OPINIÃO
Eurocentrismo
- Finalmente, o julgamento
- Intervenção nebulosa
- As dívidas das universidades
- Resultado do fluxo cambial merece atenção
- Abertura da informação: falta a Constituição
- Lula e o nosso futuro comum
- Fórum dos Leitores - sexta-feira - 8/6/2012
Finalmente, o julgamento
08 de junho de 2012 | 3h 05
O Estado de S.Paulo
Passados exatos sete anos da revelação de que o PT
comprava deputados para apoiar o governo Lula, na quarta-feira o Supremo
Tribunal Federal (STF) marcou o início do julgamento dos envolvidos no
maior escândalo político do Brasil contemporâneo, chamado mensalão por
aludir à regularidade dos subornos. A coincidência dá argumentos aos
muitos que deploram a lentidão da Justiça, exacerbando o risco da
prescrição das penas pedidas para os acusados. Neste caso, ressalve-se
que a primeira etapa do rito judicial foi cumprida com celeridade. Já em
30 de março de 2006, 9 meses depois, portanto, da notícia do escândalo,
e antecipando-se em 13 dias à apresentação do relatório final da CPI
dos Correios, com as suas devastadoras conclusões, o então
procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou ao
STF 40 envolvidos com a "sofisticada organização criminosa" chefiada,
segundo ele, pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Em agosto
do ano seguinte, por unanimidade, o Supremo aceitou a denúncia.Os 38 réus finalmente começarão a ser julgados em 1.º de agosto e, se tudo correr bem, receberão as suas sentenças ainda em setembro. Do rol inicial, o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira, que ganhou notoriedade ao se descobrir que tinha ganho um Land Rover de uma empresa contratada pela Petrobrás, valeu-se do instituto jurídico da "suspensão condicional do processo" para livrar-se da ação em troca da prestação de serviços comunitários. Outro indiciado, o ex-deputado do PP paranaense José Janene, suspeito de se beneficiar de mais de R$ 4 milhões das empresas do publicitário Marcos Valério de Souza, o operador do mensalão, faleceu em 2010. Em julho do ano passado, o procurador-geral Roberto Gurgel pediu a condenação de 36 réus e a absolvição dos 2 restantes, por falta de provas. Um, o ex-titular da Secretaria de Comunicação do Planalto Luiz Gushiken, acusado de liberar R$ 23 milhões para uma empresa de Marcos Valério. Outro, o assessor parlamentar Antonio Lamas, acusado de lavar dinheiro.
A marcação do julgamento partiu da premissa de que o revisor do processo, ministro Ricardo Lewandowski, entregará o seu parecer até o final do mês. O relator da ação, ministro Joaquim Barbosa, concluiu o seu texto em dezembro passado. Ele será o primeiro a falar no julgamento. Dos 11 membros do STF, 2 poderão não participar dos trabalhos, ou não participar deles até o fim. O ministro Cezar Peluso terá de se aposentar no início de setembro, ao completar 70 anos. (Se o julgamento ficasse para o ano que vem, como não faltou quem pretendesse, também o atual presidente da Corte, Carlos Ayres Britto, seria excluído, pela mesma razão.) E o ministro José Antonio Dias Toffoli poderá se declarar impedido: ele advogou para o PT e para o governo Lula. Com 11, 10 ou 9 magistrados, o Supremo terá de mostrar ao País que o tempo entre a denúncia e o julgamento não foi desperdiçado - eles sofreram pressões, envolveram-se em querelas, enfrentaram chicanas, mas estão maduros para dar as suas sentenças com conhecimento de causa e a isenção possível nesse campo minado.
Com a "faca no pescoço", para repetir a expressão usada pelo ministro Lewandowski quando da abertura da ação penal, o STF sempre esteve - e não poderia deixar de estar - em um caso sem precedentes e com tamanhas implicações políticas. Destas, a principal, sem dúvida, diz respeito aos limites éticos às práticas dos governantes para se perpetuar no poder. A menos que se aceite a última versão de Lula de que o mensalão foi "uma farsa" - na primeira versão ele reconheceu a lambança e pediu desculpas aos brasileiros -, na sala de sessões do Supremo estará em jogo o direito da sociedade brasileira de ter governantes que não admitam que os seus mandem às favas os possíveis escrúpulos de consciência na conquista de maiorias parlamentares. Perto disso é detalhe se o julgamento influirá ou não nas eleições municipais marcadas para 7 de outubro - ou, para ir ao ponto, se o PT terá de pagar nas urnas o que eventualmente os companheiros tiverem de pagar à Justiça por seus atos. O que interessa ao País é que, no dia 1.º de agosto, o vale-tudo pela hegemonia política estará no banco dos réus.
Intervenção nebulosa
08 de junho de 2012 | 3h 05
O Estado de S.Paulo
Foi correta a decisão do Banco Central (BC) de decretar a
intervenção no Banco Cruzeiro do Sul e suas coligadas - corretora,
distribuidora e securitizadora -, com rombo estimado em R$ 1,3 bilhão. É
função da autoridade monetária garantir a higidez do sistema bancário e
evitar o risco de crises sistêmicas. Mas o Cruzeiro do Sul já tinha uma
história de dificuldades, conhecida das autoridades, e o que se
pergunta é por que a intervenção tardou tanto.Fundado em 1993 e especializado em crédito consignado, o banco abriu o capital em 2007 e enfrentou problemas desde, pelo menos, a crise de 2008/2009. Em 2010, teve operações questionadas pelo BC e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) determinou a republicação dos balanços de 2008 e 2009, que mostravam situação irreal.
Em novembro passado, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) abriu-lhe uma linha de crédito de R$ 3,6 bilhões, quase ao mesmo tempo que o balanço do banco era publicado com ressalva dos auditores por não registrar o valor correto das provisões para devedores duvidosos.
Apesar dos sinais de problemas, o banco comprou, em dezembro passado, outra instituição de pequeno porte (Prosper) por R$ 55 milhões, comprometendo-se a capitalizá-la. Afinal, em abril o BC identificou o lançamento de operações fictícias pelo banco, mas só há 15 dias determinou que o rombo fosse coberto, como apuraram os repórteres David Friedlander e Leandro Modé, do Estado (5/6). Além disso, nossos repórteres apuraram que a contabilidade do banco foi contaminada com milhares de empréstimos fictícios, o que levou a Polícia Federal a instaurar inquérito para apurar indícios de fraude na gestão.
A expectativa era de que surgisse um interessado em assumir o controle do banco. Mas as condições oferecidas pelo único candidato que se apresentou não foram consideradas satisfatórias pelo FGC, que vinha socorrendo o banco. O próprio FGC, afinal, foi designado pelas autoridades para assumir o Cruzeiro do Sul.
O Fundo Garantidor de Créditos foi criado para garantir os depósitos bancários e aplicações em caderneta de poupança até o montante de R$ 70 mil. Mas, nos últimos anos, o FGC resgatou várias instituições (Schahin, Matone, Oboé, Moradia) - além do Banco Panamericano, que tinha como sócia a Caixa Econômica Federal (CEF).
Em dezembro o FGC dispunha de um patrimônio de R$ 28,2 bilhões, e cerca de R$ 4,3 bilhões emprestados a instituições que precisaram ser socorridas. O Fundo é administrado pelos principais bancos do País e os recursos que lhe são aportados provêm de um porcentual sobre os papéis por eles emitidos e outras operações, como os cheques sem fundo. As contribuições dos bancos ao Fundo são obrigatórias e, em última forma, acabam sendo custeadas pelos clientes das instituições.
Na prática, o FGC tem feito as vezes do Banco Central, abrindo linhas de liquidez para as instituições em apuros e tentando encontrar, depois, compradores para as que ficaram insolventes. Pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o Banco Central é proibido de financiar bancos privados, salvo via redesconto, instituto que expõe as dificuldades de quem é socorrido e que por isso é evitado pelos bancos a todo custo.
O próprio FGC mudou seu estatuto, há pouco, para fugir do risco do conflito de interesses. Os sócios não podem indicar executivos ou funcionários para o conselho de administração ou a diretoria.
Na intervenção no Cruzeiro do Sul, foi adotado o Regime de Administração Especial Temporária (Raet), com critérios mais rígidos do que os aplicados no caso do Panamericano. Foi determinada a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores do Cruzeiro do Sul.
Entre o Fundo Garantidor de Créditos e o Banco Central há, tudo indica, uma relação íntima, em decorrência da qual o FGC pode agir como se na prática fosse autoridade monetária, facilitando a depuração do sistema bancário. Essa relação precisa ter mais transparência.
As dívidas das universidades
08 de junho de 2012 | 3h 06
O Estado de S.Paulo
A inclusão de "penduricalhos" em medidas provisórias
(MPs) continua sendo praticada de forma acintosa pelo governo. O enxerto
mais recente deve-se à ministra de Relações Institucionais, Ideli
Salvatti, que acolheu em nome do governo a proposta formulada pelo
deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), de incluir no corpo da MP 559/12 um
artigo que permite a renegociação das dívidas de 500 universidades
públicas, privadas, confessionais, comunitárias e filantrópicas com o
governo federal. Com o endosso da ministra, o relator Pedro Uczai
(PT-SC) redigiu às pressas o texto do "penduricalho". A MP 559/12, que deverá ser votada hoje à tarde, nada tem a ver com o tema da educação. Foi baixada para autorizar a Eletrobrás a adquirir o controle acionário da Celg Distribuição S.A. - uma antiga subsidiária da Centrais Elétricas de Goiás. A inclusão do penduricalho atende a uma reivindicação de instituições de ensino superior de todo o País, especialmente as do Estado do Rio Grande do Sul, que vêm amargando vultosos prejuízos.
Uma delas é a Universidade da Região da Campanha (Urcamp). Outra é a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Como não conseguiram saldar suas dívidas tributárias e previdenciárias com a União, elas não podem assinar convênios com o Programa Universidade para Todos (ProUni). Em vigor desde 2005, esse programa permite que as universidades confessionais, comunitárias e privadas ofereçam bolsas de estudo parciais e integrais, em troca da isenção de alguns tributos. Por terem se expandido sem maior planejamento, essas instituições acabaram enfrentando problemas de escala - e o ProUni foi decisivo para mantê-las em funcionamento.
"Das 64 universidades comunitárias em todo o País, 60% têm dívidas previdenciárias e tributárias com a União", diz Jorge Framil, procurador jurídico da Urcamp. A dívida da instituição é de R$ 147 milhões - o que corresponde a quase o dobro de seu valor patrimonial. O débito da Ulbra é de R$ 2,5 bilhões, segundo o governo federal. A dívida da Universidade de Passo Fundo ultrapassa R$ 400 milhões. Pelas contas da União, os débitos tributários e previdenciários das 500 universidades públicas, privadas, comunitárias, confessionais e filantrópicas do País totalizam mais de R$ 15 bilhões.
Pela proposta do deputado Jerônimo Goergen, essas instituições pagariam apenas 10% desse valor - cerca de R$ 1,5 bilhão. Elas teriam o prazo de 15 anos para fazer o pagamento e esse valor seria corrigido anualmente pela Selic. Além disso, as universidades devedoras teriam uma carência de um ano até o primeiro pagamento.
Mesmo recebendo uma parte ínfima do que tem direito, o governo aceitou fornecer imediatamente a todas essas universidades uma certidão negativa de débito, a fim de que elas possam se inscrever no ProUni, cujo prazo vence na próxima semana. Com a certidão negativa, as universidades também poderão pleitear recursos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Pelo acordo firmado com o governo, elas se comprometeriam a oferecer cerca de 300 mil bolsas de estudo durante 15 anos, em troca do abatimento de 90% de seus débitos tributários e previdenciários. "As universidades sairão da asfixia para um cenário em que terão alunos e recursos movimentando a vida acadêmica", diz o relator Pedro Uczai.
Ao justificar essa renúncia tributária e previdenciária, por meio do velho expediente da inclusão de um "penduricalho" na MP 559/12, o governo alegou que o acordo recebeu pareceres favoráveis dos Ministérios da Educação e da Fazenda e da Casa Civil. Mas, entre as beneficiadas, estão instituições particulares com capital aberto em bolsas de valores e universidades confessionais que há muito tempo recebem vultosos repasses de verbas oficiais, sob as mais variadas justificativas. Por isso, a justificativa de que o acordo irá favorecer estudantes pobres e alunos egressos da rede pública de ensino médio não se sustenta. O expediente usado para abater em 90% a dívida das universidades e o envolvimento de parlamentares da base aliada nas negociações deixam claro quem, de fato, saiu lucrando com o acordo.
Resultado do fluxo cambial em maio merece atenção
08 de junho de 2012 | 3h 05
O Estado de S.Paulo
A desvalorização do real ante o dólar foi certamente o
fator que mais contribuiu para que o fluxo cambial ficasse negativo em
US$ 2,691 bilhões, em maio. Mas não foi o único fator. O Brasil, por
diversas razões, perdeu a atratividade internacional de que desfrutou
nos últimos meses.É importante frisar que o segmento comercial do fluxo cambial, que abrange operações ligadas ao comércio exterior (inclusive os financiamentos dessas operações), ficou positivo em US$ 3,636 bilhões, com exportações que alcançaram US$ 22,180 bilhões e importações de US$ 18,544 bilhões. Pode-se dizer que aí a desvalorização do real teve efeito positivo, pois permitiu aumentar as exportações e reduzir as importações. No entanto, não se pode menosprezar neste resultado a alta do preço das commodities, como assinalou o índice do Banco Central.
Entretanto, a saída, em maio, de US$ 34,784 bilhões, ante uma entrada de US$ 28,457 bilhões, representa um fato altamente negativo, merecedor de uma análise que, na ausência de dados detalhados, por enquanto, não pode ser completa.
As saídas de dólares, quando por vias normais, referem-se à venda de ações e títulos de renda fixa, remessa de lucros e dividendos, amortizações de empréstimos, retorno de investimentos produtivos. Certamente, a queda contínua das ações na Bolsa favoreceu a venda desses papéis, o que mostra que não podemos ser indiferentes à evolução das operações bolsistas muito dependentes de capital estrangeiro. A desvalorização do real acabou com o interesse dos especuladores nas operações de arbitragem. Mas, sem dúvida, o fato mais negativo foi a queda dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs). Alguns desses investimentos foram retirados do Brasil em função da queda de ritmo do crescimento econômico, que afetou também a vinda desses capitais. Não foi só essa, entretanto, a razão da parada do ingresso de investimentos. As novas orientações da política econômica estão atemorizando investidores que tinham total confiança na política seguida quando Henrique Meirelles era presidente do Instituto de Emissão. Considera-se no exterior que estamos indo depressa demais na redução do custo do dinheiro, e também cria certo mal estar a adoção de uma política creditícia diferenciada conforme os setores de atividade.
Não podemos, finalmente, esquecer de que o Brasil não escapa das consequências do atual clima internacional, em que a captação de recursos externos se tornou mais difícil e mais custosa.
ocê está em Opinião
Abertura da informação: ainda falta a Constituição
08 de junho de 2012 | 3h 05
WASHINGTON NOVAES, jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br - O Estado de S.Paulo
O caldeirão está fervendo com notícias sobre abertura ou
publicação de informações em várias áreas, como decorrência, desejada
ou não, da Lei de Acesso à Informação, já avalizada pela presidente da
República, mas ainda dependendo de regulação pelo Ministério do
Planejamento. É polêmica já antiga - embora não resolvida - no Brasil. E
que, na verdade, prospera por falta de certas definições
constitucionais.A Câmara dos Deputados e o Senado já decidiram que passarão a divulgar os vencimentos de seus servidores. A presidente da República mandou, por decreto, divulgar os do Executivo. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e a Procuradoria-Geral da República manifestam disposição de acompanhar esse procedimento. A ministra Cármen Lúcia Rocha, do STF e do Tribunal Superior Eleitoral, divulgou no site oficial o valor de seus contracheques. O governo de São Paulo anunciou que só dará informações dessa área na internet.
Entidades de classe de servidores públicos e de magistrados protestaram contra a divulgação, sob a alegação de que esse caminho "expõe a intimidade do servidor", pode torná-lo vítima de extorsões e sequestros relâmpagos. E que "a corrupção não está nos contracheques". Retrucou a Controladoria-Geral da União (Estado, 18/5) que a informação sobre salário não é de caráter estritamente pessoal, já que ele é pago com recursos públicos - por isso o cidadão que paga impostos tem "legítimo direito" de saber a que se destinam os recursos decorrentes desse pagamento.
Já o presidente do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região chega a defender a criação do "habeas mídia", segundo ele (Estado, 15/4), necessário para "impor limites ao poder de certa imprensa" e que "servirá ao povo brasileiro que se encontra à mercê de alguns bandoleiros de plantão, alojados sorrateiramente nos meandros de certos poderes midiáticos no Brasil e organizados por retórica hegemônica, de caráter indisfarçavelmente nazi-fascista". Para completar, o ex-ministro general Leônidas Pires Gonçalves ataca a Lei de Acesso à Informação, com o temor de que se chegue à revogação da Lei da Anistia e à punição de militares acusados de tortura (Estado, 18/5). Em Minas Gerais, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pretende levar à Comissão da Verdade pedido de reabertura de investigações sobre as circunstâncias da morte do falecido presidente Juscelino Kubitschek (Estado, 20/5).
É tema cercado por controvérsias, como lembrou a este jornal (18/5) o assessor de Informação da Unesco para o Mercosul e Chile, Guilherme Canela, observando que "muitas democracias" já optaram pela publicação, "sem grandes repercussões negativas para os funcionários individualmente e com repercussões positivas para a sociedade". Mas a Argentina, por exemplo, chegou a aprovar no Legislativo, com quatro anos de prisão para o autor, medida contra a divulgação de qualquer tipo de informação "que não esteja destinada à publicação". O Parlamento britânico criou regras severas para conflitos entre meios de comunicação e pessoas por eles focalizadas - incluindo direito à privacidade em assuntos particulares, direito a resposta, obrigação de o jornalista se identificar como tal ao buscar informações, etc. Os Estados Unidos criaram (e têm reduzido) limitações à propriedade simultânea de mais de um meio de comunicação.
Na verdade, é tema antigo e apenas parte de uma questão maior, raramente tratada por aqui, que é o direito da sociedade à informação - que não se confunde com liberdade de pensamento nem com ausência de censura, é mais amplo. Porque a igualdade entre todos os cidadãos na possibilidade de acesso à informação é - ou deveria ser - um dos pressupostos básicos de uma sociedade verdadeiramente democrática. E se é assim, se informação é poder, como se costuma dizer, então é preciso dar consequência e perguntar: a quem pertence, na prática, a informação? Se se estiver de acordo que ela pertence à sociedade e a cada indivíduo, chega-se à necessidade de inscrever esse direito dos cidadãos, entre os direitos da cidadania, na Constituição. Para que, em seguida, esse direito venha a ser protegido por leis que o regulamentem, estabeleçam seus limites, possam compatibilizá-lo com a propriedade privada dos meios de comunicação, etc. Em última análise, trata-se de definir e de limitar os formatos sociais de controle da informação (que, é preciso insistir, não se confundem com censura).
Já não há até países e órgãos de comunicação que criaram a figura do ombudsman, encarregado de fazer a crítica dos próprios jornais, ouvir as queixas dos leitores? A Alemanha não chegou a criar nas televisões públicas, para dirigi-las e orientá-las, conselhos com representação de partidos políticos, da chamada sociedade civil (sindicatos patronais e de empregados, igrejas, etc.) e de outras instituições?
Por aqui, pouco se tem avançado nessa direção. Há órgãos de comunicação que não respeitam direitos dos cidadãos, invadem sua vida privada, provocam danos ao patrimônio ou à honra. Como há órgãos - este jornal é um exemplo - vítimas durante mais de ano de censura imposta pelo Judiciário por transmitirem informações que podem e devem ser do domínio público, por serem um direito da sociedade.
É preciso avançar e chegar à Constituição. Para que não haja dúvidas quanto ao direito da sociedade à informação em questões que a afetam por vários caminhos. As polêmicas atuais, mencionadas no início deste artigo, não teriam lugar se um dispositivo constitucional as regulamentasse. É evidente que a sociedade tem o direito de saber da remuneração dos agentes públicos - como o poder tem a obrigação de protegê-los para que essa informação não os transforme em vítimas de crimes.
A democracia só terá a ganhar - e não a perder - com a abertura da informação, em termos definidos constitucionalmente. E com a proteção dos cidadãos contra qualquer abuso nessa área, público ou privado.
Lula e nosso futuro comum
08 de junho de 2012 | 3h 06
FERNANDO GABEIRA, jornalista - O Estado de S.Paulo
O ponto de partida é uma frase de Lula: "Não deixarei
que um tucano assuma de novo a Presidência". Lembro, no entanto, que não
sou de pegar no pé de Lula por suas frases. Cheguei a propor um "habeas
língua" para o então presidente na sua fase mais punk, quando disse que
a mãe nasceu analfabeta e que se a Terra fosse quadrada a poluição não
circularia pelo mundo. Lembro também que hoje concordo com o filósofo
americano Richard Rorty: não há nada de particular que os intelectuais
saibam e todo mundo não saiba. Refiro-me à ilusão de conhecer as leis da
História, deter segredos profundos sobre o que dinamiza seu curso e
dominar em detalhes os cenários futuros da humanidade.Nesse sentido, a eleição de Lula, um homem do povo, sem educação formal superior, não correspondeu a essa constatação moderna de Rorty. Isso porque, apesar de sua simplicidade, Lula encarnava a classe salvadora no sonho dos intelectuais, via luta de classes como dínamo da História humana, e traçava o mesmo futuro paradisíaco para o socialismo. Na verdade, Lula falava a linguagem dos intelectuais. Seus comentários que despertaram risos e ironias no passado eram defendidos pelos intelectuais com o argumento de que, apesar de pequenos enganos, Lula era rigorosamente fundamentado na questão essencial: o rumo da História humana.
A verdade é que a chegada do PT ao poder o consagrou como um partido social-democrata e, ironicamente, a social-democracia foi o mais poderoso instrumento do capitalismo para neutralizar os comunistas no movimento operário. São mudanças de rumo que não incomodam muito quando se chega ao poder. O capitalismo é substituído pelas elites e o proletariado salvador, pelos consumidores das classes C e D. Os sindicalistas vão ao paraíso de acordo com os critérios da cultura nacional, consagrados pela canção: É necessário uma viração pro Nestor,/ que está vivendo em grande dificuldade.
Se usarmos a fórmula tradicional para atenuar o discurso de Lula, diremos que o ex-presidente queria expressar, com sua frase sobre um tucano na Presidência, que faria todo o esforço para a vitória do seu partido e para esclarecer os eleitores sobre a inconveniência de eleger o adversário. Lula sabe que ninguém manda no processo eleitoral. São os eleitores que decidem se alguém ocupará a Presidência. Foi só um rápido surto autoritário, talvez estimulado pelo tom de programa de TV, luzes e uma plateia receptiva.
Se o candidato tucano for, como tudo indica, o senador Aécio Neves, também eu, em trincheira diferente da de Lula, farei todo o esforço para que o tucano não chegue à Presidência. Aécio foi um dos artífices na batalha para poupar Sérgio Cabral da CPI e confirmou, com essa manobra, a suspeita de que não é muito diferente do PT no que diz respeito aos critérios de alianças e ao uso da corrupção dos aliados para fortalecer seu projeto de poder. Tudo o que se pode fazer, porém, é tornar clara a situação para o eleitor, pois só ele, em sua soberania, vai decidir quem será o eleito.
Na verdade, essa batalha será travada também na esfera da economia. Vivemos um momento singular na História do mundo. A crise mundial opõe defensores da austeridade, como Angela Merkel, e os que defendem mais gastos e investimentos, dentro da visão keynesiana de que a austeridade deve ser implantada no auge do crescimento, e não durante o período depressivo. O PT dirigiu o País num período de crescimento e muitos gastos, não tanto no investimento, mas no consumo. É possível que esse modelo de estímulo à economia tenha alcançado seus limites.
Muito possivelmente, ainda, o curso dos acontecimentos não dependerá tanto da vontade de Lula nem dos nossos esforços individuais. A democracia prevê alternância no poder. E a análise de como essa alternância se dá na prática revela, em muitos casos, uma gangorra entre austeridade e gastança. De modo geral, a crise derrota um governo austero e coloca seu oposto no poder, como na França. Mas às vezes derrota um governo social-democrata e elege seu adversário direto, como na Espanha.
Pode ser que o esgotamento do modelo de estímulo ao consumo abra espaço para discurso de reformas fiscal e trabalhista, de foco em educação e infraestrutura, enfim, de uma fase de austeridade. E não é totalmente impossível que um partido de oposição chegue ao governo. Restaria ao PT, nesse caso, um grande consolo: ao cabo de um período de austeridade, o partido teria grandes chances de voltar ao poder com seu discurso do "conosco ninguém pode", do "vamos que vamos", "nunca antes neste país"... Não estou afirmando que esse mecanismo vai prevalecer, é uma das possibilidades no horizonte. A outra é o próprio PT assumir algumas das diretivas de austeridade e conduzir o processo sem necessariamente deixar o poder.
Por mais que a crise seja aguda, o apelo ao consumo e à manutenção de intensas políticas sociais é muito forte na imaginação popular. O discurso de austeridade só tem espaço eleitoral quando as coisas parecem ter degringolado.
O futuro está aberto e não será definido pela exclusiva vontade de Lula. Com todo o respeito ao Ratinho e sua plateia, o povo brasileiro é mais diverso e complexo. Se é verdade que a História não se define nas academias intelectuais, isso não significa que ela tenha passado a ser resolvida nos programas de auditório.
No script do socialismo real o proletariado foi substituído pelo partido, o partido pelo comitê central e o comitê central por um só homem. No script da social-democracia tropical Lula substituiu o proletariado, o partido, o comitê central e o próprio povo brasileiro ao dizer que não deixará um tucano voltar à Presidência. Se avaliar com tranquilidade o que disse, Lula vai perceber que sua frase não passa de uma bravata.
O que faz um homem tão popular e bem-sucedido bravatear no Programa do Ratinho é um mistério da mente humana que não tenho condições de decifrar. A única pista que me vem à cabeça está na sabedoria grega: os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir.
COPIADO : http://www.estadao.com.br/
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