O sal da terra vem da terra
A primeira lição de política que recebi foi ainda garoto, lendo aqueles livros de capa verde, da Melhoramentos, que compunham a coleção “Monteiro Lobato para Crianças”. A horas tantas, num dos dois “tomos” (o nome de então para volumes), no Doze Trabalhos de Hércules o herói se mete numa briga com Anteu, um gigante núbio, filho de Poseidon (o deus dos oceanos), com Gea (ou Gaia, a Terra).
Pois Anteu era invencível e até mesmo o semideus grego não tinha como o derrotar, a não ser quando desistiu de jogá-lo ao chão e o ergueu, fazendo com que seus pés deixassem de tocar o chão, por onde sua mãe, Gea, lhe transmitia forças intermináveis.
Levei essa lição para toda a vida: ser o que sou, o de onde vim, a que país e tempo pertenço.
Hoje, quando escrevi do Lula no Nordeste, num texto que agradou – e eu retribuo, agradecido – a alguns leitores e leitoras generosos, foi inevitável que a imagem conservada por 50 anos viesse à mente.
Lula, provavelmente, nunca ouviu falar em Anteu, mas o sente.
Em geral, a política, depois de alguns anos, tira nossos pés da Terra. Mandatos e cargos – que em si pouca coisa são, mas muito proporcionam a quem tem ambições além daquela que temos todos, a de viver com o suficiente- tendem a nos fazer flutuar no mundo dos “importantes”.
É verdade, não nego, que há muita gente assim e a gente só repara quando é na esquerda, porque na direita esta é a regra, embora ali também haja exceções.
Mas também há pés que não deixam o chão, raízes que não deixam a terra, gente que não se entrega e que, embora tenha de mergulhar no mundo da política real, onde há mais do outro tipo de gente do que deste, conserva suas origens e, com elas, sua coerência.
“Vós sois o sal da terra. Ora se o sal se tornar insosso, com que salgaremos?“, pergunta Jesus aos seus discípulos, em Mateus 5, 13, recorda sempre este ateu empedernido.
Quantas vezes penso que a esquerda se tornou insossa, de tanto que se fixou no secundário – embora legítimo e necessário – das opressões, odiosas, por certo, às minorias e grupos e deixa de lado o fato de que somos um país colonizado, onde as mazelas, a violência, a brutalidade são as deformidades desta exclusão, que não vêm do fato de não sermos alemães, holandeses, suecos, mas de sermos pobres, muito pobres.
Gente que se confunde e não percebe que a mudança não virá das nossas elites nem dos nossos gerentes de entreposto colonial, do “mercado” não virá o sal desta terra, a revolta do chá do hemisfério Sul, a burguesia insurreta da França…
Neste Brasil da descrença, do cinismo, da histeria punitiva, aquela que se compraz da prisão, do castigo, da humilhação, do escracho – e quanta gente “boa” entrou nessa! – o povão nordestino mostrou, como na história de Anteu, de onde pode vir e virá a força para crer num país e fazer daqui um país.
copiado http://www.tijolaco.com.br/blog/
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