Há 20 anos nascia o euro Deputados italianos aprovam na última hora orçamento de 2019

Há 20 anos nascia o euro

AFP/Arquivos / PHILIPPE HUGUEN
Em 1º janeiro, a criação do euro completa 20 anos. A moeda se impôs nos mercados e carteiras de valores e sobreviveu a sua grande crise, mas parece condenada a ser um frágil colosso, incapaz de conseguir consolidar a solidariedade europeia.
Primeiro foi um instrumento virtual usado apenas por financistas, contadores e administradores, até que se materializou em 1º de janeiro de 2002 e, agora, 340 milhões de cidadãos de 19 países (zona euro) compartilham a mesma moeda.
O Banco Central Europeu (BCE), que assumiu as rédeas da política monetária em 1999, afirma ter evitado uma escalada de preços, apesar do fato de a imagem de um euro inflacionário ainda persistir.
A popularidade do euro está em seu nível mais alto, porém.
Uma média de 74% dos cidadãos da zona do euro acredita que a moeda única foi benéfica para a União Europeia (UE), e 64%, para seu próprio país, conforme pesquisas publicadas em novembro pelo BCE. Isso acontece ao mesmo tempo em que movimentos populistas anti-UE estão ganhando terreno em todas as partes do continente.
"O euro está ancorado na população, e mesmo os partidos que se opõem ao sistema tiveram que reconhecer isso", como aconteceu recentemente na Itália, declarou o economista Nicolas Véron, dos Institutos Bruegel, na Bélgica, e Peterson, nos Estados Unidos.
O euro também impulsionou o comércio intercomunitário, e é a segunda moeda mais usada no mundo, embora bem atrás do dólar americano.
- Deficiências e divisões -
Em 2012, no entanto, a jovem história da moeda única europeia quase foi interrompida, arrastada pela crise da dívida soberana que ameaçou abalar o sistema bancário.
Estes acontecimentos revelaram as deficiências originais da moeda: falta de solidariedade orçamentária para a mutualização da dívida, dos investimentos e, por conseguinte, risco de disparidades profundas entre as economias da zona euro, na ausência de um credor como último recurso para os Estados em dificuldades, entre outros fatores.
Com a crise grega, em particular, como pano de fundo, "o euro alimentou as recriminações recíprocas. Por um lado, os países latinos do sul atacaram o norte pelo seu ordoliberalismo (corrente de pensamento econômico ligado à economia de mercado, desenvolvida há várias décadas na Alemanha) e, por outro, os do norte criticaram os latinos por sua lassidão", afirma o diretor de Estudos Econômicos da International Trade School (IESEG), Eric Dor.
O presidente do BCE, Mario Draghi, conseguiu apagar o incêndio de 2012, afirmando que sua instituição faria "todo o possível para salvar o euro".
Desde então, o BCE tem um programa para comprar, sob certas condições, um montante ilimitado de dívida de um país atacado nos mercados.
Uma arma de dissuasão até então nunca usada, mas que serviu para restaurar a calma.
E, para acabar com o fantasma da deflação, considerado um veneno para a economia, o BCE recorreu a ações sem precedentes, levando suas taxas de juros ao nível mais baixo e comprando principalmente dívida pública de 2015 a 2018, por um montante total de 2,6 trilhões de euros.
No entanto, em nível político, pouco (ou nada) foi feito para corrigir os defeitos inatos da moeda. Os 19 países ainda não possuem as ferramentas para corrigir as disparidades de desenvolvimento, ou investir para enfrentar os desafios econômicos.
- Do barro ao concreto -
Nos anos 1990, "o mais importante na Europa era, em nível econômico, prover o mercado único com uma moeda única para pôr fim a mudanças significativas na taxa de câmbio entre as moedas dos países-membros e, em nível político, para trazer a Alemanha reunificada para a Europa Ocidental", disse o economista Gilles Moec, do Bank of America Merrill Lynch e ex-funcionário do Banco da França.
Embora esses argumentos fossem suficientes naquela época para "vender" o euro para a população, desde então o prédio não conseguiu se consolidar.
De acordo com a reforma "mínima" da área do euro, anunciada em dezembro de 2018, os 19 países-membros chegaram a um acordo apenas sobre um instrumento orçamental muito limitado.
As ideias mais audaciosas - um ministro das Finanças para a zona do euro, ou a criação de um Fundo Monetário Europeu, entre outras - foram descartadas nos últimos 18 meses de negociações.
Já "o BCE fez o que era possível depois de estabilizar a moeda e o sistema bancário", avaliou Moec.
O economista Nicolás Véron é mais otimista. Para ele, com o saneamento bancário, as dívidas públicas e a ação do BCE, o euro é agora um "colosso com os pés de cimento, em vez de barro".

Deputados italianos aprovam na última hora orçamento de 2019

AFP / Alberto PizzoliSimpatizantes do opositor Partido Democrático italiano protestam em frente à Câmara dos Deputados, em Roma, durante a votação do orçamento nacional
Os deputados italianos aprovaram na noite deste sábado, em um ambiente eletrizante, o orçamento de 2019, o primeiro do Executivo populista, revisado e corrigido após uma longa disputa com Bruxelas.
O texto é fruto de um acordo duramente negociado com a Comissão Europeia, que havia rejeitado a versão inicial pela primeira vez na história da União Europeia (UE). Pouco antes do Natal, ele foi aprovado pelo Senado.
O governo de união entre o Movimento 5 Estrelas (M5E, anti-sistema) e a Liga (extrema direita), no poder desde 1º de junho, teve que limitar uma parte de suas principais medidas para manter o déficit público em 2,04% do Produto Interno Bruto (PIB), contra os 2,4% iniciais. A previsão de crescimento para 2019 foi reduzida para 1%, em vez de 1,5%.
A Itália terá que conter sua dívida pública, que excede 130% do seu PIB, para evitar uma sanção dos mercados financeiros e um processo por infração da UE.
A briga entre o governo italiano e a UE começou em outubro, quando a Itália apresentou um orçamento com previsão de déficit de 2,4% do PIB, muito superior ao 0,8% com o qual o governo anterior havia se comprometido. A Comissão rejeitou oficialmente o projeto em 23 de outubro.
O acordo fechado no último dia 19 com Bruxelas previa bilhões de euros de economia nas duas principais medidas do governo: a reforma das pensões, a pedido da Liga, e uma renda mínima em favor dos mais desfavorecidos, impulsionada pelo M5E. As duas medidas serão lançadas em abril.
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Nova Zelândia dá as boas-vindas a 2019

Longo fechamento federal nos EUA, combustível para incerteza econômica

Longo fechamento federal nos EUA, combustível para incerteza econômica

AFP / SAUL LOEBO Capitólio dos Estados Unidos, em Washington DC, em 17 de dezembro de 2018
A paralisação do governo dos Estados Unidos causada pelo "shutdown" (fechamento) pode ter consequências não intencionais, como prejudicar as estatísticas econômicas da maior economia do mundo em um momento em que os mercados estão extremamente sensíveis a qualquer incerteza.
No nono dia da batalha entre o presidente Donald Trump e os democratas no Congresso, a publicação dos indicadores está atrasada.
Na ausência de um acordo sobre o financiamento para a construção de um muro na fronteira com o México, milhares de funcionários públicos foram forçados a deixar seus escritórios devido à falta de fundos, o que impede a divulgação de alguns dados econômicos importantes.
"Não haverá uma publicação embargada de dados do Birô de Censos ou do Bureau of Economic Analysis (BEA) devido ao 'shutdown' do governo que afeta essas agências", explicou Suzanne Bohnert, porta-voz do Departamento do Trabalho, encarregado da publicação destes indicadores.
Um e-mail automático resume a situação quando o Departamento de Comércio é questionado sobre os indicadores: "O BEA não pode ser acessado devido ao fechamento do governo. (...) Os funcionários não estão disponíveis para responder até que os fundos sejam transferidos".
No momento, a publicação do índice de vendas de novos imóveis foi adiada. Mas se o bloqueio persistir após 1º de janeiro, também poderá afetar dados sobre custos de construção, pedidos industriais e, acima de tudo, a balança comercial, prevista para 8 de janeiro.
Uma cifra particularmente sensível para os mercados devido à guerra comercial travada por Trump.
Espera-se que um dos indicadores cruciais, o do número de empregos de novembro, que normalmente é publicado na primeira sexta-feira de cada mês, seja mantido até 4 de janeiro, já que o Departamento do Trabalho ainda tem fundos para operar.
Além do fornecimento desses dados, a coleta de informações começa a ser comprometida.
- Impacto sobre os mercados -
"A paralisação orçamentária já reduz a oferta de elementos essenciais para qualquer mercado: os dados econômicos federais", afirmou Diane Swonk, renomada economista do grupo Grant Thornton International, em um tuíte.
"Se continuar assim, poderá ter um impacto nos mercados financeiros, bem como nas decisões sobre a taxa de juros do Fed em 2019", alertou.
Em um contexto de extrema volatilidade nos mercados de ações, preocupado com as tarifas em relação à China e com a política monetária do Fed, o fechamento pode adicionar uma nova dose de instabilidade.
Economicamente, a paralisação parcial dos serviços administrativos deve ter um impacto negativo modesto no crescimento, embora deva ser observado mais na capital.
"Embora o impacto econômico de um 'shutdown' parcial de duas semanas seja mínimo, menos de 0,1 ponto percentual do crescimento do Produto Interno Bruto, isso aumentará a incerteza política em um momento inoportuno", alertaram os analistas da Oxford Economics.
A prefeita de Washington, Muriel Bowser, pediu ao presidente Trump para pôr fim à paralisação, alegando que os 170 mil funcionários federais da capital "pagam um preço muito alto".
O desemprego forçado de funcionários públicos também tem consequências inesperadas no setor privado.
Na sexta-feira, a Associação Nacional dos Agentes Imobiliários (NAR) expressou seu medo quanto ao impacto das vendas de casas em áreas onde é obrigatório fazer um seguro de inundação para obter uma hipoteca.
"Quanto mais o fechamento durar, menos casas serão vendidas e o crescimento econômico será mais lento", afirmou Lawrence Yun, economista da NAR.

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Bolsonaro ratifica promessas de campanha antes de assumir a presidência

Bolsonaro ratifica promessas de campanha antes de assumir a presidência

AFP/Arquivos / Mauro PIMENTELJair Bolsonaro
Um Jair Bolsonaro decidido a satisfazer o eleitorado conservador assume nesta terça-feira (1) a presidência brasileira, em meio a rígidas medidas de segurança.
Depois de prometer liberar a posse de armas por decreto no sábado, o militar da reserva de 63 anos, declarou nesta segunda-feira (31), em outro tuíte, guerra contra o "lixo marxista" que, segundo ele, explica a baixa qualidade da educação no Brasil.
"Uma das metas para tirarmos o Brasil das piores posições nos rankings de educação do mundo é combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino", escreveu.
Bolsonaro, que sobreviveu em setembro a um atentado com faca realizado por um ex-militante de esquerda, expressou em 10 de dezembro, ante o STF, sua vontade de superar a polarizada campanha eleitoral para se transformar no "presidente dos 210 milhões de brasileiros (...) sem distinção de origem, raça, sexo, cor ou religião".
- Proteção antimísseis -
Nesta terça, ele será proclamado o 38º presidente do Brasil, em meio a um impressionante dispositivo de segurança.
"A festa está pronta. Será segura, será a coroação de um processo democrático que teve inicio em 7 de outubro", afirmou, no domingo, Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da presidência após o ensaio geral da cerimônia de posse.
AFP / Carl DE SOUZACerimônia de ensaio para a posse do presidente eleito Jair Bolsonaro, em Brasília, em 30 de dezembro de 2018
Figurantes simularam o trajeto que Bolsonaro e sua esposa Michelle farão pela Esplanada dos Ministérios. É uma incógnita ainda se desfilarão no Rolls Royce utilizado para as posses presidenciais.
O percurso vai da Catedral ao Congresso - onde tomará posse formalmente - e ao Palácio do Planalto, para a transferência da faixa presidencial com o atual presidente, Michel Temer. À noite, haverá uma recepção no Palácio do Itamaraty.
A cerimônia, para a qual são esperadas de 250.000 a 500.000 pessoas, estará vigiada por um sistema antimísseis, aviões de combate e um rigoroso controle em terra.
A operação também cuidará da segurança dos chefes de Estado e autoridades estrangeiras que comparecerão à festa, como o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o secretário de Estado americano, Mike Pompeo.
O público terá de passar por pelo menos quatro postos de controle e detectores de metais instalados em lugares aleatórios.
Também foram impostas restrições de circulação aos jornalistas que cobrirão o evento.
Apesar de haver previsão de chuva, os guarda-chuvas não serão permitidos, tampouco carrinhos de bebê, mochilas, bolsas ou máscaras.
Garrafas de água, animais, objetos cortantes, produtos inflamáveis, fogos de artifício e laser também estão proibidos.
- Prioridades do governo -
Bolsonaro, que fez campanha quase inteiramente nas redes sociais, foi eleito no segundo turno com 55% dos votos contra o candidato petista Fernando Haddad.
AFP / CARL DE SOUZAEquipes de segurança no ensaio para a posse do presidente eleito Jair Bolsonaro, em Brasília, em 30 de dezembro de 2018
A popularidade do capitão do Exército na reserva cresceu por causa da insatisfação popular causada pela crise econômica, pelo desemprego, pelsa altas taxas de violência e pelos escândalos de corrupção nos últimos anos.
Em termos de economia, sua prioridade é tramitar no Congresso a reforma da previdência para reduzir seu impacto nas contas públicas. Mas a medida, altamente impopular, não será fácil de aprovar e exigirá negociações árduas com os legisladores.
Outra de suas bandeiras de campanha tem sido a flexibilização da posse de armas, sob o argumento de que "pessoas boas" devem ser capazes de se defender contra os criminosos.
Embora alguns especialistas apontem que as restrições que atualmente existem por lei devam ser modificadas por meio de uma nova lei, Bolsonaro anunciou no sábado que pretende alterar algumas das restrições por decreto quando assumir a presidência.
Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada nesta segunda-feira revela que 61% dos brasileiros acreditam que, apesar de tudo, a posse de armas de fogo "deve ser proibida, porque representa uma ameaça à vida de outras pessoas".
Essa postura era defendida por 55% dos entrevistados em outubro, segundo o instituto.
Bolsonaro vai impor uma guinada para a direita também na política externa, com uma maior aproximação de países como Estados Unidos e Israel.
AFP / EVARISTO SAO presidente eleito Jair Bolsonaro, em Brasília, em 10 de dezembro de 2018
- Ano Novo no Rio -
Antes da posse de Bolsonaro, os brasileiros comemoram o Ano Novo com seus fogos de artifício habituais, especialmente na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde a presença de cerca de 2,7 milhões de pessoas é esperada.
O Cristo Redentor será iluminado com projeções tridimensionais e criará a ilusão de que gira e estende seus enormes braços para os bairros que normalmente estão atrás dele.
A festa será animada com shows de artistas como Gilberto Gil - que durante a campanha eleitoral assinou um manifesto contra Bolsonaro - Ludmilla e Baby do Brasil.
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Bolsonaro promete melhorar o ensino erradicando 'o lixo marxista' das escolas

Bolsonaro promete melhorar o ensino erradicando 'o lixo marxista' das escolas

AFP/Arquivos / Carl DE SOUZAJair Bolsonaro
O presidente eleito Jair Bolsonaro prometeu melhorar a qualidade da educação brasileira erradicando "o lixo marxista" das escolas, em uma mensagem no Twitter postada nesta segunda-feira.
"Uma das metas para tirarmos o Brasil das piores posições nos rankings de educação do mundo é combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino. Junto com o Ministro de Educação e outros envolvidos vamos evoluir em formar cidadãos e não mais militantes políticos", afirmou.
Bolsonaro designou como ministro da Educação o filósofo de origem colombiana Ricardo Vélez Rodríguez, que também postou um tuíte nesta segunda-feira, expressando seu desejo de que 2019 marque o início de "uma nova era" para o Brasil.
"Que 2019 seja lembrado como o primeiro ano de uma nova era na qual a educação, a família e os valores que alicerçam a nação brasileira possam regar nossas esperanças e fazer florescer o futuro grandioso que merecemos. FELIZ ANO NOVO, BRASIL!", afirmou o ministro nomeado.
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2018: o ano com menos mortes na Siria

2018: o ano com menos mortes na Siria

AFP / Rami al SAYEDEm 2018, entre os 6.349 civis mortos na Síria, 1.437 eram crianças.
O ano de 2018 foi o menos mortífero na Síria desde o início da guerra em março de 2011, anunciou nesta segunda-feira o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), que contabilizou quase 20.000 mortes nos últimos doze meses.
"Em 2018, registramos o menor número anual de mortes desde o início da guerra", anunciou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman, que relatou 19.666 mortos, sendo 6.349 civis.
Entre os civis mortos, 1.437 são crianças, segundo o OSDH, que possui uma ampla rede de fontes em toda a Síria.
O ano de 2018 foi também o ano em que o presidente Bashar al-Assad reconquistou vários feudos jihadistas rebeldes graças ao apoio militar de seus dois aliados incondicionais, Irã e Rússia.
Hoje, eles controlam cerca de dois terços da Síria, de acordo com a ONG.
O conflito sírio deixou mais de 33 mil pessoas em 2017, recordou o Observatório, enquanto 2014 continua sendo o mais mortífero, com mais de 76 mil mortos.
O conflito começou em março de 2011, quando o regime reprimiu uma série de manifestações pacíficas exigindo reformas democráticas, em meio ao movimento social na região conhecida como a Primavera Árabe.
Os oponentes do presidente Bashar al-Assad pegaram em armas. Mas a guerra foi se tornando uma questão mais complexa ao longo dos anos, quando potências estrangeiras e grupos jihadistas se envolveram em um território profundamente fragmentado.
O conflito deixou mais de 360 mil mortos desde 2011 e forçou milhões de sírios a se exilarem.

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O dinheiro nunca dorme. Mas vive um pesadelo. “Cartão” de Natal para Lula

O dinheiro nunca dorme. Mas vive um pesadelo

O título do filme de Oliver Stone é muito bom para definir o que foi – e está sendo, ainda – o Natal nos mercados financeiros internacionais.
A Bolsa de Nova York teve, sexta feita, a décima maior perda em pontos de sua história: 653 pontos, num pregão de apenas três horas. 2,9% de perdas num só dia não chega a apavorar, em padrões brasileiros, mas por lá é algo muito raro, raríssimo. Pior: com um volume de negócios praticamente igual ao de um dia normal de negócios.
Dois acontecimentos surreais marcaram o pregão: primeiro, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, telefonou aos presidentes dos maiores bancos norte-americanos para negar que Donald Trump estivesse planejando demitir Jerome Powell, o presidente do Federal Reserve, o BC de lá; em seguida, o próprio Trump tuitou que a tudo ia muito bem e que o único problema da economia era o próprio Fed, querendo subir a taxa de juros.
As únicas bolsas de valores que abriram hoje, as do Japão e da China – na Ásia, o Natal chega um dia mais cedo – deram sequência à queda de Nova York e os japoneses, de forma intensa: queda de 5% no índice Nikkei, o Ibovespa deles.
Uma das regras básicas de análise de mercado financeiro é não crer com muita fé em infernos ou paraísos.
O que gera alguns “pequenos problemas”: quando eles vêm, poucos os esperam , mas quando muitos esperam, eles provavelmente virão.
taxa de juros do Tesouro americano, em 2018, variou no sentido daquilo que os economistas chamam de “curva plana”, quando os juros de curto prazo vão se aproximando dos de longo prazo e indicam a passagem da economia de um ciclo de expansão para um momento recessivo. Em janeiro, os juros oficiais eram de 1,3% para títulos de 30 dias e de 2,9% para papéis de 10 anos. Na segunda feira, os de curtíssimo prazo passaram a 2,42% e os para uma década para 2,74%.
É a isso que em “economês” se chama “aversão ao risco”: o dinheiro vai procurar a segurança dos títulos – especialmente os de curto prazo – do Tesouro dos EUA. E, portanto, deixam os mercados de maior risco, como os emergentes.
Tenho escrito aqui, diversas vezes, que a aposta da economia brasileira – e faz tempo – tem sido, ao contrário, a entrada de capital, diante da incapacidade do governo de impulsionar investimentos com seus recursos, num quadro de déficit que tende a se agravar se o crescimento da atividade econômica não compensar as desonerações que o novo governo diz – ao menos, é o que diz – irá implantar.
Compensar isso pelo maior saldo comercial também não parece, neste momento, provável: a Associação de Comércio Exterior brasileira, em boletim de há dez dias, previu queda no preço das commodities, inclusive nas nossas maiores pautas de exportação: ferro (-5,9%) e soja (-5,5%). Tudo, claro, a ver como fica a guerra comercial EUA-China.
Ainda estamos longe de poder caracterizar como recessão o que vem por aí, até porque se sabe o quanto há de teatral nas atitudes de Donald Trump.
Mas é bom já ir pondo as barbas de molho, porque expansão é, hoje, o menos provável prognóstico para o cenário econômico.



“Cartão” de Natal para Lula

Caro Lula,
Perdoe-me a falta do tratamento de  “presidente”, que sempre foi o hábito cultivado por mim nos anos de convívio com Leonel Brizola, durante os quais  “governador” era o vocativo natural.
Releve também a intimidade pessoal que não tenho e que uma dúzia de encontros na política é claro que não me dão.
Mas ambas as atitudes são necessárias para o que me ocorreu ser a maneira de celebrar este que, para quase nós, é o Dia da Confraternização Universal, enquanto o dia 1° deveria ser o Dia da Esperança Geral. O que, no primeiro dia do 2019 que vai começar parece ser não só uma impropriedade, mas também uma amarga ironia.
Deixemos, porém, as agruras futuras para o futuro e falemos das presentes, sem deixar nunca de lado o tantas vezes citado aqui “não tá morto quem luta e quem peleia” dos gaúchos.
Creio que posso ousar a intimidade por conviver – aí, sim, de longa data e de vários milhares de dias – com alguém que também viveu a mistura entre o ser humano e o personagem, este sempre mais forte e, afinal, dominante.
Vem de longe a sina de sofrimentos que a elite colonial deste país  reserva aos que entregam a vida pelo Brasil e por seu povo. Já Cecília Meirelles,  no Romanceiro da Inconfidência, de Tiradentes falou: “Foi trabalhar para todos…/– e vede o que lhe acontece!/Daqueles a quem servia,/já nenhum mais o conhece./Quando a desgraça é profunda,que amigo se compadece? “
A você, Lula, coube de novo o martírio que a estes homens se impõe. Ora por forca, ora por tiro, ora por exílio, ora por tortura ou prisão é o presente maldito que dão a quem se atreve a pensar em termos independência, termos direitos, termos reformas, termos escolas, termos, numa palavra, um país.
O preço que pagam, ainda que nos seus luxos e homenagens, é o do medo. Como disse um amigo, “tremem de medo desse senhor de 73 anos, armado com a ira dos justos e dono da palavra mágica”.
Tanto medo que não hesitaram em entregar o país a um homem tosco, um desqualificado, deixando à beira da estrada os punhos de renda de que se valeram eleitoralmente nas três últimas décadas.
Por isso, Lula, escrevo este cartão, para dizer que não há nada de infeliz no seu Natal, pois lhe tiraram a liberdade, o convívio com as pessoas queridas e até mesmo o direito de falar.
Cinicamente ofereceram apenas o direito a ir para casa, de tornozeleira, desde que se reconhecesse culpado de crimes que, está visto, não é culpado.
E estão furiosos porque não viram você ceder e porque não puderam tirar de você o bem mais precioso de um ser humano, depois da vida: os sentimentos de honra e de dignidade.
O Lula, acima e além de tudo o que se pode pedir de um ser humano, é maior que o mortal Luís Inácio da Silva, que saiu do seu modesto Caetés, retirante, para entrar na História.
Por isso, no brinde que farei e que tantos farão esta noite, milhões temos um pedido que lhe pode até ser cruel para com o Luís, mas é necessário: viva, Lula!
Pois até que o tempo faça brotar um grande líder nos milhões de Lula que você semeou, você é indispensável.

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Fabrício, o amigo oculto de Bolsonaro. O coqueiro e o tombo. “Ameaça” de Cabral mostra que delação é só um negócio

Fabrício, o amigo oculto de Bolsonaro

A charge – como sempre, genial – do Aroeira era inevitável.
Mas, no fundo, acho que Fabrício Queiroz – o primeiro  ‘desaparecido’ político do  período Bolsonaro – está sendo um presente para os brasileiros.
Mesmo com a cooperação de uma mídia mansa que, como disse Xico Sá no Twitter, não foi capaz sequer de mostrar o hospital onde o “assessor-amigo” estaria internado, o caso está funcionando como uma “trava” aos planos do ex-capitão de “entrar rachando” em seu mandato.
Os dele e os de Sérgio Moro.
O quanto e até quando, não se sabe, porque Fabrício é uma mosca, perto do que está em jogo.
Mas não há dúvida que foi uma mosca que caiu na sopa de Jair Bolsonaro.
E que pode – apenas pode, tal a blindagem que a ele se dá – revelar o óbvio: que o atual presidente é uma farsa construída em três décadas de politicagem, sem causas ou compromissos com o país, mas com apenas e tão-somente uma carreira de oportunismo e exploração dos sentimentos mais vis da sociedade.
Ninguém sabe onde está Fabrício, mas já se sabe que, salvo para seus incondicionais, o “Mito” decaiu de seu Olimpo moralista.
E, portanto, terá mais dificuldades de ser o “Deus acima de tudo” que se pretende.







O coqueiro e o tombo

A pesquisa da Folha que indica um salto nas expectativas otimistas com o Governo Bolsonaro  deveria ser um motivo de preocupação em lugar de significarr regozijo para os que vão assumir o poder.
Preocupação porque o otimismo, neste caso, o otimismo não vem de fatos objetivos, da esperança na continuidade e aprofundamento daquilo que se tem, mas apenas do que se espera ter.
Não é preciso ir além da história recente para lembrar do que diziam nossos avós: quanto maior o coqueiro, maior o tombo. Dilma Rousseff bateu seu recorde de popularidade em março de 2013, segundo as pesquisas. Sic transit gloria mundi, despencou a menos da metade em junho, depois das manifestações que, para que se fiasse em números de pesquisas, seriam inimagináveis três meses antes.
A questão essencial é, portanto, se e o quanto a administração que começa em nove dias corresponderá a estes números, daí o fato de serem eles preocupantes.
É claro que não se pode fazer previsões absolutas em matéria de comportamento dos mercados mundiais – ainda mais com Donald Trump na presidência dos EUA – mas os dados que se tem – embora até possam levar a impressões exageradas – são o de um inicio de 2019 cheio de turbulências e dificuldades nas finanças internacionais e – de novo como aconteceu na ascensão de Michel Temer ao Governo, em 2016 – e é lá que estão as esperanças de aportes de investimentos para fazer nossa economia girar com mais intensidade.
Porque, internamente, gordura não há para queimar: há deficit público alto, o crédito via BNDES foi minimizado, as pequenas bolsas de energia para alimentar o consumo (como as do FGTS e do PIS, que Temer queimou) já não existem e a compressão dos gastos públicos, feita pela “PEC do Teto” já está bem próxima do “máximo caótico”.
Todas as evidências ão de que o que resta é “chutar a santa” das reservas internacionais, a nossa grande âncora de redução dos riscos da economia brasileira diante da confusa e revolta situação do dinheiro no mundo.
Por incrível que pareça, só uma possível hesitação política de Jair Bolsonaro funciona, neste momento, como proteção contra aventuras econômicas e traz dúvidas quanto à repetição de reedições do período inicial de Fernando Collor.
Que, curiosamente, também apresentava índices imensos de popularidade (71%) no momento de sua posse, contra apenas 4% de pessimismo com o que viria. Números que haviam caído para menos de um terço um ano depois e, na condenação ao presidente, se multiplicado por oito.
Nada que desminta a história do coqueiro, que Billy Blanco traduziu nos versos de Banca do Distinto: “A vaidade é assim, põe o tonto no alto, retira a escada/Fica por perto esperando sentada/Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão”.




“Ameaça” de Cabral mostra que delação é só um negócio

POR  · 24/12/2018
Para que se dispensem contratos milionários, dá para ter ideia do grau “ético” do negócio que o ex-governador, já com dois séculos de sentenças (198 anos e seis meses de prisão) nas costas, está querendo fazer. Por uma tornozeleira, está disposto a dizer o que quiserem e até um pouco mais.
A turma da “moralidade” fica na torcida: “vai lá, Cabral, entrega todo mundo”. Poucos ou nenhum se incomoda se haverá veracidade no que diz um homem que, de outra forma, passaria décadas na cadeia.
Ou que, havendo alguma, outras sejam simuladas para atingir os que interessa atingir.
Os acusados é que provem sua inocência, numa inversão escandalosa do ônus da prova.
Não é novidade, pois é o mesmo que acontece com o ex-ministro Antonio Palocci, outro que negociou delações na mesma base.
Nem adianta, porém, falar nos absurdos de uma legislação que permite delações nestas condições e, pior, cuja validade vai ser analisada pelo mesmo juiz que julgará o denunciante, o que torna o juiz, desde o início, “dono” da vontade de condenar.
No caso de Cabral, cujo enriquecimento foi evidente e escandaloso, a delação que pretende evidencia o escândalo que este processo de “m… no ventilador” se tornou.
Ao menos este serviço ele presta ao propor tal negócio.
Tudo é tão nojento que nem os advogados, que nada teriam a perder e, ao contrário, muito ganhariam, quem por as mãos na imundície.
Haverá quem as ponha, porém.
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Batatas quentes nas mãos de Toffoli.

Presidente do STF Dias Toffoli. Foto Orlando Brito

Batatas quentes nas mãos de Toffoli

O  plantão do ministro Dias Toffoli no recesso de fim de ano do STF começou com a suspensão da liminar de Marco Aurélio Mello que autorizava a soltura do ex-presidente Lula e de outros 169 mil presos (cálculo da Procuradoria-Geral da República) pelos mais variados crimes. O critério para obter o alvará de soltura era estar cumprindo pena após a condenação por duas instâncias judiciais. Quem opera na Justiça avalia que, se não houvesse a correção de Toffoli, a pedido da procuradora Raquel Dodge), era grande o risco de a canetada de Marco Aurélio ter gerado um caos nos plantões judiciários país afora.
Ministro Marco Aurélio Mello. Foto Orlando Brito
Nesse inusitado embalo, Marco Aurélio deixou pelo menos outras duas bombas na mesa de Toffoli. Também com impacto político,  o ministro acatou o pedido de alguns senadores para mudar de voto secreto para aberto a eleição do presidente do Senado ( agradou a adversários de Renan Calheiros, mas mexeu no vespeiro do Senado). Promete confusão. Até agora Raquel Dodge não meteu a mão nessa cumbuca.
Em outra convertida liminar, Marco Aurélio determinou a soltura do empresário Renato Grembecki Archilla, condenado a cumprir 14 anos de cadeia por ter mandado matar a própria filha. De acordo com Raquel Dodge, Marco Aurélio teria cometido  um erro grosseiro ao justificar que estava revertendo apenas a “execução provisória” da pena. Raquel juntou a “Certidão do Trânsito em Julgado” no pedido a Toffoli para cassar mais essa derrapada de Marco Aurélio. Além da questão jurídica, esse escabroso caso, conhecido como “O crime de Papai Noel”, virou livro a ser lançado ano que vem pelo talentoso jornalista Carlos Marchi.
João de Deus. Foto Marcelo Camargo, Agência Brasil
Outra questão polêmica que caiu nas mãos de Toffoli é o pedido de habeas-corpus para o médium João de Deus. Esse, aliás, é o grande assunto deste fim de ano, com impressionantes 600 denúncias de abuso sexual que João de Deus teria cometido ao longo de décadas. Nesse mesmo período, ele angariou fama de curador e gerou esperança para dezenas de milhares de pessoas daqui e do exterior. Há uma grande penca de casos bem sucedidos, de acordo de testemunhos de quem diz ter recebido a sorte grande por tê-lo procurado.
Nessa segunda-feira (24) o onipresente advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, se associou ao pedido de habeas-corpus impetrado pelo criminalista Alberto Toron com o propósito exclusivo de participar da defesa da “tese jurídica” para libertar João de Deus.
O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakai. Foto Orlando Brito
Kakay diz que o Ministério Público e o juiz se basearam na “comoção popular”, tese jurídica há anos descartada pelo STF, em uma movimentação financeira que não ocorreu e numa suposta ameaça baseada apenas no ouvir falar.  Seria tudo muito frágil. Evidente que os advogados de defesa sempre puxam a brasa para a sardinha de seus clientes. Mas, com a dimensão que o caso João de Deus ganhou, mandar soltá-lo, com bons ou maus argumentos jurídicos, é mais uma batata quente nas mãos de Toffoli.
A dúvida é se ele vai descascá-las agora ou esperar o fim das férias no STF.
A conferir.
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