O seringal de Marina e o Bolsa Família Moradores de reserva no AC vivem com o benefício e têm preferência por Dilma A vida dura de se opor ao grupo de Campos
A
colocação (loteamentos dentro do seringal) não tem luz, a água é
retirada de um poço. A escola, de um só funcionário, reúne na mesma
classe as crianças da comunidade; as mães, hoje alfabetizadas, se
revezam para ajudar a educar os filhos. O único hospital fica distante
22 quilômetros por um ramal de terra que no período das chuvas se torna
intransitável. Se conseguir chegar até lá, corre o risco de não ser
atendida. “Sempre falta médico”, diz. “Mas pelo menos agora tem para
onde a gente correr.” Maria Helena Ribeiro e as filhas em casa, em Xapuri
Apesar das dificuldades existentes, Maria Helena diz que a
vida melhorou. “O seringal foi enxergado. Quando eu era criança, a gente
era tratada feito bicho, a casa era de palha e eu acendia o leite da
seringueira, porque não tinha querosene. Eu já tinha 30 anos quando fui
para a escola, hoje meus filhos estudam. De meus 12 irmãos, 4 morreram
doentes. Era assim, não tinha como comprar remédio.”
O principal motivo da melhora, ela diz, é a ajuda do governo
federal. Maria Helena aguarda por mais um benefício: o Bolsa Verde,
parte do Brasil Sem Miséria, para famílias que desenvolvem atividades de
conservação.
“Caminhei muito com Marina Silva, mas nela não voto porque ela
fez erro grande em se afastar da gente. Ela saiu do PT sem dar
explicação para ninguém aqui. E, você sabe, o partido aqui no Acre
surgiu da nossa luta, da luta dos seringueiros. Desde que me conheço por
gente, eu voto no PT. Não conheço bem os projetos da Marina, porque
aqui a gente não tem televisão, mas sei que foi no governo petista que
minha vida melhorou muito.” Estimativa. Segundo o Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Xapuri, fundado pelo ambientalista e líder
sindical Chico Mendes, com quem Marina ingressou no ativismo político,
pelo menos 70% dos cerca de 3 mil associados recebem o Bolsa Família.
No Cadastro Único, do Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome, não há informação sobre beneficiários por profissão. Mas
um levantamento feito pelo Estado com dados dos seis municípios que a
Reserva Extrativista Chico Mendes ocupa - Assis Brasil, Brasiléia,
Capixaba, Xapuri, Sena Madureira e Rio Branco - mostra que, à exceção da
capital, da qual a reserva só ocupa as rebarbas, 68% da população da
região, em média, vive com renda familiar de até R$ 140 por mês, o que
lhes dá o direito ao Bolsa Família, e a metade da população já recebe o
benefício. É o dobro da média nacional.
Brasileia, o primeiro a ter um sindicato dos trabalhadores
rurais, em 1976, dando início ao movimento dos seringueiros no qual
Marina faria nome, tem 71% da população no Cadastro Único, 62% vivem
hoje com menos de R$ 140 por mês e 51% depende do Bolsa Família. Em
Capixaba, município onde a casa que Marina nasceu, no Seringal do
Bagaço, estava localizada (a casa não existe mais), tem 78% dos
moradores no Cadastro Único, 62% estão aptos ao Bolsa Família e 45% da
população já recebe o benefício. O restante aguarda a ajuda, que não
chega por falta de documentação, embora se encaixem no perfil de
beneficiados.
“Isso serve para manter o voto de cabresto para fazer com que
os trabalhadores fiquem dependentes dos políticos. Se quisessem mesmo
ajudar, colocavam o valor da bolsa embutido na borracha e na castanha”,
diz o presidente do sindicato, José Alves, filho de seringueiros que
lutaram ao lado de Marina.
Alves a conheceu quando era menino e dela guarda a imagem de
“uma mulher simples, mas de fibra”. Apesar do tom carinhoso, diz que não
votará nela nem no PT. “Ela já disse que vai manter a política que está
aí, o Bolsa Família... Nenhum deles tem planos para a gente do
seringal. Eles só estão preocupados com os grandes negócios e votos.” Propaganda. Xapuri fica a 192 km de Rio
Branco. Por todo o trajeto, o pasto é a única paisagem e em cada portão
de fazenda de gado nelore se vê a propaganda de um candidato. Nos 12 km
esburacados da Estrada da Borracha, que liga a BR-364 à cidade,
percebe-se a predominância da propaganda eleitoral do PT. Nos cortes
estreitos de terra batida, os chamados ramais no meio da mata, há
cartazes com a foto dos candidatos petistas à reeleição, a presidente
Dilma Rousseff e o governo do Acre, Tião Viana, pendurados em árvores e
cercas.
No km 6 da Estrada da Borracha, na beira da pista, fica a
fábrica de preservativos masculinos Natex, única compradora do leite da
borracha extraído pelos seringueiros. A fábrica estoca a produção,
porque o leite só é tirado da madeira no período de seca - no máximo,
cinco meses ao ano. No restante do tempo, o seringueiro fica sem renda.
Nascida e criada no Seringal do Recanto, Maria Célia Silva e
Silva, de 32 anos, diz que hoje sustenta os quatro filhos, com idades
entre 2 e 12 anos, “graças ao Bolsa Família” - recebe R$ 390 por mês.
Ela e o marido ainda tiram leite das seringueiras, mas não isso não é
suficiente. A produção é de quatro bombas (30 litros cada) por quinzena,
vendidos a R$ 110. A castanha dá R$ 500 - por ano. “O dinheiro não dá”,
diz Maria. Ela viajou 38 km para fora da reserva, em busca de um médico
para o filho, que sofre de bronquite e asma. A escola fica a 10 km de
onde vivem.
Estes são os privilegiados, porque moram a apenas 1 km do
ponto de recolhimento - onde a fábrica recolhe a produção do seringal.
“A reserva Chico Mendes tem 70 km de ponta a ponta e só no ramal central
passa carro. Muitos produtores vivem a 20, 30 km pra dentro da mata e
não conseguem escoar a produção. No tempo do meu pai, embora o patrão
pagasse um absurdo, pelo menos passava de casa em casa. Além disso, de
lá para cá o preço da borracha despencou”, diz o sindicalista José
Alves.
“As famílias que vivem na Reserva Extrativista Chico Mendes
hoje dependem do Bolsa Família”, afirma o professor Elder Andrade, da
Universidade Federal do Acre. “No seringal Cachoeira, praticamente todas
recebem o benefício e lá essa política tem 10 anos. Como podem dizer
que é sustentável?”, diz o professor, que militou com Marina e foi do PT
até 1996. “São a mesma coisa. Defendem a exploração dos seringais,
agora com apoio filantropo de programas como Bolsa Família. Isso não tem
nada a ver com o sonho de Chico Mendes.”
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