
popular um sentimento de crença ou, pelo menos, de esperança. “Quem sabe
se desta vez sai.”
Dia 2 de maio: a primeira sessão da Câmara dos Deputados em Brasília
A primeira sessão ordinária da Câmara dos Deputados em Brasília será
realizada no dia 2 de maio próximo. Na sessão do dia 3, entrará em pauta
o Plano de Classificação do Funcionalismo da União.
Confusão
Quando o deputado Ranieri Mazzili chegou, com a família e a mobília,
ao edifício onde está localizado o seu apartamento, o elevador não
funcionava. O parlamentar subiu pelas escadas, acompanhado pela sua
família, até o quinto andar, para ver o apartamento. Quando voltou, a
mobília tinha desaparecido. Mais tarde, tudo foi esclarecido: o deputado
Etelvino Lins, ex-governador de Pernambuco, havia levado, por engano.
Brasil, capital Brasília
No momento em que se consuma a instalação da Capital Federal em
Brasília, cerca de 200 mil pessoas se congregam nesta cidade – vindas de
todos os quadrantes do país e de fora – para assistir aos atos solenes
da inauguração. O papa falará de Roma, diretamente aos brasileiros,
lançando sobre a nova capital a primeira bênção litúrgica a uma cidade. O
poeta Guilherme de Almeida lerá sua “Prece Natalícia a Brasília” e,
simultaneamente, o presidente da República reunirá o Ministério, a
Câmara, o Senado e o Supremo Tribunal de Justiça farão sessões de
instalação. E, neste dia em que a emoção varre nossa terra de Norte a
Sul e os povos do mundo voltam para nós a sua admiração, a cidade de
Brasília estará consumando um verdadeiro milagre, convertendo-se na
capital do século.
A festa de Brasília começou ontem à tarde na Praça dos Três Poderes
Fora do programa, um candango, Geraldo Petulo de Queirós, usou da
palavra, hoje, em frente à Praça dos Três Poderes, precedendo à oração
de agradecimento do presidente Juscelino Kubitscheck ao Sr. Israel
Pinheiro, ex-presidente da Novacap e primeiro prefeito de Brasília. A
solenidade – primeira do programa de festas – teve por escopo a entrega
ao presidente da República das chaves de Brasília pelo Sr. Israel
Pinheiro. Êste usou da palavra em primeiro lugar; seguiu-se-lhe,
extra-programa, o representante dos trabalhadores de Brasília. O
discurso do presidente (que publicamos em outro local, juntamente com a
oração do Sr. Israel Pinheiro) encerrou a cerimônia. Espetáculo de
acrobacia aérea, pontificando as evoluções em flor e em leque da
esquadrilha da fumaça, era visto nos intervalos entre um discurso e
outro. A manifestação popular que antecipou a solenidade – iniciada
pouco antes das 17h30 – foi das maiores que já se presenciou em
Brasília.
Seis gaúchos vieram (de carroça) a Brasília; 240 dias de viagem
240 dias e milhares de quilômetros em uma carroça: seis gaúchos
vieram a Brasília para assistir aos festejos da transferência da
capital. São eles: Francisco Alves, um sul-riograndense de olhos azuis,
desempregado e barrigudo, sua esposa e quatro filhos, a maior com sete
anos.
“Brasília anula uma mentalidade inadaptável à realidade brasileira, esmaga velhos erros”
Foi o seguinte o discurso proferido pelo Sr. Israel Pinheiro,
prefeito de Brasília, na solenidade de entrega da chave da cidade ao
presidente Juscelino Kubitscheck, realizada hoje na Praça dos Três
Poderes: “Hoje, à meia-noite, Brasília será a Capital da República. Há
cento e setenta e um anos, a transferência era sonho patriótico dos
Inconfidentes. Há quatro anos, passou a ser preceito constitucional. Há
quatro anos, v. exa. dava início à concretização do sonho secular com a
“Mensagem de Anápolis”.
JK a candangos: “Fostes os operários do milagre”
No discurso que hoje, dia 20, pronunciou na Praça dos Três Poderes,
dirigindo-se aos operários de Brasília, o presidente Juscelino
Kubitscheck enalteceu o papel desempenhado pelos denominados candangos
na construção da nova capital.
- Meus amigos e companheiros de lutas, soldados da epopéia da
construção de Brasília, recebo, profundamente emocionado, a chave
simbólica da cidade filha do nosso esforço, da nossa crença, do nosso
amor a êste país. Sou apenas o guardião desta chave. Ela é tão minha
quanto vossa, quanto de todos os brasileiros. Falei em epopéia e retomo a
palavra para vos dizer que ela marcará, sem dúvida, uma época, isto é,
“o lugar do céu em que um astro atinge o seu apogeu”. Chegamos hoje,
realmente, ao ponto alto da nossa obra. Criando-a, oferecemos ao mundo
uma prova do muito que somos capazes de realizar e a nós próprios nos
damos uma extraordinária demonstração de energia, e mais conscientes nos
tornamos das nossas possibilidades de ação.
Prontos os Ministérios para a inauguração, mas há insuficiência de funcionários
Apesar de, na sua maioria, já terem realizado a mudança de móveis e
parte dos seus arquivos, os Ministérios – como é natural – ainda não
contam com funcionários em número suficiente para atender suas
atividades normais. Com exceção do Ministério da Viação e Obras
Públicas, cujos trabalhos de transferência apresentam grande atraso em
relação aos demais, cada pasta conta com 20 funcionários, em média, para
dar início aos serviços considerados essenciais. Junto ao Ministério da
Justiça, que, como os outros, está instalado na Praça dos Três Poderes,
já se encontra pronta para funcionar, se necessário, hoje mesmo, a
Consultoria Jurídica da Presidência da República, que conta com oito
servidores transferidos do Rio para Brasília.
Caravana de governadores
Pouco antes das 17h30 de hoje, chegou ao Aeroporto Internacional de
Brasília o avião conduzindo a caravana de governadores. A aeronave, que
era aguardada desde as 14 horas, trouxe a bordo os srs. Juraci Magalhães
(Bahia), Parsifal Barroso (Ceará), Ponce de Arruda (Mato Grosso), Cid
Sampaio (Pernambuco), Chagas Rodrigues (Piauí), Dinarte Mariz (Rio
Grande do Norte), Luís Garcia (Sergipe), Moura Carvalho (Pará), e
Roberto Silveira (Estado do Rio). Os visitantes seguiram do aeroporto
para o Brasília Palace Hotel, onde ficarão hospedados.
Nascimento do Estado da Guanabara motiva novo carnaval dos cariocas
O carioca festejou o nascimento do Estado da Guanabara da maneira
mais autêntica possível, com verdadeiro carnaval de rua, revestido de
todas as características da grande festa anual que tanto celebrizam esta
cidade em todo o mundo e que se constitui na mais típica manifestação
de regozijo do povo do Rio de Janeiro. Pouco antes das 22 horas, a
Avenida Rio Branco estava repleta de foliões no mesmo tempo em que
desfilavam blocos, ranchos e escolas de samba.
Atropelado o deputado
O deputado Clovis Pestana, ex-ministro da Viação, foi atropelado
ontem à noite na avenida Central, defronte à Fundação da Casa Popular.
Conduzido ao ambulatório do Tapi, o parlamentar foi posteriormente
removido para o hospital local, onde ainda se encontra internado.
Entoando o “Peixe Vivo”, JK deixou o Catete
Após abraçar um por um os funcionários da Presidência da República
que não seguirão para Brasília, o Sr. Juscelino Kubitscheck desceu hoje,
às 9h49, a mesma escada que subiu em 1956, quando assumiu o governo e
fechou a porta principal do velho Palácio do Catete. Em seguida,
acompanhado pela esposa, filhas e alguns auxiliares, rumou para o
aeroporto a fim de embarcar para Brasília.
JK chegou “escondido”
O presidente Juscelino Kubitscheck chegou hoje duas vezes a Brasília:
oficialmente às 15h, viajando de automóvel; extra-oficialmente, às
12h30, no “Viscount” presidencial onde viajaram também sua esposa, suas
filhas. o vice-presidente, João Goulart, e o ministro Sebastião Pais de
Almeida. Entre uma e outra “chegada”, o presidente permaneceu
repousando, segundo informações de elementos da comissão de recepção, no
sítio do prefeito Israel Pinheiro.
Jornal do Commercio
Participação mundial na festa de Brasília
Lisboa – Os sinos das igrejas repicarão aqui amanhã, ao meio-dia, em
homenagem à inauguração de Brasília, a nova capital brasileira. A
decisão das autoridades eclesiásticas de ordenar que sejam tocados os
sinos em Lisboa e Santarém, onde está enterrado o descobridor do Brasil,
Pedro Álvares Cabral, é um indício do orgulho que sentem os portugueses
pelo progresso brasileiro. Uma nota da sede do patriarca de Lisboa diz:
“Amanhã será inaugurada Brasília, a nova capital do Brasil. Ao Brasil
deu Portugal a fé, a língua e o sangue. Assim se estabeleceu uma união
que vem desde há cinco séculos e perdura forte e sadia, para recíproco
benefício e exemplo universal. Afirmou estas verdades Sua Santidade João
XXIII, ao escolher como seu legado um cardeal português, o patriarca
português.
“Brasília é a vitória sôbre o impossível”
Declarando que o nome de Brasília já existia na imaginação dos homens
da primeira metade do século XIX, o Sr. Ranieri Mazzili, presidente da
Câmara, fará hoje, quando da inauguração da nova capital, o seguinte
discurso: “Algum fundamento profundo há sempre nas idéias que resistem
ao tempo e à transitoriedade dos homens. Trazido até nós, de geração em
geração, desde os tempos dos Inconfidentes, o sonho da interiorização da
capital brasileira encontrou sempre vozes que lhe deram novo vigor e
nova forma, a cada etapa da vida imperial e republicana”.
Presidente saudou “candangos”ontem
Ao receber, ontem, a chave de Brasília das mãos do sr. Israel
Pinheiro, o Presidente da República fêz um discurso de elogio aos
“candangos”, salientando que aquêles trabalhadores, com o seu esfôrço,
foram os “operários do milagre” da construção da nova capital. Disse o
Presidente:
- Meus amigos e companheiros de lutas, soldados da epopéia da
construção de Brasília, recebo, profundamente emocionado, a chave
simbólica da cidade filha do nosso esforço, da nossa crença, do nosso
amor a êste país. Sou apenas o guardião desta chave. Ela é tão minha
quanto vossa, quanto de todos os brasileiros.
Jornal do Brasil
Brasília é feita capital, Guanabara nasce com festa
Deputados sem terem onde morar em Brasília começam hoje mesmo a voltar ao Rio
Presidente e sua espôsa choram ao deixar o Catete homenageados por crianças
Brasília terá grande influência nos rumos da campanha eleitoral
O Estado da Guanabara despertou com o samba
Trava-se em Brasília a batalha entre virtudes e defeitos
Brasília se inaugura sem depósito de lixo: o que havia virou favela
60 mil favelados em Brasília esperam a sorte que não vem
Brasília e Roma, nascidas na mesma data, se encontram hoje
Lúcio Costa e Niemeyer esquecidos: placa só de Juscelino
Oitocentos policiais fazem o policiamento de Brasília na inauguração
Rio foi 71 anos a capital da República com 25 presidentes
300 mil crianças das favelas não sabem nem escovar os dentes
Há um ano prefeito proibiu nomeação: depois nomeou 3.465
*As bibliotecas da Câmara e do Senado não guardam arquivos da
época dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Também não foi
encontrada a edição do dia 21 da Tribuna da Imprensa, do ex-governador
Carlos Lacerda, um dos principais opositores à mudança da capital. O mau
estado de conservação da edição do Jornal do Brasil impediu uma leitura
mais precisa dos destaques do periódico. Agradecimento especial ao
servidor Francisco S. Campelo, do departamento de Microfilmagem da
Biblioteca da Câmara.
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