Uma montanha de dinheiro para a montanha-russa de escândalos em Brasília Dinheiro em ‘bunker’ de Geddel chega a 51.030.866,40 de reais

Policiais inspecionam montanhas de dinheiro achadas em Salvador. 

Uma montanha de dinheiro para a montanha-russa de escândalos em Brasília

Uma montanha de dinheiro para a montanha-russa de escândalos em Brasília

Nem se digeriu a reviravolta no caso JBS e um ex-homem forte de Temer protagoniza episódio

 
 Brasília
Nem bem se digeriu a reviravolta no caso JBS, ex-homem forte de Temer é ligado a malas de dinheiro enquanto Lula e Dilma são alvo de denúncia. "A impressão que dá é que é uma montanha-russa que só tem queda livre", disse Janot


Rodrigo Janot presidiu nesta terça-feira sua última sessão como presidente do Conselho Superior do Ministério Público Federal. Lá pelas tantas, enquanto fazia uma simples contagem de votos dos dez conselheiros, o procurador-geral da República errou o cálculo e disse: “Hoje estou meio bagunçado”. Ainda impactado pela reviravolta no caso da delação da JBS, que o levou a revisar o ato mais importante e polêmico de seu mandato e colocar sob suspeita um ex-assessor direto nesta segunda-feira, ele ainda confidenciou que não agia por coragem, mas por medo. “Medo de quê? De errar muito e decepcionar as instituições. As questões que enfrentei, enfrentei por medo de errar, de me omitir, de decepcionar minha instituição mais do que por coragem de enfrentar os desafios”. E seguiu: "Esse final [de mandato] tem sido uma montanha-russa porque as surpresas se repetem, as surpresas se mostram e a impressão que dá é que é uma montanha russa que só tem queda livre."
A imagem de montanha-russa usada por Janot não cabe só para o procurador-geral. Janot corre o risco de fechar seus quatro anos à frente do Ministério Público Federal com a anulação do maior acordo de delação premiada feito até agora no Brasil, mas o tema teve de disputar as manchetes da imprensa nesta terça-feira, num termômetro da agitação que tomou conta de Brasília. O sobe e desce atingiu outros protagonistas nacionais, como o presidente Michel Temer (PMDB). Temer, por exemplo,  mal comemorou o revés de seu inimigo da Procuradoria-geral. Viu horas depois a Polícia Federal descobrir que um de seus principais aliados e correligionários, o ex-ministro Geddel Vieira Lima, tinha um bunker onde escondia 51 milhões de reais em dinheiro vivo, deles 8,3 milhões em dólares. Até perto da meia-noite desta terça-feira, sete máquinas de contagem de dinheiro trabalharam sem parar para registrar quanto havia nas nove malas e sete caixas de notas de 50 e 100 reais apreendidas em Salvador, além dos dólares (2,688 milhões na moeda norte-americana)
Nem mesmo a atual oposição pode desfrutar da ciranda de escândalos nesta terça-feira. Acelerando os trabalhos antes do fim do mandato em 17 de setembro, nesta mesma terça-feira, Janot ainda denunciou no Supremo Tribunal Federal por organização criminosa oito políticos petistas, incluindo  os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, a senadora Gleisi Hoffmann, presidenta do PT, o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e os ex-ministros Antonio Palocci, Paulo Bernardo, Edinho Silva e Guido Mantega. “Pelo menos desde meados de 2002 até 12 de maio de 2016, os denunciados, integraram e estruturaram uma organização criminosa com atuação durante o período em que Lula e Dilma Rousseff sucessivamente ‘titularizaram’ a Presidência da República, para cometimento de uma miríade de delitos, em especial contra a administração pública em geral”. A suspeita é que o grupo dos petistas tenha recebido propinas no valor de 1,485 bilhão de reais, por meio da utilização de órgãos públicos como a Petrobras, o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e o Ministério do Planejamento.

Janot sob pressão

A alta tensão seguirá nos próximos dias, mas o certo é que Janot, atingido, não deve sair do sobe e desce e deve ver crescer os questionamentos políticos a suas denúncias seja contra quem for. Outro de seus desafetos públicos, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, já deixou claro que não haverá trégua até o dia 17: "Essa é a maior tragédia que já aconteceu na Procuradoria-Geral da República", disse ao comentar a revisão da delação da JBS em entrevista distribuída por sua assessoria de imprensa.
Tido até agora como um dos expoentes do fim da impunidade dos bandidos de colarinho branco, com frases de efeito que marcaram sua atuação ("pau que dá em Chico, dá em Francisco", "enquanto houver bambu, vai ter flecha"), os críticos dizem que Janot se tornou alvo da pressa em concluir uma das maiores investigações já feitas contra a corrupção no mundo e teve de admitir em público que nem um dos seus auxiliares diretos estava acima de suspeitas. O procurador-geral e sua equipe acabaram enganados por um grupo de executivos da JBS que não temia corromper agentes públicos – delataram 1.829 políticos dos baixíssimos cleros municipais à cúpula nacional. Ao contrário, Joesley e seus subordinados ostentavam seus feitos com a maior naturalidade. Sua única preocupação era a de como evitar a prisão e como contaria suas “traquinagens” para a sua mulher, a jornalista e apresentadora Ticiana Villas Boas. Até agora, conseguiram fugir das celas, apesar de o grupo ser investigado em cinco operações policiais.
Ao se aproximarem de dois procuradores da República (Ângelo Goulart Vilela, que acabou preso, e Marcelo Miller, agora alvo de investigação), os executivos da JBS viam a possibilidade de se proteger. Propositalmente, colocaram um deles, Vilela, na bandeja para ser devorado pelos ansiosos investigadores. O outro, Miller, tentavam blindar garantindo o futuro do ex-procurador como contratado de um dos escritórios de advocacia que atendia ao grupo.
Os pretensos grampeadores profissionais se tornaram vítimas de seus próprios gravadores. Quando Joesley Batista, dono da JBS, e Ricardo Saud, ex-diretor, entregaram a gravação ao Ministério Público Federal, parte das exigências do acordo de delação, não imaginavam que poderiam perder os seus benefícios, incluindo a imunidade em processos anteriores. Nesta terça-feira, Joesley já tinha agendado um depoimento para a Polícia Federal em Brasília. Faltou ao compromisso, alegando problema de saúde.
A montanha-russa também atingiu os prognósticos políticos de Brasília, uma ciranda que envolve a imprensa mas também dezenas de consultorias privadas locais e estrangeiras. Quem analisava o cenário brasileiro há pouco mais de uma semana dificilmente imaginaria as voltas dos últimos dois dias. Quando deixou o Brasil na semana passada rumo ao encontro dos BRICS, na China, Temer chegou a traçar um plano B para retornar a Brasília antes da data prevista. Sua preocupação era se defender de uma eventual segunda denúncia de Janot. Agora, o presidente pisará novamente na capital federal nesta quarta-feira com o ar de que está um passo à frente de seus acusadores. Diz estar sereno, enquanto seus advogados pedem a anulação de toda a investigação contra ele. Isso se nada mudar até lá. 
Uma síntese sobre os últimos dias foi feita pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), antes mesmo de saber do suposto bunkerde Geddel. “Ontem estávamos discutindo como ia ser a denúncia, qual o prazo, como ela vem. Agora, discutimos a reorganização da delação da JBS. O Brasil é um país em que doze horas tudo pode mudar”.
Dinheiro de Geddel Vieira Lima
  • Dinheiro em ‘bunker’ de Geddel chega a 51.030.866,40 de reais


  • A Polícia Federal demorou quase até a meia-noite desta terça-feira para contar as milhares de e notas de reais e dólares encontradas em um suposto bunker onde o ex-ministro Geddel Vieira Lima  (PMDB) armazenaria recursos ilícitos, em Salvador, na Bahia. E a contagem final somou a espantosa quantidade de 51.030.866,40 reais, segundo o balanço definitivo da PF, que precisou de sete máquinas para contar os milhares de notas. Além de reais, nessa quantidade também se contabilizaram dólares, 2,688 milhões (8,387 milhões de reais).
    O dinheiro foi encontrado durante uma operação da PF deflagrada na manhã desta terça-feira que apreendeu milhares de reais em espécie. As imagens divulgadas pela assessoria da PF são impressionantes: foram recolhidas ao menos nove malas e sete caixas de papelão lotadas de notas de 100 e 50 reais. A montanha de dinheiro encheu ao menos dois porta-malas de camionetes usadas no cumprimento do mandado judicial.



  • Os policiais chegaram ao local onde o dinheiro estava armazenado após uma denúncia de que o ex-ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer estaria escondendo documentos relacionados a uma das investigações da qual é alvo. Na prática, os policiais conseguiram muito mais do que esperavam. O imóvel onde estava a montanha de dinheiro não era do peemedebista, mas estava cedido a ele. Oficialmente, ele informava ao proprietário do local que guardaria documentos de seu finado pai, Afrísio Vieira Lima, no apartamento.
  • Batizada de Tesouro Perdido, a operação desta terça-feira é uma continuação da Operação Cui Bono,  que havia resultado na prisão de Geddel em julho. O cumprimento do mandado ocorre um dia depois que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, admitiu que a delação da JBS pode ser anulada porque três dos delatores teriam omitido informações aos investigadores. A PF não detalhou como chegou ao local e nem qual a origem do dinheiro.
    Geddel era um dos principais assessores do presidente Michel Temer (PMDB), com forte influência no Congresso Nacional é apontado por delatores da Lava Jato como um dos receptores de propinas. Ele ficou dez dias preso e atualmente cumpre prisão domiciliar em Salvador.
    No caso atual, ele é investigado por receber 20 milhões de reais em propina para empréstimos da Caixa Econômica Federal ou de liberar créditos do FI-FGTS em conluio com o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com o doleiro Lúcio Funaro e com o ex-dirigente do banco Fábio Cleto. Na ocasião do suposto recebimento de propina, Geddel era vice-presidente de de Pessoa Jurídica da Caixa. Entre os anos de 2011 e 2013, ele ocupou o cargo por indicação do PMDB, durante o Governo de Dilma Rousseff (PT). O peemedebista também foi ministro da Integração Nacional na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
    Considerado um dos articuladores do impeachment de Dilma, a carreira de Geddel começou a ruir após Marcelo Calero, então ministro da Cultura de Temer, denunciar que seu colega de esplanada tentou interferir ile
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