Novo governo "O que mais faço é discutir relação", afirma Temer sobre base aliada Papa revelou preocupação de todos nós sobre o país, diz presidente


Brazil's President Michel Temer speaks at a press conference on the sidelines of the G20 Leaders Summit in Hangzhou, in China's eastern Zhejiang province on September 4, 2016. G20 leaders confront a sluggish global economy and the winds of populism as they open annual talks, but the long war in Syria and the South China Sea territorial dispute hang over the summit. / AFP PHOTO / GREG BAKER ORG XMIT: GB6377Novo governo "O que mais faço é discutir relação", afirma Temer sobre base aliada Papa revelou preocupação de todos nós sobre o país, diz presidente O presidente Michel Temer (PMDB) disse neste domingo (4) que conversa frequentemente com os demais partidos para "manter a base unida" no governo.
"O que eu mais faço é discutir relação, faço isso permanentemente", disse, em resposta às declarações do presidente do PSDB, Aécio Neves, ao jornal "O Globo" de que o recém-empossado presidente precisa conversar com os tucanos sobre as reformas desejadas se quiser garantir a sua governabilidade.

Greg Baker/AFP
Brazil's President Michel Temer speaks at a press conference on the sidelines of the G20 Leaders Summit in Hangzhou, in China's eastern Zhejiang province on September 4, 2016. G20 leaders confront a sluggish global economy and the winds of populism as they open annual talks, but the long war in Syria and the South China Sea territorial dispute hang over the summit. / AFP PHOTO / GREG BAKER ORG XMIT: GB6377
Presidente Michel Temer concede entrevista a jornalistas em Hangzhou, na China
"Também, com uma base de quase 20 partidos, se você não fizer permanentemente, não consegue manter a base unida. Quando tivermos dois, três partidos, fica mais fácil, mas por enquanto precisamos conversar permanentemente", disse Temer, em entrevista coletiva em Hangzhou (China), onde participa da cúpula do G20.
Ao citar também outros partidos que integram a base, disse que "com essa base sólida é que nós vamos conseguir aprovar questões aparentemente difíceis, mas que produzirão efeitos muito benéficos no futuro".
Temer disse não se preocupar com a "compreensão" pelos partidos, "porque acho que estão todos preocupados não é em apoiar o governo, apoiar o presidente que chegou agora, definitivamente, à Presidência, mas apoiar o Brasil".
Questionado sobre sua posição a respeito do reajuste de salários do Judiciário, em discussão no Congresso, Temer disse apenas que iria "esperar o Senado decidir".
O projeto prevê elevar o teto dos vencimentos do Judiciário de R$ 33,7 mil para R$ 39,2 mil. O tema provocou divergências entre senadores do PSDB e do PMDB devido ao grave momento econômico que o país enfrenta —os tucanos eram contra o reajuste, e pressionaram Temer a não defender publicamente o projeto, enquanto peemedebistas apoiavam a ideia.
"A minha tarefa será depois da avaliação do Senado. Dependendo do que o Senado decidir, vem para a sanção ou veto. Daí é que eu vou examinar (...) Vejo que há uma grande divisão no Senado, mesmo no PMDB, alguns que votam a favor, mas muitos que votam contra, ao fundamento de que não se pode ter gastos públicos neste momento."
PRIVATIZAÇOES
Na coletiva, Temer foi questionado sobre a intenção de privatizações de sua gestão, se ainda havia clima político para tais medidas.
"São duas vertentes", respondeu. "Uma primeira é a desestatização, que ainda está em pé. Outra são as concessões (...) No dia 13 [de setembro] devemos anunciar aquelas matérias que poderão ser concedidas e, de igual maneira, igualmente desestatizadas. [O ministro da Fazenda, Henrique] Meirelles também está levantando dados para verificar os ativos que podemos desestatizar."
PAPA
O presidente comentou ainda as declarações do papa Francisco neste sábado (3) de que o Brasil atravessa um momento triste.
Ao pedir que rezem pelo Brasil, disse Temer, o papa "revelou uma preocupação com o Brasil, uma preocupação que todos temos".
"Acho que alegria vem pouco a pouco. Se nós pegarmos que saímos de um instante um pouco complicado, eu não tenho a menor dúvida disso. Foram três, quase quatro meses de uma problemática político-institucional que gerou conflitos", disse Temer.
Questionado sobre se o papa estaria equivocado, o presidente rapidamente disse: "Equivocado jamais".
Um dia depois de ter criticado as manifestações pró-Dilma, que disse serem "inexpressivas", Temer voltou ao assunto neste domingo (4), explicando sua posição.
"Aquele movimento de junho de 2013, ele naufragou por causa dos depredadores. Vocês se lembram que, quando começaram a depredar, o movimento ficou paralisado. Exata e precisamente o que mostra que o povo brasileiro não é afeito a depredação", disse.
"A depredação é delito, isso não é manifestação. E acho que nesse sentido que o papa, que é sábio, vendo tudo isso, disse 'orem pelo Brasil', para, quem sabe, fazer o que eu tenho pregado: vamos pacificar o país."
O presidente ainda disse que, se depender de convite para o papa ir ao Brasil, que ele o faria.
SAPATO
Temer explicou ainda aos jornalistas seu momento de compras em um shopping de Hangzhou, que, considerado uma agenda privada, não foi divulgado à imprensa brasileira.
O presidente disse ter comprado um par de sapatos para substituir o seu, que tinha quebrado.
"Meu sapato quebrou, quebrou o salto. E, daí, tive que comprar o sapato."
Temer, então, mostrou que calçava o produto recém-adquirido.
Segundo um site local de Hangzhou, Temer gastou 798 RMB (cerca de R$ 388) em um par de sapatos de couro marrom da marca Satchi, que se diz inspirada em Florença, na Itália, com estilo que "mistura funcionalidade e moda, assim como [design] clássico e moderno" para o mercado chinês. A marca tem lojas nas principais cidades do país, como Beijing, Xangai, Harbin, Jinan e Chongqing.copiado  http://noticias.uol.com.br/ultimas-

Ato começou em Copacabana Centenas fazem passeata no Rio para pedir saída de Temer e nova eleição

José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo Ato começou em Copacabana Centenas fazem passeata no Rio para pedir saída de Temer e nova eleição

Rio tem manifestação contra Temer


José Lucena/Futura Press/Folhapress
Protesto no Rio de Janeiro pede saída do presidente Michel Temer e novas eleições
Protesto no Rio de Janeiro pede saída do presidente Michel Temer e novas eleições

Manifestantes fazem passeata neste domingo (4) na zona sul do Rio para pedir a saída do presidente Michel Temer. O ato começou às 11h na praia de Copacabana e chegou no início da tarde a Botafogo.
O grupo grita palavras de ordem como "Fora, Temer" e "O povo é que tem que decidir", pedindo a realização de novas eleições presidenciais.
A caminhada é pacífica. A Polícia Militar não estimou o número de presentes. Os organizadores estimam em 8.000 os presentes.
No fim da tarde, os organizadores pretendem fazer um ato político-cultural no Canecão, antiga casa de shows.
A estudante Ester Lima, 21, disse que o impeachment de Dilma Rousseff, aprovado nesta semana no Senado, foi um golpe. "Nós precisamos fazer o Brasil acordar. Vivemos um golpe aplicado pelas forças corruptas. Se não lutarmos tudo que foi conquistado até hoje em nossa história será perdido", afirmou.
O escritor Igor Carvalho Benziak, 49, defendeu a realização de novos atos contra o governo Temer.
"Sofremos um golpe e vamos continuar nos manifestando até os corruptos saírem. É um ato pacífico e legítimo", disse.
Entre os manifestantes, há bandeiras de partidos de esquerda, das centrais sindicais CUT e CTB e da Frente Brasil Popular, que reuniu movimentos contrários ao impeachment. A deputada Jandira Feghali, candidata do PC do B a prefeita do Rio, também está presente.
Em São Paulo, uma nova manifestação contra o governo Temer está marcada para a tarde deste domingo, na avenida Paulista.
O ato foi convocado pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, formadas por movimentos sociais como MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e CMP (Central de Movimentos Populares).
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Processo de cassação Eduardo Cunha articula para esvaziar votação Ricardo Botelho/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo Movimento tem como alvo o PMDB e parlamentares do Centrão

Processo de cassação Eduardo Cunha articula para esvaziar votação Ricardo Botelho/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo Movimento tem como alvo o PMDB e parlamentares do Centrão

votação de seu processo de cassação
Em Brasília

  • Pedro Ladeira/Folhapress
Com a proximidade do julgamento final de seu processo de cassação, o deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) intensificou as articulações para tentar salvar seu mandato.
Suspenso do exercício parlamentar e sem a presidência da Câmara dos Deputados, o peemedebista passou a se dedicar mais à sua defesa e tenta reagrupar sua "tropa de choque" na Casa, dispersa por causa da campanha eleitoral municipal.
Na semana passada, líderes aliados de Cunha passaram a fazer um levantamento em suas bancadas para saber quais deputados pretendem comparecer à votação, marcada para a segunda-feira da próxima semana.
O peemedebista sabe que os parlamentares que estiverem presentes no plenário dificilmente votarão abertamente a seu favor às vésperas das eleições. Por isso, articula para que os deputados faltem à sessão.
O movimento de esvaziamento tem como alvo o PMDB e legendas do Centrão --grupo de 13 partidos liderados por PP, PSD, PTB e Solidariedade. Para que o deputado afastado seja cassado pelo plenário da Câmara, bastam 257 votos favoráveis à condenação --a Casa tem 513 deputados. Os parlamentares que se ausentarem, portanto, estarão ajudando o peemedebista.
Em outra frente, Cunha tenta convencer seus aliados a repetir, na votação de sua cassação na Câmara, o precedente aberto com o fatiamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado, na quarta-feira. A estratégia é tentar aprovar uma pena mais branda, por meio da apresentação de uma emenda.
Nesta semana, Cunha também começou a entregar cartas aos deputados na qual reafirma sua defesa. No documento, diz que já foi punido ao ter de renunciar à presidência da Câmara, em 7 de julho, e que uma eventual cassação vai "destruir a vida dele e da família".
"Peço que tome sua decisão com isenção sobre a sua gravidade, cuja consequência é tamanha, a ponto de destruir a minha vida e principalmente a da minha família."
O peemedebista pede ainda que os deputados se atenham ao mérito da representação que pede sua cassação. Ele lembra que será julgado sob acusação de ter mentido à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras em 2015, de que não possuía contas secretas no exterior; e não por outras acusações contra ele, que ainda serão julgadas pelo Supremo Tribunal Federal.
Cunha continua morando em um apartamento funcional da Câmara no fim da Asa Sul, em Brasília, mesmo estando suspenso do mandato desde 5 de maio, por decisão do STF. O local passou a ser o escritório político do peemedebista na capital federal. É lá onde ele passa praticamente todo o dia durante a semana e de onde despacha com advogados e com aliados.

Campanha

As visitas de aliados, porém, diminuíram com o início da campanha para as eleições municipais. Um dos principais membros da "tropa de choque" de Cunha, o deputado Carlos Marun (PMDB-MS) disse que ainda não conseguiu visitar o peemedebista no apartamento funcional.
Tenho me dedicado mais à campanha dos meus aliados no Mato Grosso do Sul."
De acordo com aliados, a comunicação entre eles e Cunha está mais difícil. Embora seja um habitual usuário do WhatsApp, o peemedebista prefere conversar sobre sua estratégia de defesa pessoalmente. No entanto, a campanha tem reduzido a ida dos deputados à Brasília, já que ficam mais nos Estados, para se dedicar às suas próprias campanhas ou à de aliados.
Cunha costuma passar a semana em Brasília e viaja ao Rio de Janeiro, cidade onde mora sua família, apenas nos fins de semana. Geralmente vai para a capital federal às segundas ou terças-feiras e volta à capital fluminense às quintas ou sextas-feiras. Às vezes, altera a rotina e viaja para São Paulo ou Rio na semana, para acompanhar audiências de processos dos quais é alvo.
Desde agosto, a maioria dos trajetos passou a ser feito em voos comerciais, e não mais em jatinhos particulares que Cunha contratava logo após perder o direito de usar aviões da FAB (Força Aérea Brasileira).

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Governo deve anunciar pacote de concessões em 13 de setembro, diz Temer 13:09 BRT SÃO PAULO (Reuters) - O governo federal deve anunciar em 13 de setembro o primeiro pacote de concessão de ativos de infraestrutura, afirmou neste domingo o presidente Michel Temer, na China.

Governo deve anunciar pacote de concessões em 13 de setembro, diz Temer 13:09 BRT 
SÃO PAULO (Reuters) - O governo federal deve anunciar em 13 de setembro o primeiro pacote de concessão de ativos de infraestrutura, afirmou neste domingo o presidente Michel Temer, na China. SÃO PAULO (Reuters) - O governo federal deve anunciar em 13 de setembro o primeiro pacote de concessão de ativos de infraestrutura, afirmou neste domingo o presidente Michel Temer, na China.
    Temer viajou para o país asiático para participar da reunião de líderes do G20 logo após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, na semana passada. Em breve entrevista a jornalistas, Temer não deu detalhes sobre o pacote, mas afirmou que as desestatizações estão de pé".
    "No dia 13, deveremos anunciar aquelas matérias que poderão ser concedidas", disse Temer a jornalistas.   
    Mais cedo, o presidente havia dito em discurso que uma ampla agenda de reformas está sendo promovida no Brasil com foco em elevar a produtividade da economia e gerar ambiente de negócios mais favorável.
Na entrevista, o presidente citou que indicadores de confiança na economia "cresceram enormemente e quando a confiança cresce o emprego começa a aumentar e você naturalmente terá alegria. Mas com 12 milhões de desempregados há uma certa tristeza nisso e uma certa indignidade".
A declaração foi em resposta a pergunta de jornalista sobre comentários do papa Francisco, que na véspera pediu orações ao povo brasileiro "neste momento de tristeza".
Segundo Temer, o papa "revelou uma preocupação com o Brasil, que é uma preocupação que todos nós temos. A alegria se formará pouco a pouco ... não tenho a menor dúvida de que nós saímos de um instante um pouco complicado. Foram três, quatro meses de uma problemática político-institucional que gerou conflitos", disse.
"Neste sentido,  o papa disse 'orem pelo Brasil'. Quem faz uma oração faz para que a ação seja pacificadora e acho que isso é o que o papa está pedindo", disse Temer, que aproveitou para criticar depredações ocorridas durante manifestações que se seguiram ao impeachment de Dilma, na semana passada.
Questionado sobre o comportamento da base aliada, Temer afirmou que mantém diálogo permanente com os partidos e disse que preza "muito o apoio do PSDB".
"Com esta base sólida, vamos conseguir aprovar questões aparentemente difíceis, mas que produzirão efeitos muito benéficos no futuro", disse o
presidente sem dar detalhes. O governo pretende, além de aprovar o Congresso proposta que limita o aumento de gastos, apresentar reformas da Previdência e nas relações de trabalho.
Ao ser questionado sobre a necessidade de discutir a relação com sua base, o presidente afirmou que com uma base de quase 20 partidos, se não fizer isso permanentemente não se consegue manter a união.
"Quando tivermos dois, três partidos fica mais fácil, mas, por enquanto precisamos conversar permanentemente", disse Temer.
"Precisamos de base sólida, mas mais do que isso, a compreensão dos partidos que nos apoiam e até o presente momento não tenho dúvida desta compreensão", acrescentou.
Sobre a proposta de reajuste dos salários do Judiciário, Temer afirmou apenas que vai esperar o posicionamento do Senado.
"Vejo que há grande divisão do Senado, mesmo no PMDB. Não se pode ter gastos públicos neste momento."Temer afirmou ainda que após o G20, ficou marcada uma reunião dos Brics – grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - no Estado de Goa, na Índia, em outubro e que entre as  preocupações comuns estão desemprego, terrorismo e mudanças climáticas, pauta que também é do interesse das nações do G20.
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Temer diz em discurso na China que agenda ampla de reformas está em curso no Brasil

 Temer diz em discurso na China que agenda ampla de reformas está em curso no Brasil 10:02 BRT
SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Michel Temer afirmou em discurso na China neste domingo que uma ampla agenda de reformas está sendo promovida no Brasil com foco em elevar a produtividade da economia e gerar ambiente de negócios mais favorável.
 
SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Michel Temer afirmou em discurso na China neste domingo que uma ampla agenda de reformas está sendo promovida no Brasil com foco em elevar a produtividade da economia e gerar ambiente de negócios mais favorável.
Temer, que viajou à China para participar da reunião de líderes do G20 logo após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff na semana passada, reafirmou que seu governo está buscando "um ajuste fiscal amplo e sustentável”.
“Juntamente com o Congresso Nacional, instituiremos um teto constitucional para o crescimento das despesas governamentais", disse o presidente em discurso  durante reunião de líderes do Brics, em Hangzhou. "O crescimento real zero do gasto público levará à redução da dívida do Estado", acrescentou Temer.
    No discurso, o presidente brasileiro defendeu participação dos países integrantes do Brics – bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - como forças para a estabilidade econômica global e cobrou mecanismos mais representativos nas reformas no Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
    "Precisamos de instâncias decisórias internacionais mais representativas e, portanto, mais legítimas e eficazes", disse Temer no discurso.
Temer também afirmou que nenhum país está livre do terrorismo e que a Organização das Nações Unidas (ONU) é a instância mais adequada para se discutir estratégias globais contra riscos de segurança.
Ele disse ainda que cooperação internacional "é vital para prevenir e punir atos de terrorismo".

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PSDB e DEM decidem questionar no STF fatiamento de votação de impeachment

PSDB e DEM decidem questionar no STF fatiamento de votação de impeachment

quinta-feira, 1 de setembro de 2016 21:22 BRT
 
Por Maria Carolina Marcello
BRASÍLIA (Reuters) - O PSDB e o DEM mudaram novamente seu posicionamento e decidiram nesta quinta-feira que vão recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para questionar o fatiamento da votação do impeachment que cassou o mandato de Dilma Rousseff, mas ao mesmo tempo manteve os direitos políticos da ex-presidente.
De acordo com uma fonte do PMDB, o presidente nacional do partido, Romero Jucá (PMDB-RR), também vai assinar a ação do PSDB e do DEM que será apresentada ao STF na sexta-feira.
O líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), explicou os motivos da legenda de recorrer ao STF. "O partido resolveu, sim questionar a decisão equivocada do Senado no que diz respeito à inabilitação da presidente, até porque o próprio partido dos trabalhadores entrou com um pedido solicitando a anulação total da sessão", afirmou.
"Nós estaremos dando ao Supremo a oportunidade de rever apenas aquela parte que consideramos equivocada da decisão e que naturalmente fere de forma mortal a Constituição brasileira", disse Cunha Lima.
Na véspera, logo depois da polêmica votação, integrantes dos partidos demonstraram publicamente seu descontentamento tanto com o fatiamento, quanto com a postura de peemedebistas, que apesar de condenarem a ex-presidente, não a inabilitaram para assumir cargos públicos.
O episódio gerou "desconforto" entre parlamentares tucanos e do DEM, nas palavras do presidente do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG). Ele e o senador José Agripino (DEM-RN), presidente do partido, cobraram do PMDB compromisso com o governo do presidente Michel Temer.
A celeuma fez com que o próprio Temer se manifestasse em seu primeiro pronunciamento público após ser efetivado na Presidência, na abertura de uma reunião ministerial, quando afirmou que o episódio gerou "embaraço" ao governo, uma vez que senadores da base não consultaram o Palácio do Planalto ao votarem contra a inabilitação de Dilma. Temer ressaltou que esse tipo de conduta não seria tolerada.
Passado um dia do desentendimento, Cunha Lima afirmou que a situação será superada, mas não foi algo que agradou. O líder tucano identificou a participação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), no episódio e disse que pretende conversar com o senador assim que ele voltar da viagem com Temer à China, por ocasião de reunião de cúpula do G20. "Não se faz política com bola nas costas", declarou Cunha Lima, ponderando, entretanto, que não vão criar "uma crise infinita".
"Não podemos atribuir ao governo essa ação, mas sim ao próprio presidente Renan Calheiros que encaminhou a votação", disse, referindo-se a declaração de Renan antes da segunda deliberação, posicionando-se a favor da manutenção dos direitos de Dilma.
Na votação anterior, Renan votou pela cassação do mandato da ex-presidente.
Enquanto isso, o líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), voltou a criticar nesta quinta-feira o acordo que teria ocorrido entre petistas e peemedebistas e afirmou que o PMDB foi "o fiel na balança dessa votação".
"Essa aliança, mesmo que temporária, vai servir a quem? Só a Dilma?", questionou. "Houve uma manobra para permitir que uma pessoa cassada assuma um cargo público", disse Caiado, que nesta quinta-feira também anunciou independência em relação ao governo e disse que manterá um "apoio crítico".
Jucá negou que tenha ocorrido qualquer acordo ou orientação partidária para a segunda votação.
ESTRATÉGIA
Ainda na quarta-feira, após o momento inicial de incômodo, parlamentares do PSDB e do DEM reuniram-se e decidiram que o mais estratégico era não recorrer à Justiça, para evitar eventual revisão da decisão que impediu Dilma de continuar seu mandato. Mas diante da iniciativa da defesa da ex-presidente de apresentar um mandado de segurança ao STF pedindo a suspensão dos efeitos do impeachment em caráter liminar, PSDB e DEM decidiram que também apresentarão um mandado ao Supremo na sexta-feira.
Para o líder tucano no Senado, não há risco de revisão da decisão que cassou o mandato de Dilma.
"Não há a menor hipótese de ter uma revisão do julgamento porque todo o processo foi legal, garantiu-se a defesa, o contraditório", disse. "Apenas esta parte da decisão... é que está sendo questionada, e eu tenho quase certeza que o Supremo vai reverter essa decisão."
O senador Álvaro Dias (PV-PR) já protocolou na tarde desta quinta-feira um pedido para que o STF anule a segunda votação do impeachment. 
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O ato final de uma pantomima democrática João Filho — Golpe? Farsa? Impeachment Tabajara? Chame como quiser o show proporcionado pelo Congresso mais conservador desde 1964.

 

O ato final de uma pantomima democrática

João Filho 12:05 p.m.
Golpe? Farsa? Impeachment Tabajara? Chame como quiser o show proporcionado pelo Congresso mais conservador desde 1964.
O Le Monde não sabe se é golpe ou farsa. Joaquim Barbosa, que já chamou de “encenação pra justificar a tomada do poder”, define a patacoada como “impeachment Tabajara”. Difícil mesmo classificar o que aconteceu com o Brasil, mas fiquem à vontade para chamar de golpe. Quer ser mais preciso? Chame de golpe parlamentar. Ou “palaciano”, como preferiu a antes negadora do golpe, Luciana Genro.
Não bastou o Ministério Público Federal e a perícia do Senado apontarem que Dilma não cometeu crime. O palco já estava armado, os artistas ensaiados, o roteiro escrito. Nada iria estragar o show que já tinha o seu desfecho definido.
À Dilma foi garantido amplo direito de defesa, mas ela poderia trazer Jesus Cristo para testemunhar a seu favor que nem a bancada evangélica daria ouvidos. Todo o ritual democrático foi seguido numa vã tentativa de conferir legitimidade à farsa. Nessa pantomima, é Jesus.com quem vamos celebrar, já que, sem ele, nada disso seria possível. Aqui tudo é disfarçado, dissimulado, fantasiado. Tudo parece, mas não é.
As condições materiais para o ato final estavam garantidas: o congresso mais conservador desde 1964, uma imprensa disposta a cobrir docilmente o espetáculo e um STF na plateia, assistindo a tudo em silêncio. O cenário estava pronto para os senadores executarem suas performances.
Sem o mesmo suor e swing do primeiro ato na Câmara, mas com a mesma dose cavalar de hipocrisia, o julgamento no Senado foi outro grande desfile do chorume brasileiro: ciclistas fiscais julgando pedaladas. Famílias escravocratas apontando a canalhice alheia. Ladrões do dinheiro público cobrando ética na política. O circo da hipocrisia voltou, senhoras e senhores!
Janaína Paschoal desempenhou com louvor o seu papel de protagonista no grande show. Munida do seu já famoso neopentecostalismo-jurídico, Jana evocou Deus, chorou e mostrou estar imbuída da divina missão de salvar os netos de Dilma. Uma querida!
Mas nada foi tão simbólico quanto a indumentária de Ana Amélia (ex-Globo e, atualmente, no PP). Ela considerou adequado ir à votação fantasiada de Constituição. Uma fantasia que caiu como uma luva para um show que podemos chamar de cosplay da democracia.
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Foto: Facebook
Mas, sejamos justos, muitos senadores não fizeram questão de escamotear o caráter golpista do evento. Assistam ao vídeo, volto sem seguida.
Viram a franqueza? Vamos registrar aqui as confissões.
Acir Gurgacz (PDT) nem corou: “Nós temos a convicção de que não há crime de responsabilidade fiscal nesse processo, mas falta governabilidade”.
Wellington Fagundes (PR-MT) também mandou na lata: “a maioria aqui nós votamos [SIC] exatamente pela questão da governabilidade”.
Telmário Motta (PDT) também não enrolou: “Considero que a presidente Dilma não foi afastada pela prática de crime algum, mas, sim, por posturas políticas adotadas que não foram capazes de conquistar uma base de apoio congressual minimamente favorável ao seu governo”.
Esses senadores estão afastando uma presidenta democraticamente eleita por falta de governabilidade – aquela, que Eduardo Cunha e sua legião boicotaram de todas as maneiras. Estão convictos da inocência da acusada, mas a condenaram assim mesmo.
É a lógica cristovambuarquiana atualizando o Direito a seu modo. Vejam o que o senador do PPS disse ao El País:
Na dúvida sobre a inocência, prenda o acusado. É mais ou menos o que se fazia no Brasil depois de 1964.
Quatro raras performances de franqueza no circo da hipocrisia, mas não foram as únicas. A Família Bolsonaro também fugiu da encenação, demonstrando que até no golpismo há de se ter dignidade. Pai e filho fizeram um paralelo com o Golpe de 64 e novamente homenagearam os militares:
Não me parece uma comparação tão esdrúxula. Por tamanha franqueza, os Bolsonaros merecem um lugar de honra no Memorial do Golpe a ser construído pela História.
E pra encerrar gloriosamente essa pantomima democrática, só mesmo se Michel Temer fosse atrás de legitimidade na China.

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João FilhoJoaofilhosep@​gmail.com@jornalismowando
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AFP Durante concerto em Paris, Caetano Veloso pede: 'Fora, Temer' Cantor e compositor baiano participa de tradicional festa de brasileiros na Europa Aos gritos de golpista, ministro deixa festival 8 Acordão Andre Dusek/Estadão Renan: suspender direitos de Dilma seria 'desproporcional' Para o presidente do Senado, decisão de poupar petista não criará precedente favorável a Cunha Maia consulta Câmara sobre 'fatiamento' da votação

Sem trabalho e sem acesso a crédito, brasileiros reduzem endividamento Em junho, dívida das famílias chegou a 43,7% da renda anual, menor patamar desde dezembro de 2012

  • Consumidor vende bens para pagar despesa
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    Em junho, nível de endividamento das famílias chegou a 43,7% da renda anual, menor patamar desde dezembro de 2012; queda, porém, está diretamente relacionada à situação ruim da economia
    Anna Carolina Papp, Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira,
    O Estado de S.Paulo
    03 Setembro 2016 | 22h00
    O endividamento das famílias atingiu em junho deste ano o menor patamar desde dezembro de 2012. Mas o que, à primeira vista, poderia indicar um alívio, tem um lado perverso. A fatia de dívida na renda do brasileiro tem caído por causa do desemprego e do aperto do crédito
    De acordo com dados do Banco Central, o nível de endividamento das famílias recuou em junho, último dado disponível, para 43,7% da renda anual. Em abril de 2015, quando atingiu o maior patamar da série histórica iniciada em 2005, foi de 46,4%. “O indicador caiu porque o consumidor está fazendo menos dívidas”, afirma Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC. Segundo a instituição, a demanda por crédito do consumidor recuou 6% nos últimos 12 meses. “Há também o ajuste pelo consumo: com a piora do mercado de trabalho e o aumento da inflação, os orçamentos apertaram muito”, diz.
    Foto: SeniorLiving.Org
    Dívida Segundo o SPC Brasil, 47,3% dos inadimplentes pretendem renegociar dívidas
    Nos últimos anos, com a forte expansão da economia brasileira e várias medidas de estímulo ao consumo, houve um crescimento na concessão de crédito. “Várias medidas do governo estimularam um excesso de endividamento, como reduções de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e bancos públicos oferecendo crédito barato”, diz Luiz Rabi, economista da Serasa Experian.
    A rápida deterioração da economia brasileira, no entanto, colocou fim à bonança e levou ao aumento da inadimplência. Sem emprego, a secretária Isabel Silva entrou para esse grupo. “De repente minha renda não era mais compatível com os gastos e dívidas”, conta. Com três cartões de crédito estourados e no limite do cheque especial, ela teve de partir para as renegociações. 
    Na jornada que percorreu para sair do vermelho, ela conseguiu quitar um cartão e renegociar outro. As demais dívidas ainda dependem de um acordo. “Tinha semana que não conseguia dormir. Tinha vergonha de passar por isso”, afirma. Hoje, de volta ao mercado de trabalho e menos pressionada, ela já traça metas para ficar em dia com as dívidas. “Até o fim do ano quero resolver todas.” 
    Acordos. O caminho seguido por Isabel tem sido cada vez mais comum. Segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 47,3% dos inadimplentes pretendem buscar um acordo com credores para limpar o nome. Em 2015, esse porcentual era de 37,2%. 
    Outra estratégia utilizada pelos inadimplentes é o bico. São 22,9% os que recorrem a essa modalidade de renda extra. Isabel Silva, por exemplo, já vendeu lingerie e pijamas, e ainda faz bolos e salgados para complementar a renda. “Já fiz de tudo um pouco para conseguir um dinheiro e pagar minhas despesas.”
    copiado  http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sem-

Um golpe (bem) dado em nome de Deus Nos EUA a igreja forçou o fim da segregação racial e ampliou o caminho em direção à garantia de direitos. Entre nossos evangélicos, não tivemos histórias semelhantes. Temos exceções, mas via de regra, a igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios.



Um golpe (bem) dado em nome de Deus

Um golpe (bem) dado em nome de Deus

Ronilso Pacheco Sep. 2
Nos EUA a igreja forçou o fim da segregação racial e ampliou o caminho em direção à garantia de direitos. Entre nossos evangélicos, não tivemos histórias semelhantes. Temos exceções, mas via de regra, a igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios.


Acabou. Dilma Rousseff está destituída do cargo de Presidente da República. Sem que Deus fosse usado como “fiador” de uma mudança necessária por exigência da ética, da moral, dos bons costumes e da ordem, muito provavelmente, todo o embate ético-político que se arrastou desde o auge do poder de Eduardo Cunha na presidência da Câmara até agora, com a queda definitiva de Dilma, não aconteceria – ou poderia ter outro fim.
Não esqueçamos que a advogada Janaína Paschoal, que junto com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Realle Jr. protocolou o pedido de impeachment aceito contra a então presidente, disse, absolutamente segura de sua crença, que foi Deus quem iniciou o processo de impeachment. Na verdade, ela disse:
“Foi Deus que fez com que várias pessoas, ao mesmo tempo, cada uma na sua competência, percebessem o que estava acontecendo com nosso país e conferisse a essas pessoas coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito.”
Por que é tão importante garantir que “Deus” esteja presente nas ações políticas tomadas numa disputa?
A esquerda política brasileira nunca fez questão de justificar suas escolhas, objetivos, programas e projetos a partir de “Deus”. A “presença de Deus” na esquerda no Brasil (assim como em toda a América Latina) sempre se deu via movimentos como a chamada Teologia da Libertação católica ou via teólogos protestantes progressistas. Para a direita e o campo conservador, Deus é central. Ele é o legitimador de todas as disputas que eles empreendem.
Quando Eduardo Cunha dizia que aborto era uma pauta que só passaria por cima do seu cadáver, ele não tinha preocupação em defender isso com ideias. Ele pressupunha que, ao barrar o aborto, ele estaria defendendo a vida, e quem dá a vida é Deus. E ele sabe que, para o senso comum, este argumento basta. Aqui, o “argumento Deus” é capaz de neutralizar, ou deixar em segundo plano, qualquer desvio de conduta, atitude desonesta ou, quiçá, criminosa, de qualquer parlamentar.
Parece ser mais fácil impedir que o acusado reaja quando quem acusa está blindado pela imagem de quem está “do lado de Deus”.
É preciso ter nítida a ideia de que se está “do lado de Deus” para, mesmo sabendo que se está tão comprometido na Lava Jato quanto qualquer parlamentar petista,condenar as ações de parlamentares do PT ou mesmo vociferar sobre ética e moral contra Dilma Rousseff – ainda que ela não esteja envolvida.
Se o parlamentar fala em nome de Deus (leia-se da sua relação com a igreja), é irrelevante que a sua trajetória política o desqualifique nitidamente para reivindicar a ética, a justiça e a moral. Quando você diz defender os valores “instituídos por Deus”, você pode dizer, por exemplo, que luta para que o Brasil não se torne uma Venezuela ou não seja tomado pelo “bolivarianismo” sem precisar explicar absolutamente nada sobre o que isso significa.
Brazilian jurist Janaina Paschoal, co-author of the complaint against President Dilma Rousseff, speaks during the Senate impeachment trial of Brazilian suspended President Dilma Rousseff at the National Congress in Brasilia on August 25, 2016.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />
The impeachment trial of Brazil's first woman president, Dilma Rousseff, got underway Thursday with high expectations that the suspended leader of Latin America's biggest economy will be sacked within days. / AFP / EVARISTO SA        (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)
Janaína Paschoal no Senado Nacional, dia 25 de agosto.
Foto: Evaristo Sa/AFP/Getty Images
É certo que o debate do julgamento para o impeachment está quase restrito ao campo da gestão e da economia, mas parece ser mais fácil impedir que o acusado reaja quando quem acusa está blindado pela imagem de quem está “do lado de Deus”. Complexo é pensar que, hoje, podemos usar o adjetivo “evangélico” (ou protestante, aqui tanto faz) tanto para parlamentares como Pastor Everaldo, Magno Malta e (também agora) Jair Bolsonaro e também para figuras como Martin Luther King Jr. E isso não é simples, porque é tão destoante que se torna quase um erro gramatical colocar o último na mesma frase que os outros três.
A igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios.
Uma igreja negra nos Estados Unidos foi determinante para forçar o fim da segregação racial, enfrentar o Estado e abrir caminho para a conquista dos direitos civis dos negros, e, consequentemente, ampliar o caminho em direção para a garantia dos direitos de outros grupos sociais. Uma igreja negra na África do Sul, com Desmond Tutu e Allan Boesak à frente, foi determinante para forçar o fim do apartheid e fortalecer a luta que tinha Nelson Mandela como a figura principal. Em ambos os países, a igreja se tornou o refúgio de negros perseguidos, sem direitos, local de sua formação, autonomia e empoderamento.
A escolha dos cristãos negros e negras do sul estadunidense era transitar entre a não violência, proposta e defendida pelo Dr. King, e o apoio integral às ações enérgicas do movimento Black Power, às ações dos Panteras Negras, libertação da ativista Ângela Davis. A igreja negra na África do Sul e seus teólogos apontavam para a violência de Estado em Soweto. Tanto nos Estados Unidos quanto na África do Sul, o “Deus” reconhecido pela Teologia Negra (bem como pelas igrejas alinhadas com a Teologia da Libertação na América Latina) era aquele do êxodo do povo vindo da escravidão no Egito, liberto na travessia do Mar Vermelho, que se identificava com os homens e mulheres negros escravizados pela Europa e nos Estados Unidos e com os todos os pobres na era pós-escravocrata.
30th March 1965:  American civil rights campaigner Martin Luther King (1929  - 1968) and his wife Coretta Scott King lead a black voting rights march from Selma, Alabama, to the state capital in Montgomery.  (Photo by William Lovelace/Express/Getty Images)
O pastor Martin Luther King Jr. e outros líderes comunitários e religiosos marcham em Selma, Alabama, no dia 30 de março de 1965, se manifestando pelo direito de voto para negros no estado.
Foto: William Lovelace/Express/Getty Images
A igreja protestante que veio com a missão evangelizadora para o Brasil durante o período chamado de “protestantismo de missão” e não fomentou a formação de cristãos com histórias de luta semelhante. A força da moral das igrejas herdeiras da Reforma, sobretudo de inspiração calvinista, moldou o American way of life e, aqui no Brasil, foi, desde o início do século XX, assimilada pelas denominações que se distanciam de parte da teologia reformada e reivindicam o termo “evangélico” como sendo mais apropriado que “protestante”, mas mantém a exigência e o rigor moral. Evidentemente, tivemos evangélicos (e católicos) que se insurgiram contra a ditadura, se posicionaram contra a desigualdade econômica e a pobreza. Mas, via de regra, a igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios. E quando da virada dos anos oitenta para os noventa, as igrejas, em particular as evangélicas, descobriram os privilégios do Executivo e, principalmente, do Legislativo, o lago conservador tornou-se um mar. O que se faz “em nome de Deus”, se faz e pronto. Dilma jamais iria sobreviver, iria sucumbir mais cedo ou mais tarde. Não surpreende que o julgamento e o ataque a ela tenha sido tão mais severo que o proferido ao próprio Eduardo Cunha. Até porque, em termos de poder, Cunha segue sendo uma sombra que ronda o círculo do Palácio. Dilma não terá a mesma sorte. Dilma foi destituída “em nome de Deus, da família e da democracia (além de em nome de alguns parentes, cidades, bichos de estimação, etc)”. Um bom aprendizado de hoje pode ser que, na política brasileira, quem não “está do lado de Deus”, ou quem não sabe utilizá-lo a seu favor, está mais suscetível a golpes fatais.

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Ronilso Pacheco
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Temer pede corte médio de 30% em programas sociais, mas verba para militares e agronegócio aumenta Programas voltados para enfrentamento de violência à mulher, igualdade racial e reforma agrária estão entre os maiores recuos. Até programa de foguetes terá aumento de recursos em 2017.


O governo de Michel Temer começou de fato nessa quarta-feira. Não apenas porque Dilma Rousseff foi destituída do cargo, mas especialmente porque, naquela mesma tarde, chegou ao Congresso Nacional a proposta confeccionada com cuidado pela nova equipe econômica para a distribuição do dinheiro federal para o ano de 2017 – o chamado Orçamento da União.
A análise da lista de programas de governo, em comparação à proposta apresentada no ano passado para o ano de 2016 pela ex-presidente Dilma, desmonta a tese defendida publicamente pelos peemedebistas e pelos apoiadores do impeachment de Dilma de que o novo governo não iria deixar o lado social em segundo plano.
Sinais nesse sentido já tinham sido dados, com extinção de pastas da área, e gerado reação em setores progressistas da sociedade. Mas o que se vê na análise do Orçamento vai além. Temer acaba de propor ao Congresso a redução média de 30% nos valores para os 11 principais programas da área social do governo, já considerando a inflação do período (variação do IGP-M dos últimos 12 meses).

Brasília - Os ministros do Planejamento, Dyogo Oliveira e da Fazenda, Henrique Meirelles, entregam Orçamento da União 2017 ao 2º vice-presidente do Congresso, senador Romero Jucá (Wilson Dias/Agência Brasil)
Brasília – Os ministros do Planejamento, Dyogo Oliveira e da Fazenda, Henrique Meirelles, entregam Orçamento da União 2017 ao 2º vice-presidente do Congresso, senador Romero Jucá.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
São R$ 29,2 bilhões a menos para esse conjunto de programas (depois de aplicada a taxa de inflação no período), comparado ao que Dilma, já sob efeito da crise econômica, apresentou ao Congresso no ano passado. Trata-se de uma queda real de 14%. Muitos podem argumentar que, neste momento, essa redução é natural, já que o Brasil precisa apertar seus gastos. No entanto, as despesas previstas pelo governo para este ano são da ordem de R$ 3,4 trilhões – cerca de R$ 158 bilhões a mais (crescimento de 4,8%) que o previsto por Dilma um ano atrás. Se olharmos mais de perto, o argumento perde ainda mais força. Enquanto optou por reduzir as verbas sociais, o governo aumentou, por exemplo (e sempre já considerando o efeito da inflação no período), em R$ 1,47 bilhão as verbas programadas para ações relacionadas ao desenvolvimento do agronegócio (R$ 1,3 bilhão), a investimentos militares (R$ 175 milhões), a obras em aeroportos (R$ 186 milhões), além de ações de política nuclear e espacial, e de política externa – agora sob comando de José Serra (PSDB).

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Arte: Thiago Dezan
O governo tem a liberdade para fazer escolhas. E começou mostrando bem quais são as suas. Esses dados não estão presentes em pronunciamentos ou entrevistas das figuras chave do governo, mas em meio às 3.691 páginas da proposta orçamentária do ano que vem. Eles consideram, também, apenas os gastos com ações concretas, e não com a gestão e manutenção das áreas relacionadas, como pagamento de pessoal e despesas do dia a dia dos funcionários públicos.
A desvalorização das mulheres no governo Michel Temer não fica evidenciada apenas no fato de somente uma compor o primeiro escalão de seu governo (e mesmo assim após forte reação da opinião pública). Sua equipe econômica está propondo um forte retroceso para o suporte dessa área. O programa “Políticas para as mulheres: promoção da igualdade e enfrentamento à violência ” perdeu exatos 40% da verba planejada pelo governo anterior há um ano. Percentual muito próximo ao que foi também retirado de outra área relegada na composição de seu governo: 42,2% menos dinheiro para a “Promoção da igualdade racial e superação do racismo”.
Só para essas duas áreas, o corte (R$ 72,2 milhões) poderia ser evitado com folga caso o governo decidisse não aumentar em R$ 85,7 milhões as verbas programadas para o programa nuclear brasileiro e as ações para lançamento de foguetes e satélites. Bastava que Michel Temer adiasse por um ano o sonho de chegar às estrelas.
Mas não para por aí. Os indígenas também terão menos verba para programas de seu interesse no ano que vem, conforme planeja o governo. A “Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas ” perdeu 14,4% dos recursos no comparativo feito pelo The Intercept Brasil. Mesmo o programa de “Promoção e Defesa dos Direitos Humanos”, embora tenha recebido um aumento absoluto de R$ 3,4 milhões na verba programada, experimentará um recuo de 6,3% no comparativo com a proposta de 2016, considerando o efeito da inflação no período.
Um dos eixos que mais chama a atenção na análise realizada é o absoluto desprestígio das ações sociais no campo. O programa de Reforma Agrária e Governança Fundiária foi reduzido a mais da metade (queda de 52,6%). Esse é o programa que garante a distribuição de terras e que é desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário – extinto e colocado sob o guarda-chuva da Casa Civil, com as chaves entregues para o sindicalista urbano e acusado de corrupção Paulinho da Força. O governo programa R$ 1,2 bilhão a menos para o setor. Algumas ações dentro desse programa chamam especialmente a atenção, como a redução de R$ 412 milhões para a compra de terras a serem destinadas à reforma agrária e o corte de 63,7% na ação “Promoção da Educação do Campo”.

No entanto, não dá para dizer que é por falta de dinheiro. Os números indicam que é simplesmente questão de prioridade. Afinal, as ações de desenvolvimento do agronegócio vão de vento em popa, com crescimento programado de 7% acima da inflação. Entre as áreas específicas beneficiadas estão, por exemplo, as subvenções dadas pelo governo para viabilizar investimentos de grandes produtores rurais e agroindústrias, que subirá R$ 2,1 bilhões em relação ao proposto por Dilma no ano passado. O tópico educação também merece destaque. O amplo orçamento do setor, que abrange repasses para universidades federais em todo o país, além de repasses para educação infantil, entre outras ações (lembrando que aqui não entra pagamento de salários), passará, pelos planos do novo governo, por uma redução de 10,8% (R$ 5,48 bilhões a menos em valores constantes).
Em seu pronunciamento, horas depois de confirmado oficialmente como presidente efetivo, Michel Temer citou os programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida. Disse ele que “aumentamos o valor do Bolsa Família” e que “o Minha Casa, Minha Vida foi revitalizado”. No entanto, o que os números apresentados ao Congresso pelo governo mostram é que haverá uma redução real de 7,4% no programa “Inclusão social por meio do Bolsa Família, do Cadastro Único e da articulação de políticas sociais” – com a diferença seria possível, por exemplo, pagar o benefício básico mensal do programa para 2,3 milhões de pessoas ao longo de todo o ano que vem. Em relação ao MCMV, a previsão é ainda mais sombria. A queda, considerando a inflação do período, é de 56,7%. No ano passado, o governo propunha a integralização de cotas para o Fundo de Arrendamento Residencial no valor de R$ 12,6 bilhões. Agora, a proposta do governo para essa integralização é de R$ 4,9 bilhões.
Toda essa numeralha envolve apenas a proposta inicial de gastos. Esses valores serão trabalhados no Congresso e podem aumentar ou, considerando o perfil da base aliada, diminuir ainda mais. Além disso, na execução do Orçamento ao longo do ano que vem, o governo poderá promover diretamente o chamado contingenciamento de recursos – ou, traduzindo, fazer ainda mais cortes naquilo que já foi cortado.

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