Impeachment de Bolsonaro depende de acordo entre direita e esquerda Para Marcos Nobre, frente ampla é condição essencial para que o presidente seja responsabilizado e afastado

Impeachment de Bolsonaro depende de acordo entre direita e esquerda

Para Marcos Nobre, frente ampla é condição essencial para que o presidente seja responsabilizado e afastado


16.abr.2020 às 12h00Marcos Nobre
[RESUMO] Para pesquisador, conversas para transformar o panelaço diário do "Fora Bolsonaro" em "Impeachment Já" devem começar, mas uma eventual cassação só terá efeitos benéficos para a democracia se for acompanhada de um amplo acordo, sem caráter eleitoral, entre direita e esquerda.
Não faltam razões nem indignação para um acerto de contas com a irresponsabilidade de Jair Bolsonaro. Antes disso, porém, há vidas a salvar, uma pandemia a vencer, uma crise econômica por enfrentar, eleições municipais para disputar, ondas seguintes de contágio com que lidar, uma vida cotidiana radicalmente diferente para levar.
É muita coisa ao mesmo tempo, e não há como acrescentar um impeachment a essa lista sem causar ainda mais confusão e desorganização em um momento crítico como o que vivemos. Por enquanto, pelo menos. Nas circunstâncias atuais, o máximo que se pode fazer é isolar Bolsonaro.
Chegará, contudo, o momento de transformar o panelaço diário do “Fora Bolsonaro” em “Impeachment Já”. A questão é: estamos nos preparando devidamente para quando esse momento chegar? Sabemos o que envolve o impeachment de Bolsonaro? Sabemos o que pretendemos alcançar com isso, para além da simples remoção do atual ocupante da cadeira?
Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores em Brasília - Adriano Machado - 10.abr.2020/Reuters
Essa conversa precisa começar desde já. Também porque as desgraças que virão tendem a consumir todas as nossas energias, deixando pouco ou nenhum espaço para pensar o futuro.
Levar a sério a possibilidade de instaurar um processo de impeachment exige responder primeiro à questão se Bolsonaro perderá apoio nos próximos meses —e se essa perda de apoio inviabilizará seu projeto autoritário e, mais ainda, seu próprio mandato.
A única indicação segura que temos a esse respeito até agora vem da própria resposta que ele deu à crise. Em termos objetivos, o que Bolsonaro fez desde que ficou evidente que a pandemia iria atingi-lo em cheio foi se recolher ao núcleo mais fiel de sua base de sustentação. Aquele mesmo que ele insistiu em ir cumprimentar pessoalmente na manifestação autoritária contra o Congresso e contra o STF no dia 15 de março.
Entender por que o atual presidente tomou a decisão aparentemente suicida de permanecer no grupo dos dois ou três líderes mundiais que negam a ameaça representada pela pandemia tem que ver com tentar assegurar a fidelidade desse grupo.
Parece a única maneira de enxergar alguma estratégia em sua atitude, porque é inevitável uma conjunção de falência do sistema de saúde e de crise econômica aguda, especialmente quando se sabe que a magnitude e a duração dessas crises podem ser imprevisíveis. É inegável, no entanto, que já estão em curso e só vão se intensificar.
Somente as pesquisas dos próximos meses poderão mostrar se sua base de apoio se reduzirá ou não a esse núcleo duro. O fato, contudo, de Bolsonaro ter privilegiado essa parte da base de apoio mais ampla que tinha até ali diz muito sobre o que ele próprio acha.
O presidente calcula que vai perder muito do apoio de cerca de um terço do eleitorado com que tinha podido contar até agora. Assim, decidiu investir na parte da base que considera que o defenderá com unhas e dentes contra um eventual processo de impeachment.
Esse recolhimento ao núcleo de apoio mais fiel se explica por não ser possível combater o vírus e enfrentar a recessão econômica que acompanha a crise sanitária sem fazer uma gigantesca reorganização do “sistema”.
Nem mesmo fazer funcionar o “sistema” é mais suficiente. O desafio é de outra ordem de grandeza e exige um esforço adequado a uma emergência nacional. O presidente “antissistema” não vai fazer nenhuma das duas coisas.
A resposta de Bolsonaro à crise foi permitir que o “sistema” —em medida claramente insuficiente para proteger vidas, como se sabe— pudesse tentar se reorganizar sozinho para enfrentar a pandemia. Ao mesmo tempo, continuou a atacar esse mesmo “sistema” reorganizado como aquele que impõe sacrifícios desnecessários e insuportáveis às pessoas.
Fez esse movimento para não perder o apoio de seu núcleo mais fiel, apoio que perderia se agisse como alguém que governa “para todo o mundo”, se passasse a gerir o “sistema”.
Segundo a melhor estimativa de que dispomos, o núcleo duro do bolsonarismo tem a dimensão aproximada de 12% do eleitorado. Se o apoio a Bolsonaro vier a se limitar mesmo ao desse grupo, a questão seguinte será saber se esse apoio reduzido será suficiente para salvar seu mandato. E como.
Se experiências anteriores podem servir de guia, o afastamento da Presidência tem, pelo menos, dois requisitos básicos simultâneos: baixa aprovação e altíssimo apoio à remoção do presidente. Estando corretas a estimativa da dimensão do núcleo duro fiel a Bolsonaro e a suposição de que terá seu apoio reduzido a esse grupo, uma das condições estará teoricamente dada.
O que não significa que essa base de apoio limitada ao seu núcleo mais fiel deixará de brigar até a morte pela manutenção de Bolsonaro na Presidência. Pelo contrário, o bolsonarismo “heavy” já mostrou, repetidamente, sua capacidade de mobilização e de enfrentamento e sua disposição para praticar violência de todo tipo. Já deu repetidas mostras da firmeza de suas convicções autoritárias.
Esse núcleo duro lutará contra o afastamento do atual presidente ao preço do caos social permanente, se necessário for. Não se trata de um apoio diminuto e desorganizado como o que tinha Fernando Collor em 1992, quando renunciou para escapar ao processo de impeachment. Também por isso, essa primeira condição só poderá ser efetiva se combinada a todas as demais.
A outra condição é que se forme uma maioria esmagadora, algo como dois terços ou mais do eleitorado, favorável ao afastamento. Essa segunda condição será alcançada ainda menos espontaneamente do que a primeira. Não virá como mero efeito colateral das crises. Não é porque Bolsonaro poderá ver seu apoio reduzido a algo como 12% do eleitorado que uma maioria esmagadora se formará, automaticamente, a favor de seu afastamento.
Essa segunda condição depende de uma ampla frente de rejeição. Algum entendimento mínimo entre diferentes posições políticas dentro do campo democrático tem de se formar com base na concordância de que Bolsonaro representa um risco grande demais ao país e à democracia para continuar na Presidência.
Formar uma frente dessa amplitude vai exigir, por exemplo, uma mudança na atitude de continuar a tentar colocar a culpa em alguém —no PT, no governo Dilma, no golpe de 2016, no governo Temer, nas elites, em grupos religiosos—, como se isso pudesse nos tirar do buraco em que nos metemos. Haverá disposição para isso?
A formação dessa ampla frente de rejeição a Bolsonaro depende também de que o sistema político como um todo se entenda sobre os termos da deposição. Aqui é decisivo lembrar que esse tipo de entendimento tem dois modelos bastante diferentes na história recente do país.
O impeachment de Collor contou com o apoio praticamente unânime do sistema político. Houve um grande acordo para que Itamar Franco, o então vice-presidente, assumisse e completasse o mandato. E a celebração do acordo não incluiu necessariamente a participação no governo de Itamar, do qual não fez parte, por exemplo, o PT, partido decisivo na luta pela queda de Collor.
O outro modelo de entendimento do sistema político para deposição por impeachment foi a parlamentada de 2016, que derrubou Dilma Rousseff. Diferentemente do amplo entendimento que prevaleceu no caso de Collor, a deposição de Dilma representou uma profunda divisão na política oficial e na sociedade. Foi um movimento de autofagia, uma parte do sistema pretendendo entregar a outra aos leões do lavajatismo para tentar salvar sua própria pele.
O impeachment bem-sucedido de Bolsonaro exigirá um acordo de amplitude semelhante àquele que derrubou Collor. Somente assim o pior ficará para trás. Derrubar Bolsonaro só será possível se esse grande acordo não tiver caráter diretamente eleitoral ou de negociação miúda sobre a composição do futuro governo. Um afastamento virtuoso de Bolsonaro só será possível se for firmado um pacto para estabelecer as novas condições da convivência e da competição política, se significar o estabelecimento de bases comuns para um país sem Bolsonaro na Presidência.
Ainda assim, sempre pode haver quem insista em se apegar interessadamente às miragens que Bolsonaro produz. Pode haver quem continue a achar, à direita, que é bom ter Bolsonaro fraco, pronto para ser usado na implementação da agenda do interessado. Apesar de todos os desmentidos cotidianos, sempre vai aparecer quem venha com a conversa fiada de que é capaz de colocar uma focinheira permanente no atual presidente.
Da mesma maneira, sempre pode haver quem, à esquerda, entenda que lutar pelo impeachment serve somente à tática eleitoral. Nessa lógica, o impeachment em si mesmo não é para valer, de modo que não é necessário buscar um amplo entendimento na sociedade, a direita democrática incluída. O resultado dessa atitude será fortalecer Bolsonaro para 2022; servirá como tática para tentar escolhê-lo como adversário em um segundo turno em que a esquerda espera alcançar a outra vaga.
Se forem esses os caminhos decididos pela sociedade e por forças políticas relevantes, se a direita e a esquerda democráticas não procurarem se entender, o resultado será a continuidade do colapso institucional que vivemos desde Junho de 2013. Será a continuidade do ambiente propício ao surgimento de bolsonaros. Será a continuidade do risco para a sobrevivência da própria democracia.
O necessário isolamento social que vivemos atualmente dificulta que aconteçam as conversas em torno do afastamento de Bolsonaro. Essas conversas, contudo, precisam começar de alguma maneira, da maneira como for possível. Não serão conversas fáceis, não serão acordos simples de alcançar.
Politicamente, o que mudou nesta crise foi que Bolsonaro perdeu a autoridade para continuar a ser presidente. São muitas as condições para que o seu impeachment seja um movimento de regeneração da democracia e não uma iniciativa que apenas agrave o colapso institucional que já vivemos.
A condição mais fundamental de todas é a decisão política de buscar a convergência mais ampla possível. Só essa convergência pode produzir as condições para que Bolsonaro seja devidamente responsabilizado e afastado. E buscar essa convergência é um movimento que pode e deve começar desde já.

Pesquisa revela: maioria apoia impeachment de Bolsonaro Mandetta é o ministro mais bem avaliado do governo

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Pesquisa revela: maioria apoia impeachment de Bolsonaro

Mandetta é o ministro mais bem avaliado do governo
publicado 16/04/2020
impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é apoiado por 46% dos brasileiros, de acordo com pesquisa do Atlas Político, divulgada na última quarta-feira (15/IV) e publicada no Valor Econômico.
A pesquisa online, que foi realizada com 2 mil pessoas entre domingo e terça-feira, mostrou que 43,7% são contra e 9,8% não souberam responder.

Bolsonaro x Mandetta

A iminente demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), é rejeitada por 76,2% dos entrevistados.
O ministro é o mais bem avaliado integrante do governo e tem amplo respaldo da população na defesa de medidas de isolamento social: 72,2% apoiam a quarentena durante a crise do novo coronavírus, mesmo com a queda de renda mensal, que é relatada por 51,6%.
Apesar das críticas do presidente Bolsonaro à sua atuação, Mandetta é avaliado de forma positiva por 64% dos entrevistados e de forma negativa por 17% -- a menor rejeição entre os integrantes do governo.

Nova pesquisa do Atlas Político confirma apoio popular ao ministro que se destacou no combate ao coronavírus e a queda de popularidade de Bolsonaro nas últimas semanas

76% são contra eventual saída de Mandetta da Saúde e 51,6% falam que já perderam renda com crise

Mandetta visita construção do primeiro hospital de campanha do país, em Águas Lindas (GO), no sábado.

76% são contra eventual saída de Mandetta da Saúde e 51,6% falam que já perderam renda com crise

Nova pesquisa do Atlas Político confirma apoio popular ao ministro que se destacou no combate ao coronavírus e a queda de popularidade de Bolsonaro nas últimas semanas


Mandetta visita construção do primeiro hospital de campanha do país, em Águas Lindas (GO), no sábado.JOÉDSON ALVES / EFE RODOLFO BORGES
O embate público que o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, travam há semanas sobre como enfrentar a crise do coronavírus tem um claro favorito entre a população brasileira. É o que indica a mais recente pesquisa do Atlas Político, divulgada no momento em que, mais uma vez, a pasta de Mandetta enfrenta tensão com a queda em falso de um secretário estratégico e os crescentes rumores de que ele poderá deixar o cargo em breve. Feito entre domingo e terça-feira, o levantamento, que contou com 2.000 pessoas recrutadas na Internet e tem margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, aponta que 76,2% dos brasileiros é contra uma eventual demissão do ministro, cuja defesa do isolamento social conflita com as declarações ―e atitudes― de Bolsonaro, que desde o início da crise demonstra mais preocupação com as consequências econômicas do congelamento das atividades comerciais.
A alta popularidade de Mandetta durante a crise do coronavírus já havia sido aferida por pesquisas feitas em março, entre elas uma do próprio Atlas Político, o que indica que pouco parece ter mudado na opinião dos brasileiros sobre o desempenho do ministro da Saúde. A pesquisa divulgada nesta quarta-feira mostra que 72,2% dos entrevistados concordam com as medidas de contenção da Covid-19 ―entre elas a suspensão de aulas, o fechamento de lojas e a limitação para a circulação de pessoas.
O que mudou, de acordo com esse levantamento, é a forma como os brasileiros enxergam o presidente. Há uma queda progressiva na aprovação de Bolsonaro, que tem desafiado as autoridades de saúde do país e do mundo ao circular por Brasília nos fins de semana, reunir pequenas multidões ao seu redor e comer dentro de estabelecimentos que estão autorizados apenas a vender ou entregar comida em domicílio. O Governo Bolsonaro é avaliado como ruim ou péssimo por 43% dos entrevistados. Em 20 de fevereiro, o percentual negativo era de 38%. Por outro lado, hoje apenas 23% consideram a gestão do presidente ótima ou boa, seis pontos a menos do que os 29% registrado em 20 de fevereiro. Além disso, o desempenho pessoal de Bolsonaro é aprovado apenas por 37,6% dos pesquisados, contra 58,2% que desaprovam ―4,2% não souberam responder.
A pesquisa do Atlas Político mostra a queda de aprovação do Governo desde fevereiro.
A pesquisa do Atlas Político mostra a queda de aprovação do Governo desde fevereiro.ATLAS POLÍTICO

Medo e desemprego

Outras perguntas da pesquisa do Atlas ajudam a entender a balança popular favorável a Mandetta. Questionados sobre se têm medo de pegar o coronavírus, 41,9% dos consultados responderam que sim, e que, inclusive, temem por suas vidas. Outros 31% também responderam que sim, mas que temem apenas ficar doentes. Apenas 27,1% disseram não ter medo. Apenas 13,8%, contudo, não estão com medo de perder algum parente da família para a Covid-19, enquanto 86,2% admitem esse receio.
Os números mostram também que a preocupação manifestada por Bolsonaro em relação ao desemprego tem por onde reverberar entre os brasileiros. Apenas 36,1% dizem que sua renda não foi impactada de forma alguma pela crise do coronavírus. Metade dos entrevistados (51,6%) dizem que sua renda mensal diminuiu, enquanto 12,3% dizem ter ficado desempregados.

Ministros

A pesquisa divulgada nesta quarta-feira mostra ainda que Mandetta não teve apenas uma melhora na sua imagem enquanto ministro, como se tornou o membro do Governo mais bem avaliado: 64% dos entrevistados têm uma visão positiva dele, e apenas 17% o avaliam negativamente. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, aparece em segundo lugar, com 53% de positivo, mas 37% de negativo. De acordo com os trakings diários do Atlas Político, esses sã os dois ministros que não perderam popularidade nos últimos dias. Como mostra o quadro abaixo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, aparece com o terceiro mais bem avaliado, com 40% de positivo e 41% de negativo, logo à frente do próprio presidente Bolsonaro.
As avaliações positivas e negativas dos membros do Governo Bolsonaro.
As avaliações positivas e negativas dos membros do Governo Bolsonaro.ATLAS POLÍTICO
Informações sobre o coronavírus:
O mapa do coronavírus no Brasil e no mundo: assim crescem os casos dia a dia, país por país;

eleva críticas a Bolsonaro e adverte sobre troca na Saúde: “O vírus se impõe, não negocia com ninguém” - O que fazer para se proteger? Perguntas e respostas sobre o coronavírus; - Guia para viver com uma pessoa infectada pelo coronavírus;

 eleva críticas a Bolsonaro e adverte sobre troca na Saúde: “O vírus se impõe, não negocia com ninguém”


Novela da demissão se alonga porque presidente não escolheu substituto. Após coletiva desafiante, ministro fala à ‘Veja’ e diz que saída é irreversível
A quarta-feira 15 de abril ficará marcada como o décimo dia de fritura pública do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. No mais recente capítulo da arrastada novela sobre a permanência ou não de Mandetta na pasta, o ministro estrelou uma longa entrevista coletiva em tom de despedida, na qual assegurou a permanência da sua equipe, ao menos enquanto ele ficar, e dobrou a aposta contra o presidente Jair Bolsonaro. O ministro manteve o tom de enfrentamento que resultou na perda do apoio da ala militar do Governo e reforçou que não mudará sua conduta à frente da pasta no combate ao coronavírus, já que ele se apoia “na ciência”. “Claramente há um descompasso entre o Ministério da Saúde [e a presidência]. A gente vai trabalhar até 100% do limite de nossas capacidades, enquanto eu estiver no Ministério da Saúde”. A expectativa no Palácio do Planalto é que a demissão de Mandetta ocorra ainda nesta semana, o problema é que ainda não há consenso para substitui-lo. Em mais uma demonstração de que cairá fazendo estragos na imagem do presidente, o ministro falou à revista Veja sobre a saída que parece iminente e sobre os problemas com Bolsonaro: “Você vai, conversa, parece que está tudo acertado e, em seguida, o camarada muda o discurso de novo. Já chega, né?”
A entrevista à revista foi o último lance de mais um dia turbulento. O país se prepara para entrar numa fase mais aguda da pandemia, com hospitais de referência em São Paulo com mais de 80% das UTIs ocupadas, mas a energia em Brasília e na própria pasta segue drenada pelo impasse. No momento em que Mandetta fazia ao vivo nas TVs e para os principais meios do país a atualização diária dos registros de óbitos de coronavírus no Brasil —os falecimentos registrados já são 1.736—, o presidente Jair Bolsonaro mandava beijos e fazia sinal de corações para jornalistas que o questionavam no Palácio do Alvorada se ele demitiria seu escolhido para a Saúde.
Desde o início da crise, Bolsonaro e Mandetta divergem. O presidente defende um afrouxamento nas regras de distanciamento social e o uso amplificado da cloroquina como tratamento para todos infectados, na contramão dos principais países do mundo afetados pela pandemia. Já o ministro diz que as regras rígidas de isolamento social impostas por prefeitos e governadores devem, em sua maioria, ser mantidas para evitar um colapso no sistema de saúde. É obrigado a repetir diariamente que não há comprovação científica de que a cloroquina seja eficaz no tratamento de pacientes de Covid-19 em geral. “O vírus se impõe. A população se impõe. O vírus não negocia com ninguém. Não negociou com o [Donald] Trump, não vai negociar com nenhum Governo”, disse, à Veja nesta quarta, quando questionado sobre mudanças de rumo no ministério com sua provável saída.
Mandetta só não caiu ainda porque não há consenso sobre o nome de um substituto. Os candidatos são: o deputado Osmar Terra, um declarado opositor da atual gestão do ministério, e os médicos Roberto Kalil (cardiologista do Hospital Sírio-Libanês, conhecido por acompanhar pacientes ilustres, como ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), Claudio Lottenberg (presidente do conselho de administração do Hospital Albert Einstein que foi secretário municipal de Saúde de São Paulo em 2005) e Nise Yamaguchi (imunologista e oncologista, entusiasta do uso da cloroquina contra a doença). Quem quer que aceite o desafio terá limitações para atender os desígnios do chefe contra as medidas de isolamento e em prol da reabertura da economia, já que nesta quarta o pleno do Supremo Tribunal Federal decidiu que Estados e municípios têm, sim, autonomia para decidir que serviços podem funcionar durante a emergência.
Em uma das evidências da situação surreal na pasta, Mandetta chegou a dizer durante a coletiva coletiva que recebeu telefonemas dos sondados para substitui-lo. À Veja, repetiu: “Fico até encontrarem uma pessoa para assumir meu lugar”, disse o ministro, que goza de apoio popular —além do endosso majoritário medido pelo Datafolha, de acordo com pesquisa do Atlas Político, desta quarta-feira, nada menos que 76% da população se opõem à sua demissão. O ministro ainda conta com o suporte da frente parlamentar da saúde e de entidades médicas, mas perdeu o prestígio junto aos ministros militares depois que disse para a TV Globo, em entrevista ao Fantástico no domingo, que, durante a crise do coronavírus a população “não sabe se escuta o ministro ou o presidente”.
O descontentamento dos militares ficou estampado em uma manifestação do vice-presidente, o general Hamilton Mourão, ao jornal O Estado de S. Paulo, que ele mesmo repisou na sua conta no Twitter. “A respeito da entrevista do Ministro Mandetta, eu vou utilizar uma linguagem do polo: o ministro cruzou a linha da bola, ele não precisava ter dito determinadas coisas”.
Políticos que acompanham os bastidores desse cabo de guerra dizem que Mandetta não pedirá demissão. “Ele está na trincheira. Vai trabalhar até o último minuto. A decisão da saída ou não compete só ao presidente”, disse um deputado do Democratas. O próprio ministro repetiu nesta quarta, de novo, que só sairia em três ocasiões: quando o presidente Jair Bolsonaro não quiser o seu trabalho, se é infectado e obrigado a se afastar e quando sentir que o trabalho que vem fazendo já não é mais necessário. Aproveitando os holofotes, o ministro ressaltou que, enquanto for ministro, fará uma defesa intransigente “da vida, da ciência e do SUS (Sistema Único de Saúde)”.

Turbulência na ponta

Secretários de Saúde ouvidos pelo EL PAÍS relataram que nos últimos dias já havia um “cenário ruim” por conta da clara divergência entre o Ministério da Saúde e o Planalto na condução do combate ao coronavírus, especialmente após a entrevista de Mandetta ao Fantástico. E que esse clima se agravou nesta quarta-feira, com a divulgação do pedido de demissão do secretário Wanderson de Oliveira, visto por grande parte dos gestores como um profissional capacitado na condução da estratégica Secretaria de Vigilância em Saúde. Tanto secretários estaduais quanto municipais de Saúde participam frequentemente de reuniões com os gestores do ministério. No início da crise, eles haviam pleiteado essa participação mais ativa e foram atendidos por Mandetta.
Pelo menos três secretários de Saúde que conversaram com o EL PAÍS, e que preferiram não ter seus nomes divulgados, afirmaram que todos são cargos de confiança e que o presidente tem liberdade para mudar seus gestores. Ainda assim, a avaliação é que qualquer mudança no comando da crise neste momento seria ruim para o Brasil. Um secretário municipal de saúde pediu equilíbrio e disse temer que alterar o comando em áreas tão sensíveis agora podem impactar no trabalho construído e planejado até o momento. “As ações vêm sendo conduzidas com muita técnica. Não vejo mudança como algo interessante. Tem que ter equilíbrio e bom senso para uma troca”, afirmou.
Empoderados pelas semanas de exposição e reconhecimento públicos, Wanderson de Oliveira e o secretário-executivo do ministério, João Gabbardo, fizeram coro Mandetta na entrevista coletiva desta quarta —eles participam quase diariamente das falas à imprensa desde o começo da crise. Oliveira, que havia se queixado em carta do temor de ser demitido num tuíte, reclamou do “cansaço” pelos embates com o Planalto. Gabbardo recordou sua trajetória: “Quando sair, saio com ele. Ano que vem, completo 40 anos de Ministério da Saúde. Eu não vou jogar no lixo esse patrimônio. Vou ficar o tempo que for necessário para fazer a transição. A sociedade espera continuidade do nosso trabalho”. A eles, Mandetta fez uma promessa: “Entramos no ministério juntos, estamos no ministério juntos e sairemos do ministério juntos”. Ficou evidente que nenhum dos três quer sair de cena sem que suas mensagens fiquem bastante claras ao público. O Brasil espera a sequência da novela.
Informações sobre o coronavírus:
O mapa do coronavírus no Brasil e no mundo: assim crescem os casos dia a dia, país por país;

PANDEMIA DE CORONAVÍRUS Jovens internados mostram ‘rejuvenescimento’ da covid-19 no Brasil Estados brasileiros têm percentual de casos entre pessoas com menos de 60 anos superior ao da Espanha e Itália, ainda que número de óbitos seja maior entre idosos. Grupo mais jovem sobrecarrega sistema

Maioria dos infectados no Brasil tem menos de 60 anos.
Maioria dos infectados no Brasil tem menos de 60 anos.JUAN CARLOS CÁRDENAS / EFE



Jovens internados mostram ‘rejuvenescimento’ da covid-19 no Brasil

Estados brasileiros têm percentual de casos entre pessoas com menos de 60 anos superior ao da Espanha e Itália, ainda que número de óbitos seja maior entre idosos. Grupo mais jovem sobrecarrega sistema



São Paulo - 16 ABR 2020 - 07:45 BRT
Embora não constem no grupo de risco nem encabecem as estatísticas sobre o número de mortos por coronavírus, pessoas com menos de 60 anos são as mais infectadas pela doença no Brasil, o que tem elevado o número de internações entre as camadas mais jovens da população e ajudado a sobrecarregar o sistema de saúde. O Ministério da Saúde não detalha nos balanços diários sobre a evolução da covid-19 os casos por idade, mas, de acordo com levantamentos das secretarias locais, Estados brasileiros em situação de emergência registram percentual maior de contaminados e hospitalizados abaixo dos 60 anos que epicentros globais da pandemia, como Estados Unidos, Espanha e Itália. Os números contrariam a tese de que a doença não teria tanto impacto entre a população mais jovem —propagada até pelo presidente Jair Bolsonaro, ela serve de argumento para a defesa do isolamento vertical, que manteria em casa principalmente idosos e pessoas com doenças prévias.
A faixa etária com mais infectados pela covid-19 (40%) em São Paulo, recordista de casos (11.043) no país, é dos que têm entre 20 e 39 anos (4.420). O número sobe para 77% no recorte de pessoas abaixo dos 60 anos, que, segundo a Secretaria Estadual da Saúde, correspondiam a quase metade (49%) das internações em estado grave por síndrome respiratória aguda provocada pelo novo coronavírus até o fim da semana passada, ainda que representem apenas 21% dos óbitos. Os Governos não publicizam dados que mostrem quantos desses jovens que adoeceram, mas não morreram, possuíam condições pré-existentes, como diabetes ou problemas do coração, por exemplo —no Rio, na última terça-feira, a vítima mais jovem no Estado, Kamilly Ribeiro, de 17 anos, morreu sem ter qualquer doença prévia. Mas o percentual de doentes jovens no Brasil supera o de países como os Estados Unidos, que lideram o ranking mundial da pandemia, onde um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças publicado em 20 de março apontava que 26% das hospitalizações por coronavírus em UTIs, até aquele momento, situavam-se na faixa entre 20 e 54 anos.

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Na Espanha e na Itália, países mais afetados da Europa, a taxa de infectados abaixo dos 60 anos é de 44,7% e 43,9%, respectivamente, sendo que, no caso dos espanhóis, 14,5% estão na faixa de 20 a 39 anos (menos da metade em comparação com São Paulo). Porém, há uma diferença considerável na proporção de idosos em países europeus. Tanto na Espanha quanto na Itália, o grupo a partir dos 60 anos conformam mais de 25% da população. Já no Brasil, os idosos representam 14% do contingente de 210 milhões de habitantes. Apesar do risco de morte ser maior para a faixa acima dos 60 anos (73% dos óbitos no país), o grupo dos jovens já é o que mais demanda atendimento no sistema de saúde em vários Estados.
Entre os 807 casos confirmados de coronavírus na Bahia, a média dos infectados é de 39 anos. A faixa etária mais acometida (29%) é a de 30 a 39 anos, seguida pela de 50 a 59 anos, indicando, segundo a secretaria da Saúde local, “que o risco de adoecer passou a ser maior entre os adultos jovens”. No Ceará, 60% das pessoas contaminadas estão na faixa de 20 a 49 anos. O grupo com maior proporção em internações por síndrome respiratória aguda decorrente de covid-19 é o de 50 a 59 anos (entre os homens) e de 40 a 49 anos (entre as mulheres), sendo que 59% das hospitalizações envolvem pacientes com menos de 60 anos.
“Temos a demonstração cabal de que a doença atinge pessoas jovens e pode ser fatal para essa faixa etária. Todos devem estar em alerta durante a epidemia”, afirma André Longo, secretário de saúde de Pernambuco, que, em menos de uma semana, registrou a morte de um adolescente de 15 anos e um bebê de sete meses por coronavírus. A média de idade dos infectados no Estado é de 37 anos. Em Recife, quase 80% dos leitos de UTI já estão ocupados. Em entrevista coletiva, o médico infectologista Jailson Correia, secretário da Saúde da capital pernambucana, chamou a atenção para o papel dos mais jovens na sobrecarga dos hospitais. “A doença tende a ser mais grave a partir dos 60 anos, o que não quer dizer que os jovens estejam imunes. O vírus está levando a quadros graves na parcela mais jovem da população. Permanecer em casa significa proteger a si próprio e à família”, afirmou Correia, em linha com a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS), que sublinha os grupos de jovens adultos como vetores de transmissão do coronavírus e, sobretudo, potenciais pacientes por agravamento das complicações da doença.
Em São Paulo, o Governo estadual cogita aplicar multas a moradores que descumprirem a recomendação de quarentena. A taxa de isolamento na capital paulista ainda está abaixo da meta ideal para evitar o colapso dos hospitais que, segundo o Governo, é de pelo menos 70%. Mesmo diante do decreto de situação de emergência na cidade, pessoas mais jovens seguem ocupando avenidas e ciclovias para a prática de atividades físicas.
No Rio de Janeiro, a taxa de mortalidade da doença em pessoas com menos de 60 anos (30%) é duas vezes maior que a de São Paulo. Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, todos dos leitos de CTI reservados para pacientes com covid-19 já estão ocupados. O prefeito da cidade Washington Reis, 53, e o governador do Estado, Wilson Witzel, 52, testaram positivo para coronavírus. “Existe uma falsa sensação de segurança entre as pessoas jovens. Mas o vírus também tem se comportado de maneira agressiva nesses pacientes, que ainda podem se tornar vetor de contaminação em casa”, diz Edmar Santos, secretário estadual de saúde.
A faixa mais infectada pelo coronavírus no Rio de Janeiro é entre 30 e 39 anos, mas há casos de hospitalização e morte em idade inferior, a exemplo de uma mulher de 28 anos em período de resguardo e um homem de 23 anos, ambos sem histórico recente de problemas de saúde. No caso do rapaz, o atestado de óbito o descrevia como obeso. Considerada uma doença crônica, a obesidade é a única das comorbidades associadas ao coronavírus que registra mais mortes entre pessoas com menos de 60 anos (56%) do que entre idosos. No Brasil, de acordo com o último estudo do Ministério da Saúde, a faixa etária dos 25 aos 34 anos foi a que mais observou o crescimento do percentual de obesos (84%) desde 2006. Em Recife, somente nesta semana foram contabilizadas as mortes de dois homens de 38 anos por coronavírus associado à obesidade.
Em entrevista à repórter Beatriz Jucáa médica Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entende que a alta incidência da doença entre pessoas com menos de 60 anos se deve a uma adaptação ao perfil populacional do país. “No Brasil, a covid-19 vai rejuvenescer. A distribuição da população brasileira é diferente da europeia. Não temos um percentual de idosos que tem a Itália ou a Espanha. É natural que a doença se distribua majoritariamente entre jovens. A distribuição demográfica no Brasil dará à doença características brasileiras. Além disso, o vírus sofreu mutações e já se adaptou ao país”, disse Dalcomo.
Preocupadas com o rápido avanço da pandemia entre os mais jovens, algumas capitais iniciaram nesta semana a testagem em larga escala de pessoas com suspeita de coronavírus a fim de dimensionar a extensão do contágio. É o caso de Florianópolis, que tem 72% dos infectados no grupo de 20 a 59 anos. Classificada em nível de emergência pelo Ministério da Saúde, a capital catarinense apresenta a sexta maior incidência de covid-19 do país, 50% acima da média nacional.

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