Mídia troca as bolas: festa na rua, tensão em campo

Mídia troca as bolas: festa na rua, tensão em campo

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No Brasil real, ocorre neste momento exatamente o contrário do que foi projetado ao público pela mídia tradicional; festa e normalidade em torno da Copa, no lugar do caos previsto, e tensão e polêmica dentro da Seleção Brasileira, que ainda não decolou como apontava o ufanismo midiático; técnico Felipão e auxiliar Parreira praticam categoria do "jornalista amigo"; depois da global Fátima Bernardes, conceito abraçou especialistas Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho e outros quatro; camaradagem; pressão sobre atletas, revelada nos choros de Neymar e seus companheiros, agrava dramaticidade da competição; Mundial já passou da metade e pouco do que foi passado ao público pelo time dos grupos de comunicação se concretizou; gol contra
247 – Como as torres gêmeas, dois edifícios de informações erguidos pela mídia tradicional e familiar estão desabando lado a lado aos olhos da multidão. Um espetáculo que impressiona, tanto mais porque o que cai com estrondo são, como em Nova York, os arranha-céus mais altos, fortes e representativos do que a mídia brasileira diz saber fazer melhor: cobrir política com imparcialidade, sociedade em profundidade e esportes no padrão mais alto existente em todo o planeta. Um verdadeiro show de bola!
O problema é que nada do que saiu lá foi confirmado no dia a dia do Brasil real. Contra a realidade de festas e normalidade que se vê nas ruas, a mídia assegurava que haveria o caos. Dentro do campo, onde os jornais tradicionais e, sem exceção, todas as redes de televisão prometiam só alegria para a torcida, o que se vê é exatamente um pedaço da crise que só deveria, segundo a mesma mídia, estar existindo apenas e especialmente nas ruas. Numa expressão, o jornalismo tradicional trocou as bolas.
A torre das redações que tratam sem trégua de temas, digamos, sérios, como política e sociedade, foi a primeira a ser atingida. O rombo foi tão pesado que já demandou, por parte do chefão da Editora Abril José Roberto Guzzo, um mea culpa dúbio. "É a vida". Quer dizer, pode acontecer de novo e não se verá, de novo, problemas nisso da parte dos grandes grupos de comunicação. Algo como se a sessão de Erramos, batizada pela Folha de S. Paulo, ganhasse um apêndice esperto: Erramos – e daí? É a vida. Mais comedido, por incrível que pareça, o loquaz Arnaldo Jabor deve ainda estar esperando o apito final da última partida para professar alguma auto-crítica sobre vaticínios catastrofistas, olhando a Copa de cima do muro na espera de que lado descer.
ILUSÕES VENDIDAS - Dentro do campo, onde a esmagadora maioria da mídia esportiva vendeu a ilusão de um Mundial que tinha o Brasil como maior favorito, o que se vê é a competição mais equilibrada de todas as Copas, com times que chegam a mudar de esquemas táticos três vezes num jogo, como a Holanda do técnico Van Gaal, e, naturalmente, bem preparados fisicamente para vencer o calor que, segundo muitos por aqui, iria derrotá-los. Na cartilha do ufanismo seguida pela imprensa esportiva desde sempre, diminuir o adversário e promover a Seleção Brasileira sempre foi a tônica. Quando as coisas dão errado, basta achar culpados e mudar o discurso.
Nesta Copa, porém, o problema da mídia esportiva é mais complexo. O que poderia parecer inevitável para uma equipe de jogadores jovens e com quase 100% de inexperiência em mundiais de seleções, passou batido na observação dos chamados especialistas. A psicóloga Regina Brandão, escalada por Felipão para monitorar a cabeça dos jogadores, antes da Copa não entrou na pauta de estúdio de nenhum dos programas esportivos que transbordam pela televisão aberta e por assinatura. Foi preciso um mar de lágrimas entre os craques, a começar por Neymar, para que se atentasse para o aspecto psicológico do time – enquanto, na ponta da mídia política, a psicologia das massas era dissecada por dezenas de profetas de imensas manifestações de protesto, que não ocorreram.
AMIGO, IRMÃO, CAMARADA - Num episódio que chamou atenção e, ao mesmo tempo, agravou a crise na mídia esportiva, na segunda-feira 30 um grupo de seis jornalistas foi convidado para uma conversa com o técnico Luiz Felipe Scolari e o auxiliar Carlos Alberto Parreira. Eles criticaram a cobertura sobre a equipe e pediram ainda mais empenho e apoio àqueles que escolheram como "mais amigos". Estavam lá estrelas como Juca Kfouri e Paulo Vinícius Coelho. Quem não foi, como o colunista Renato Maurício Prado, disse que Felipão e Parreira haviam acabado de demonstrar que "estavam perdidos". Quem foi passou a sofrer pontas de desconfiança dos próprios colegas das inúmeras mesas redondas. Afinal, o privilégio de uma conversa especial passará a influir na opinião deles? Na dúvida, tiradas de bom humor vão sendo disparadas na direção daquela tropa de elite da mídia de chuteiras.
O conceito de jornalista amigo deixou mal, no início da Copa, a repórter, âncora e apresentadora Fátima Bernardes. Depois de o ônibus da Seleção ter sido adesivado e chutado por alguns grevistas na saída do Rio de Janeiro para a Granja Comary, ela ouviu Felipão e Parreira. Abriu a entrevista frisando que nada ocorrera de anormal naquela primeira viagem do time, ao que o técnico virou-se para o colega e sorriu:
- Nossa, essa é amiga mesmo, ein?
Sendo ou não, os jornalistas não precisam se preocupar. Todo esse caos de cobertura provoca episódios dos quais, como já se vê, se pode tirar lições e risadas. É óbvio que, durante o longo reinado da Mario Sergio Conti na direção de redação da revista Veja, qualquer repórter seria sumariamente demitido se fizesse com um sósia, como ele fez, a entrevista que acreditou, cheio de empolgação, ser com o técnico Felipão. Não valeram para ele nem a prova – um cartão de apresentação – nem as evidências – a presença num voo regular com a Seleção Brasileira (e o verdadeiro Felipão) fechada na Granja Comary – em contrário. Mas Conti continuou inabalável no eixo Globo-Folha, apesar de não mais intocável. Como Guzzo, na política, ele minimizou, na esportiva que sempre lhe faltou: "Não prejudiquei a ninguém, só a mim mesmo". Por "ninguém" entenda-se o leitor dele e sua fonte, para a qual não pediu desculpas. A não se pela perda de credibilidade, prestígio e leitores, eles sabem que tudo vai ficar como dantes na velha e boa ação entre amigos. Uns mais camaradas que outros, é claro.
  copiado http://www.brasil247.com/

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