A Promotoria da Venezuela investiga um suposto massacre de índios
ianomâmi em uma aldeia situada na fronteira com o Brasil, num caso em
que garimpeiros brasileiros são apontados como suspeitos da morte de até
80 de pessoas.
O suposto massacre, segundo testemunhas e sobreviventes, teria sido
desencadeado pela tentativa dos garimpeiros de estuprar mulheres
indígenas.
Fotos de arquivo da tribo ianomâmi feitas pela ONG Survival International (Foto: ONG Survival International)
A Promotoria Geral da Venezuela indicou nesta quarta-feira (29) uma
comissão para investigar o suposto ataque, que teria sido cometido em
julho, mas cujos detalhes só vieram à tona nos últimos dias.
De acordo com a ONG Survival International, os índios, que teriam
encontrado os corpos carbonizados das supostas vítimas do massacre, só
conseguiram reportar a ação muito tempo após ela ter sido cometida, já
que os ianomâmi vivem em uma região isolada e as testemunhas levaram
dias para chegar a pé até o povoamento mais próximo.
Histórico
Os ianomâmi são uma das maiores tribos relativamente isoladas da
América do Sul. Vivem em florestas tropicais e em montanhas no norte do
Brasil e no sul da Venezuela. No Brasil, seu território tem o dobro do
tamanho da Suíça. Na Venezuela, os índios ianomâmis vivem em uma região
de 8,2 milhões de hectares no Alto Orinoco. Juntas, as duas regiões
formam o maior território indígena florestal em todo o mundo.
A denúncia sobre o suposto massacre ocorre no ano em que os indígenas
celebram as duas décadas de criação do território ianomâmi no Brasil. Em
março deste ano, o líder ianomâmi Davi Kopenawa havia alertado a ONU,
em Genebra, sobre os perigos trazidos pela mineração ilegal, colocando a
vida de indígenas em risco, principalmente em tribos isoladas, e
contribuindo para a destruição da floresta e a poluição de rios.
''Testemunhas que conversaram com os três sobreviventes do ataque
contaram que a comunidade irotatheri foi atacada e que ali vivem
aproximadamente 80 pessoas. Esse é o número de mortos com o qual estamos
trabalhando, mas esse dado ainda não foi confirmado', disse à BBC Mundo
Luis Shatiwë, secretário-executivo da organização ianomâmi Horonami.
Especialistas que conhecem a região e a realidade das comunidades
pediram cautela e advertiram sobre a dificuldade em verificar-se a
precisão das denúncias, em parte pelo fato de que é complicado o acesso à
zona conhecida como Alto Orinoco.
'Corpos carbonizados'
Ainda segundo o relato de Luis Shatiwë, 'no último dia 5 de julho, um
grupo de garimpeiros queimou a aldeia irothatheri. Em seguida, três
visitantes chegaram à comunidade e encontraram os corpos carbonizados''.
''Ao tomarem outro caminho para voltar, os visitantes encontraram três
sobreviventes no meio da selva, que narraram que os garimpeiros
pretendiam abusar sexualmente de mulheres ianomâmis. Diante da
resistência dos ianomâmis, que conseguiram resgatar as jovens, os
mineiros começaram a murmurar e a se organizar para matar e destruir a
comunidade. Foi assim que o ataque ocorreu'', afirmou Shatiwë.
''Os três sobreviventes disseram que não podiam abandonar a aldeia, já
que tinham ali os corpos sem vida de seus entes queridos. E pediram aos
visitantes que transmitissem a informação ao exterior e pedissem ajuda.
Assim começou o itinerário de volta, que culminou nesta semana, com a
apresentação da denúncia formal do massacre perante as autoridades de
Puerto Ayacucho (na Venezuela)'', contou Shatiwë.
A denúncia foi apresentada perante a Promotoria-Geral e a Defensoria
Popular, em Puerto Ayachucho, e também perante a 52ª Brigada de
Guarnição Militar, que registrou os depoimentos.
Incursões de garimpeiros
Em entrevista à BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC), a antropóloga
Hortensia Caballero disse que a ação ilegal dos garimpeiros brasileiros
na região ocorre desde o final dos anos 1980.
Em 1993, uma incursão de garimpeiros da comunidade Haximú, em território venezuelano, levou à morte de 16 índios ianmoami.
''Foi nesse momento que o Estado Venezuelano começou a se envolver,
quando se deu conta de que a matança havia ocorrido em seu território.
Um grupo de direitos humanos com sede em Puerto Ayacucho fez uma
denúncia perante a Comissão Interamericana por julgar que governo
venezulano atuava de forma negligente, e a comissão deu razão aos
ianomâmis'', afirmou a antropóloga.
Em 1999, o governo da Venezuela assinou um acordo no qual se
comprometeu a implementar e financiar um programa de saúde para o povo
ianomâmi e a firmar um acordo com o governo do Brasil com o intuito de
promover a vigilância e a repressão à mineração ilegal.
Um advogado que trabalhou com organizações indígenas no Estado do
Amazonas, na Venezuela, e que prefere manter anonimato devido ao temor
de represálias, disse à BBC Mundo que teme que as incursões de mineiros
ilegais em áreas indígenas estejam se intensificando.
''Devido à subida do ouro, existe uma incursão muito forte de mineração
ilegal em toda a zona, e, com ela, todo um sistema de delinquência
organizada, que vai além da área ianomâmi e se propaga por todo o
Estado.'
A Venezuela conta com cerca de 15 mil índios ianomami no Estado do
Amazonas e outra parte no Estado de Bolívar. Os indígenas estão
distribuídos ao longo de 200 comunidades, que mantêm práticas
tradicionais de caça, pesca, coleta, ritos fúnebres, mitos e cosmologia.