Em marcha lenta, Congresso tenta avançar na pauta. Copa e São João vão frear votações

Jonas Pereira / Agência Senado
Concorrência desleal: plenário lotado vai passar a ser desafio do governo nas próximas semanas
Em 17 de maio, o
Congresso em Foco mostrou que o
Congresso já estava em compasso de desaceleração, em ano de Copa do
Mundo e eleições gerais, acerca da pauta de votações. Líderes
partidários disseram à reportagem na ocasião, a menos de uma semana da
greve que paralisou o Brasil por 11 dias, que o governo só teria
mais um mês de votações
prioritárias em 2018 – projeção que, depois da paralisação dos
caminhoneiros, também ficou comprometida. A pouco mais de uma semana do
início da Copa (14 de junho), o que virou prioridade foram três medidas
provisórias derivadas do difícil acordo costurado pela Casa Civil da
Presidência da República com o pessoal da boleia. E, nessa toada, a
semana que se inicia hoje (domingo, 3) dá sinais de baixa produtividade
nas duas Casas Legislativas.
Contribui para a marcha lenta o quórum de votação, que tem sido baixo
em razão da ausência de congressistas em festejos juninos Brasil afora,
como os próprios parlamentares têm manifestado em suas redes sociais. O
próprio líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), a quem cabe
defender a pauta governista na Casa, tem registrado a extensa agenda de
compromissos juninos em terras sergipanas. André é candidato ao Senado
e, depois do São João, sairá pelo estado para tentar se eleger para a
chamada Alta Casa.
<< Governo terá só mais um mês de votações prioritárias no Congresso em 2018, avaliam líderes
O líder deverá estar na Câmara na próxima terça-feira (5), quando há
sessão marcada para votar o projeto de lei (PL 4860/2016) que
regulamenta o transporte rodoviário de cargas. De autoria da deputada
Christiane Yared (PR-PR), a proposição recebeu substitutivo do deputado
Nelson Marquezelli (PTB-SP) já aprovado na comissão especial instalada
para analisar o assunto.
O projeto estabelece modelos de contratação de transportadores
autônomos, de cooperativa ou empresariais, fixa regras de segurança nas
estradas e disciplina a contratação de seguros em caso de acidente,
perda de mercadoria e mesmo furtos e roubos. O texto de Marquezelli cria
um vale-pedágio obrigatório, com mecanismo de pagamento automatizado, e
também impõe inspeção de segurança veicular para todos os veículos de
carga. Quanto mais velho for o veículo, mas vezes a vistoria terá que
ser feita.
MP e cadastro positivo
Para que o projeto seja votado, no entanto, deputados terão que votar
antes o primeiro item da pauta, uma medida provisória que, como tal,
tranca os trabalhos de plenário. Trata-se da MP 820/2018, que disciplina
ações emergenciais de assistência e acolhimento de estrangeiros
refugiados no Brasil devido a colapso humanitário em seus países de
origem.
A medida foi concebida para atender, inicialmente, venezuelanos em
migração em massa para Roraima – dezenas de milhares já estão no estado,
o que gerou diversos tipos de problema social tanto para os nativos
quanto para os próprios estrangeiros. Relator da matéria, o deputado
Jhonatan de Jesus (PRB-RR) ampliou o propósito do texto inicial para
abarcar migrantes nacionais, além de ampliar políticas de proteção
social, atenção à saúde, atividades educacionais, cursos de
profissionalização, abrigo e saneamento.

Reprodução / Twitter
André Moura anuncia a temporada de arraial em seu Twitter: “Já é São João, Sergipe! A alegria voltou!”
Consta ainda da pauta de votações os destaques remanescente da
votação de plenário em 9 de maio, quando a Câmara aprovou o texto principal do chamado
cadastro positivo
obrigatório. De interesse do governo, pois embute medida auxiliar na
política de juros do Banco Central, o cadastro positivo já existe (Lei
12.414/11), mas é optativo. Com a obrigatoriedade proposta pelo projeto,
gestores de bancos de dados em todo o país terão acesso irrestrito a
informações sobre empréstimos quitados e compromissos de pagamento em
dia.
Um dos destaques pretende alterar o artigo que permite a gestores
financeiros a criação e o compartilhamento de banco de dados com
informações dos consumidores constantes de outras bases de dados. Outros
dois destaques visam modificar o artigo 16, que atribui a gestores de
bancos de dados, fontes (aqueles que concedem o crédito) e os
consulentes a responsabilidade por danos materiais e morais ao
cadastrado.
Senado
Em 23 de maio, o cearense Eunício Oliveira (MDB-CE), presidente do
Senado, mostrou que os ritmos típicos do São João, há tempos consagrados
nos costumes nacionais, terão seu merecido espaço ampliado. Naquele
dia, entre reuniões e votações de plenário, o emedebista deu uma pausa
para receber instrumentistas, compositores e intérpretes de forró em
mobilização para transformar o ritmo nordestino em patrimônio imaterial
da cultura brasileira. Com as bençãos de Eunício, o pedido de registro
foi encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan) pela Associação Balaio do Nordeste, da Paraíba.
O compromisso tomou pouco tempo da agenda de Eunício naquela
quarta-feira, dia típico de votações e movimentação no Congresso. Mas
serviu para mostrar que, a exemplo do senador e do deputado André Moura,
o grupo que reúne 27 senadores e cerca de 200 deputados nordestinos – e
todos os demais parlamentares chegados a um arrasta-pé – terá um pé nas
quadrilhas de São João e outro em plenário. E, em época de Copa que se
estende para meados de julho, o quórum passa a ser desafio.

Jane de Araújo / Agência Senado
Eunício e conterrâneos nordestinos se dividirão entre o forró e o voto em plenário
A despeito dos festejos e das disputas governo
versus
oposição, senadores têm sessão marcada para votar, na próxima
terça-feira (5), o projeto (PLS 493/2017, complementar) que altera o
modelo de cobrança do Imposto sobre Serviços (ISS) para empresas de
transporte privado de passageiros (Uber, Cabify, 99 Pop, etc). O texto
tramita em regime de urgência, o que lhe confere prioridade de votação.
Além do PLS 493, também consta da pauta o projeto (PLC 8/2018) que
oferece medidas de reforço à prevenção e à repressão ao contrabando, ao
descaminho, ao furto, ao roubo e à receptação de mercadorias. Entre
outras disposições, o texto pune condutores que utilizarem seu veículo
nas práticas mencionadas com a cassação da carteira de habilitação ou
proibição, por cinco anos, para tirar o documento.
MPs dos caminhoneiros
Na próxima quarta-feira (6), a partir das 14h30, serão instaladas
comissões mistas para analisar cinco medidas provisórias, três das
quais editadas pelo presidente Michel Temer como parte do
acordo com
caminhoneiros
para encerrar a greve iniciada em 21 de maio. O acerto inclui a redução
de R$ 0,46 no preço do litro do diesel por um prazo inicial de 60 dias.
As MPs são a 831/2018, a 832 e a 833 de 2018.
A ideia é que as três comissões estejam instaladas antes das 16h. A
MP 831 reserva 30% do frete contratado pela Companhia Nacional de
Abastecimento (Conab) para cooperativas de transporte autônomo,
sindicatos e associações de autônomos. Já MP 832/2018, que instituiu a
Política de Preços Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, facilita a
contratação de fretes em todo território nacional. Por sua vez, a MP
833/2018 altera a Lei dos Motoristas para estender às rodovias
estaduais, distritais e municipais a dispensa de pedágio pelo eixo
suspenso de caminhões. Na legislação anterior, o benefício só é válido
em rodovias federais.
* Com informações das Agências Câmara e Senado.
<< Deputados divergem sobre eficácia de medidas para acabar com greve dos caminhoneiros
<< Petrobras volta a elevar preço da gasolina dois dias após greve; litro fica 2,25% mais caro nas refinarias
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