“Eu lamento. Peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam”, diz Bolsonaro. Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país Levantamento inédito contabilizou relatos de agressões e ameaças contra pessoas em 18 estados e no DF nos últimos dez dias; 6 apoiadores do candidato do PSL também foram agredidos
Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país
Levantamento inédito contabilizou relatos
de agressões e ameaças contra pessoas em 18 estados e no DF nos últimos
dez dias; 6 apoiadores do candidato do PSL também foram agredidos
Estudante da UFPR foi
agredido por seis integrantes da torcida organizada do Coritiba. No
final eles gritavam: "Aqui é Bolsonaro" e "Bolsonaro 2018"
Texto: Alice Maciel, Thays Lavor, Gabriele Roza, Alexsandro Ribeiro, José Lázaro Jr. | Infográficos: Bruno Fonseca
Uma jornalista esfaqueada e ameaçada de estupro. Um carro jogado em
cima de um jovem com camiseta do Lula que conversava em frente ao bar
com os amigos. Uma jovem presa e agredida, jogada nua em uma cela da
delegacia. Outro jovem recebe um adesivo colado à força nas suas costas,
com um tapa, e depois recebe uma rasteira para cair no chão.
Todos esses ataques violentos aconteceram desde o dia 30 de
setembro, em meio ao acirramento da violência eleitoral. Um levantamento
inédito realizado pela Pública em parceria com a Open Knowledge Brasil
revela que houve pelo menos 70 ataques nos últimos 10 dias no país.
A grande maioria dessas agressões foi feita por apoiadores de Jair
Bolsonaro, candidato do PSL que está à frente nas pesquisas eleitorais.
Isso mostra que as declarações de Bolsonaro que incitam a violência
contra mulheres, LGBTs, negros e índios e a violência policial estão
ecoando país afora e se transformaram em agressões físicas e verbais
nestas eleições. Por
outro lado, seus eleitores ou pessoas relacionadas receberam 6 ataques.
Em um deles está o caso de um professor da Universidade do Recôncavo
Baiano (UFRB) que foi preso no dia 5 de outubro por atropelar
comerciantes que vendiam camisetas do presidenciável do PSL. Existem
ainda situações em que não é clara a afiliação política do agressor.
O levantamento inédito mostra como as situações de violência se
espalham pelo país inteiro e não podem mais ser vistas isoladamente.
Indagado sobre as ações de seus apoiadores, Bolsonaro tentou
minimizar a onda de violência política. “Eu lamento. Peço ao pessoal que
não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de
pessoas que me apoiam”, disse Bolsonaro ao UOL. “Está um clima
acirrado, pela disputa, mas são casos isolados que a gente lamenta e
espera que não ocorram”, afirmou.
Bolsonaro foi vítima de um ataque a faca em 6 de setembro que o
deixou em estado grave, enquanto fazia campanha em Minas Gerais. O
agressor, Adélio Bispo de Oliveira, confessou o crime e está preso.
Entre os casos contabilizados pela reportagem da Pública, 14
aconteceram na região Sul, 32 na região Sudeste, 18 na região Nordeste, 3
na região Centro-Oeste e 3 na região Norte. Embora tenha havido também
dezenas de casos de ameaças pelas redes sociais, o levantamento incluiu
apenas casos de agressões e ameaças feitas ao vivo. Nesses episódios, a
integridade física de pessoas ficou em risco por causa do ódio ligado à
disputa eleitoral. A
partir de hoje, a organização Open Knowledge Brasil e a Brasil.io, em
parceria com a Pública, vão recolher e monitorar casos de agressões
ligadas às eleições de 2018. Os casos serão publicados no site Vítimas
da Intolerância. Se você tem uma denúncia, envie pelo site. Região Sul: jornalista foi atropelado
“Foi muito rápido, senti a roda como se estivesse me puxando,
simplesmente caí no chão”, relata o jornalista e produtor audiovisual
Guilherme Daldin, 26 anos, atropelado no dia 7 de outubro, dia da
votação em primeiro turno, às 21 horas. Ele comemorava a vitória de um
amigo do PDT para a Assembleia Legislativa do Paraná. Pelas
circunstâncias, a vítima vê só um motivo: vestia camiseta vermelha, com
uma imagem do ex-presidente Lula. Cozinheira paulista foi agredida e presa nua numa delegacia da PM. Só foi solta depois de dizer “ele sim” Jornalista pernambucana foi esfaqueada e ameaçada de estupro Site Vítimas da Intolerância recebe denúncias a partir de hoje
A violência ocorreu em frente ao Bar do Torto, na região central e
boêmia de Curitiba, capital do Paraná, na qual é comum conversar na
calçada. O jovem estava com os colegas no bicicletário. De costas para a
rua, Daldin disse que repentinamente sentiu o carro, um Sandero branco,
bater no lado esquerdo de sua cintura e passar por cima do pé.
“Com o movimento da roda passando sobre o meu pé, eu caí com tudo no
chão e comecei a sentir a fisgada, como se estivesse puxando. Isso foi
em milésimos de segundo. Não fazia ideia do que estava acontecendo,
simplesmente caí e depois fiquei muito preocupado com minha perna, minha
impressão é que tinha acontecido algo pior”, disse à reportagem.
“Com
o movimento da roda passando sobre o meu pé, eu caí com tudo no chão e
comecei a sentir a fisgada, como se estivesse puxando. Isso foi em
milésimos de segundo", disse o jornalista Guilherme Daldin, atropelado
no último dia 7, quando vestia camisa vermelha com imagem de Lula em
Curitiba
O motorista fugiu sem prestar nenhum tipo de assistência. Seus
amigos o seguiram. “Era um homem e uma mulher, segundo meus amigos. Ele
estava com uma camiseta do Brasil [da seleção brasileira de futebol].
Pararam do lado do carro e perguntaram se era ele que tinha me
atropelado. Relataram que ele abaixou o vidro e de forma bem fria fez um
gesto de quem vai pegar algo no console, dizendo ‘eu tenho uma
surpresinha aqui para vocês’”. Com medo de que fosse uma arma, eles
foram embora. “Ninguém queria fazer justiça, mas sim averiguar, tentar
entender o que motivou, pois todos que estavam na rua disseram que o
cara claramente tacou o carro em mim.”
Passados três dias, Daldin conta que as dores estão aumentando,
assim como a sensação de insegurança ao sair na rua. “Por sorte não foi
nada grave, estou com muita dor no joelho e no pé. Agora, quando ouço um
carro derrapando, sinto pânico, fico em alerta. É um misto de desespero
com uma vontade de barrar a violência, ainda mais ao saber que tem
muita gente com ódio exacerbado saindo às ruas. Ao mesmo tempo, bate uma
angústia, medo de me identificarem na rua, sobretudo pela certa
repercussão que o caso vem ganhando.”
Orientado pelos policiais militares que fizeram o primeiro
atendimento no local da violência, Daldin foi no dia seguinte (8) até a
Central de Flagrantes da Polícia Civil, no centro da cidade, para
registrar um Boletim de Ocorrência (BO). Com a ajuda de amigos, o
jornalista conseguiu identificar o motorista, pois a placa do carro foi
registrada. Só que na Civil, o computador da escrivã tinha adesivos
pró-Bolsonaro.
“Eu
lamento. Peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho
controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam”, diz
Bolsonaro, esfaqueado em 6 de setembro em Juiz de Fora (MG)
Reprodução
“Foi
ali que me senti impotente, despossuído de direitos. Cheguei a ficar
mais assustado naquele momento que no dia anterior. E agora, você vai
recorrer para quem?” O jornalista mudou de delegacia e foi até o
departamento da Polícia Civil em outro bairro, nas Mercês, com o
objetivo de se sentir menos acuado para prestar a queixa.
Esse não foi o único caso registrado na última semana na região Sul.
O levantamento da Pública verificou 14 situações de violência
associadas às eleições nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio
Grande do Sul. As vítimas sofreram agressões físicas, uma urna
eletrônica foi destruída a marretadas e duas ofensas verbais, sofridas
na rua, foram denunciadas em redes sociais. Numa delas, a vítima relata
que o agressor chutou o cachorro abandonado que ela alimentava, enquanto
a ofendia.
No dia 6 de outubro, na cidade de Maringá, Vera Lúcia Pedroso, de 53
anos, foi ferida em um ataque ao seu carro modelo Voyage. Ela dirigia
durante uma carreata em apoio a Fernando Haddad, candidato do PT à
Presidência, quando um jovem numa moto emparelhou com o veículo e tentou
tirar à força a bandeira que estava presa ao veículo.
“Estava com muita raiva. Na primeira puxada não conseguiu, na
segunda quebrou o vidro, que cortou minha mão”, relatou à Pública. Foram
quatro pontos no indicador da mão direita e um no mindinho. Presidente
do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Água, Esgoto e Saneamento
de Maringá (Sindaen), Vera conta que o mesmo motoqueiro já tinha
“atacado” outros carros da passeata antes de chegar ao dela.
Há um vídeo na internet sobre a ocorrência no qual dá para ver o
motociclista sendo segurado pelas pessoas da carreata do PT. É que,
depois de quebrar o vidro de Vera Pedroso, ele investiu novamente contra
os veículos, sendo apanhado pelos manifestantes. “Foi quando chegaram
três pessoas, que ajudaram ele a escapar e levaram a moto embora”,
explicou ela. No vídeo, aparece o adesivo de apoio à candidatura
presidencial do PSL.
“Não estou com medo”, disse a vítima à reportagem. “Ainda tenho
muita esperança na democracia, acredito que podemos viver num país em
que haja respeito e tolerância”, completou. Outro
caso de violência registrado em Curitiba, capital do Paraná, ocorreu na
noite desta terça-feira, 9 de outubro, próximo à reitoria da
Universidade Federal do Paraná (UFPR). Por volta das 20 horas, cerca de
seis homens agrediram um estudante da universidade em frente à Casa da
Estudante Universitária (CEU), que fica ao lado dos prédios em que são
ministradas as aulas de ciências humanas.
O jovem de 26 anos, Calil Purt, que estava com boné do MST e
camiseta vermelha, foi espancado por um grupo de torcedores com
camisetas da Império Alviverde – torcida organizada do Coritiba Foot
Ball Club. O estádio do Coxa, como o time é conhecido, fica a poucos
metros do campus da UFPR. De acordo com um estudante, que pediu
anonimato, os membros da torcida estavam se agredindo, o que teria
causado pânico nas estudantes que moram ali.
Foi nesse contexto que Purt teria pedido que os homens saíssem de
lá. A fachada envidraçada da Casa da Estudante foi danificada durante a
arruaça. Foi aí que, de um grupo de 15 homens, seis deles começaram a
espancar o jovem com chutes e golpes de capacete. No final,
acrescentaram os gritos de “Aqui é Bolsonaro” e “Bolsonaro 2018”. A
vítima foi levada ao Hospital Cajuru com escoriações pelo corpo e ainda
realizava exames quando a reportagem foi concluída
A UFPR emitiu uma nota oficial na qual “lamenta profundamente o ato
de violência ocorrido em frente às duas dependências”. E conclui: “A
UFPR repudia veementemente todo e qualquer ato de violência, de
preconceito ou de discriminação”. Região Sudeste: ataques homofóbicos em nome de Bolsonaro
Ao todo, a Pública localizou 32 relatos de agressões cometidas por apoiadores de Bolsonaro na região Sudeste.
“O policial que me abordou na rua, que me agrediu, que me chutou no
chão, que me deu a rasteira, ele olhou para minha cara e falou assim:
‘Ele não? Você acha gostoso? Não era isso que você queria? Eu só tiro
você daí se você falar ‘ele sim’”, relatou a cozinheira e doula Luisa
Alencar. Os policiais, durante a abordagem, fizeram declarações de apoio
ao candidato à Presidência pelo PSL. O fato ocorreu na segunda-feira,
dia 9 de outubro, na 64ª Delegacia de Polícia, no bairro Jardim Coimbra,
em São Paulo.
Ela foi abordada por dois PMs por volta das 14 horas, próximo à sua
casa. Estava fazendo um estêncil com os dizeres “Ele Não” em um muro.
“Os policiais nem me chamaram nem me advertiram verbalmente, eles já
chegaram me agredindo”, contou. Um deles arrancou sua mochila, torceu
seu braço e a algemou. “Enquanto ele me prensava na parede, ele começou a
gritar no meu ouvido: ‘Sua puta, ele sim, sua puta, vagabunda, ele sim.
Não vai ter mais nenhum vagabundo igual a você na rua fazendo essas
merdas’.”
Luisa disse que o policial pediu que ela cruzasse as pernas e depois
deu uma rasteira. “Eu caí de peito no chão. Ele já prensou minha cara
no chão e continuou falando ‘sua puta petista, fedida’. Ele ficou ali me
agredindo.” O outro policial pediu reforço e, de acordo com a
cozinheira, pouco tempo depois surgiu mais uma viatura e cinco motos da
Polícia Militar. “Eles ficaram ainda fazendo uma cena, me prensando no
chão, as pessoas me olhando naquela situação”, contou.
Luisa chegou à delegacia por volta das 15 horas. Ela conta que foi
colocada em uma cela nua enquanto homens passavam, do outro lado das
grades, olhando e rindo. “A delegada mandou eu tirar a roupa, algemada.
Nisso, eles abriram já uma cela e me botaram lá dentro. Disseram que
precisavam averiguar minha roupa, aí me deixaram pelada um tempo dentro
da cela”, disse.
“Quem me conduziu e quem pediu para eu tirar a roupa era uma mulher,
a delegada Cristiane. Só que enquanto eu estava dentro da cela passaram
vários policiais homens, eles me olhavam e riam”, disse.
Ela conta que só saiu de trás das grades às 18:30, depois que obedeceu às ordens do policial e falou “ele sim”.
“Ele falava: ‘Olha pra mim, olha pra minha cara, fala ele sim’,
dando risadas”, contou Luisa. “Eu saí da delegacia às 21h30. A sensação
era que eu estava vivendo na ditadura.” Procurada para comentar o relato
da jovem, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo enviou uma
nota na qual afirma que “não há indícios de irregularidade na ação dos
PMs e da delegada responsável pelo registro da ocorrência”. Afirma ainda
que a autora “também carregava uma porção de maconha e foi encaminhada
ao 64º DP, onde foi lavrado um termo circunstanciado de crime ambiental e
porte de drogas para consumo próprio”.
Também em São Paulo, a família de Laura Carolinah estava na avenida
Paulista, no domingo de eleições, quando ouviu uma ameaça: “Essa mamata
vai acabar, Bolsonaro vai acabar com todos vocês, vamos poder meter
bala”, disse um simpatizante de Bolsonaro.
Laura estava com seu namorado, duas sobrinhas e a irmã em uma
padaria, programa típico paulistano para um domingo. Sua irmã foi falar
com a atendente para saber onde sentar, quando passou por um homem que
esperava uma mesa. “O homem, do nada, começou a gritar com minha irmã,
disse que ela é vagabunda e que estava furando fila. Começou a gritar:
‘Pode sair daí, sua vagabunda’.” Pediu desculpas e tentou explicar que
tinha sido um mal-entendido. Foi quando ele percebeu que ela não estava
sozinha, mas se tratava de uma família negra.
“Quando ele me viu, viu meu namorado, minha sobrinha Any e a mais
nova, Belinha [que está de rastafári], começou a gritar: ‘Essa mamata
vai acabar, Bolsonaro vai acabar com todos vocês, vamos poder meter
bala”, relata. Ele depois continuou para a irmã, segundo Laura: “Você é
uma vagabunda, vai tomar no cu. Vocês votam no Haddad, vão perder de
lavada’”, conta ela, um depoimento que fez na sua página do Facebook.
O áudio da carioca Juliana Sathler começou a circular nas redes
sociais no início da tarde de terça-feira, dia 9 de outubro, alertando
sobre o perigo de andar com adesivo escrito “Ele Não” na roupa. Um pouco
antes de enviar o áudio para um grupo de amigos no WhatsApp, por volta
de 12h30, um homem parou e empurrou Juliana em Copacabana, bairro da
zona sul do Rio de Janeiro. “Ele segurou meu braço dizendo que eu era
uma vadia, esquerdista, que eu deveria voltar pra casa pra aprender a
lavar roupa, que o Bolsonaro ia assumir pra me ensinar tudo isso”,
revela a voz ainda de choro da interlocutora. Termina o áudio com um
aviso: ‘‘Eu vou pedir pra vocês tomarem muito, muito cuidado, onde
andam, com quem andam, sempre que for andar de adesivo, anda em grupo’’,
conclui. Em conversa com a Pública, Juliana Sathler conta que estava perto do
trabalho, em seu horário de almoço. “Eu estava vestida com a roupa de
trabalho, superformal, eu estava com os adesivos do ‘Ele Não’. Ele
esbarrou em mim e ele me empurrou e começou a gritar.” Conta que, quando
começou a pedir ajuda, o homem soltou o braço dela e saiu correndo. “Na
hora eu fiquei completamente perdida, eu fiquei assustada.” Na
delegacia, informaram que ali não poderiam fazer muita coisa, que teria
que fazer um BO online ou procurar uma delegacia da mulher, “visto que
não tinha nenhum ferimento nem testemunhas”.
“Eu deixei bem claro que não foi um atentado por ser mulher, foi um
eleitor do Bolsonaro, ele atacou uma pessoa, não o fato de ser mulher,
ele atacou outra eleitora”, resume.
Um pouco menos de uma semana antes da eleição, no dia 2 de outubro,
Ana Carolina Almeida foi perseguida na Linha Vermelha, na capital
fluminense, quando dirigia seu carro indo do centro do Rio de Janeiro,
por volta das 1h30 da madrugada, para Duque de Caxias. “Um homem
emparelhou o carro comigo e gritou ‘Bolsonaro’. Eu fui acelerar, ele foi
atrás de mim e me fechou, começou me emparelhar, começou a gritar
comigo um monte de coisas, ‘nossa bandeira é verde amarela’, um monte de
besteira aleatória’’. Ela acredita que o motivo da agressão foi porque a
parte de trás do seu carro tinha adesivos escritos ‘Ele Não’. “Quando
ele parou, pensei: ‘Ele vai me bater, ele vai me machucar’. Eu já estava
chorando desesperadamente. Eu tinha que parar o carro porque poderia
bater com ele, ia morrer nós dois.”
Ao sair do carro, o homem se apresentou como policial e mostrou um
distintivo com o símbolo da República. “Falou que ia me prender, pegou
uma algema, ficou me mostrando a algema, ele estava totalmente fora de
si.” Ana se lembra de coisas que ele falou, como: ‘‘Vocês acham que vão
mudar o mundo, não vão mudar, nossa bandeira é verde e amarela, nunca
vai ser vermelha”. Mas ela acredita que o homem que a parou não era um
policial. “Teve um momento que ele falou: ‘Eu vou chamar a polícia’, com
distintivo no peito. E eu pensei: “Ele não é policial’, ele é maluco’’. Ataques homofóbicos
Segundo apurou a reportagem da Pública, diversos ataques foram
direcionados à comunidade LGBT na região Sudeste. São casos em que a
homofobia se mistura ao ódio eleitoral.
Belo
Horizonte, 09 de Outubro. Retrato de Guil, 21 anos, atacada por um
eleitor de Bolsonaro esperando ônibus no centro de Belo Horizonte –
Fotos: Tamás Bodolay – Horto Florestal – Belo Horizonte / Reportagem:
Alice Maciel
Para a jovem transexual de Belo Horizonte Guilderth Andrade,
conhecida como Guil, a única palavra que vale para descrever o momento
atual é medo. “Medo. É a única coisa que consigo definir no momento”,
afirmou a cabeleireira Guil, de 21 anos.
Era quase meio-dia, ela estava na praça da Estação no ultimo sábado,
dia de outubro, no centro da capital mineira, parada no ponto de
ônibus. Na praça acontecia uma manifestação pró-Bolsonaro e um rapaz
colou um adesivo do candidato em seu peito. “Eu falei: ‘Não quero votar
nele, você tem que ter respeito’, e tirei o adesivo.” De repente, sentiu
um “tapão” nas costas. O rapaz havia colado outro adesivo. “Eu o
arranquei novamente.” O homem deu então uma rasteira na jovem. “Eu caí, a
bota dele cortou meu tornozelo. Se eu tentasse levantar, ele ia
continuar me agredindo”, afirmou Guil.
A única pessoa que a ajudou foi um homem que também estava no ponto
de ônibus. “As pessoas que estavam na manifestação não fizeram nada”,
lamentou. Guil disse que não fez BO por medo. “Fiquei com medo de
falar”, justificou. “A situação está muito extrema, não que não era
difícil, mas está ficando pior”, acrescentou.
Guil afirmou que está cada vez com mais temor de sair de casa, pois
tem escutado muitos relatos parecidos com o seu, de amigos LGBTs. “A
gente vai ficando acuado, trancado em casa, não estou conseguindo
trabalhar. Eu quero poder existir sem ser questionada e pressionada o
tempo todo”, exclamou.
Amiga de Guil, Isabela – ela pediu para não usarmos seu nome real
por medo de sofrer represálias –, de 25 anos, também é transexual e foi
atacada em Belo Horizonte por quatro homens vestidos com camisetas em
apoio à Jair Bolsonaro, depois de ter saído de uma festa, no dia 30 de
setembro. “Eles me puxaram para dentro do carro pela janela. Os dois de
trás sentaram em cima de mim e deram muitos socos no meu rosto, jogaram
cigarro aceso e ainda cuspiram”, contou. Segundo ela, um deles estava
armado. “Durante todo o tempo, eu escutei: ‘Se ele ganhar, vamos poder
caçar mais macacos’. Traveco. Não vamos te matar agora porque você ainda
pode ter jeito, mas, se não tomar, você vai morrer de aids’.”
Depois dessa tortura, eles a mandaram descer sem olhar para trás,
ameaçando atirar. “Meu amigo insistiu muito para que eu denunciasse à
polícia, e a tentativa foi um total desastre. Todo o processo mais
parecia uma tentativa de me incriminar de algo do que a solução de um
crime cometido contra mim, a vítima”, relatou.
Em Niterói, um prédio na região sul foi atacado durante a comemoração da vitória de Carlos Jordy (PSL) a deputado federal.
Salomão Moutinho assistia à apuração dos votos no apartamento de uma
amiga. “Estava uma gritaria entre todos os prédios, assim como em toda a
cidade, de uma pessoas falando ‘ele não’, outras falando do Bolsonaro.”
Mas a rixa, que no início parecia inofensiva, mudou de dimensão quando
Salomão e os amigos resolveram sair de casa. “Quando a gente desceu e
pisou na portaria, tinha tipo umas 30 pessoas apontando pra gente”,
relata. “Eram uns 30 caras ou mais, todos com a camisa do Bolsonaro e a
gente não conseguia sair.’’
Logo depois, começaram os ataques – em especial, xingamentos
homofóbicos. “Também falaram para as minhas amigas rasparem o sovaco
delas, começaram a gritar várias coisas, que o comunismo vai acabar,
queriam que voltasse a ditadura, e uma das amigas começou a gritar que
eles não sabiam o que era ditadura e que eles estavam sendo agressivos.”
Depois das ofensas, o grupo entrou no prédio, assustado. Ali,
decidiu arrancar a bandeira LGBT da porta do apartamento e ficou um
tempo com as luzes apagadas e em silêncio porque não sabiam se os
agressores estariam dentro do prédio. Salomão diz que ligou para
polícia, mas a polícia não chegou. O grupo de apoiadores do PSL ficou um
tempo na frente do prédio, mas depois saiu.
“Desde o início da campanha, cada vez mais que eu vou na rua, vejo
mais ataques, carro buzinando. Isso tudo era muito comum há sete anos,
mas agora está voltando”, conta Salomão. “A gente está buscando sair
sempre em grupo, não ficar na rua à noite. Está ficando uma relação
muito ruim”’, desabafa.
Juliana Garcia estava no Bar do Zeca, em Duque de Caxias, Baixada
Fluminense, na sexta-feira passada, dia 5 de outubro, com a namorada. Na
camisa, trazia os adesivos “Ele não” e “O filho dele também não”.
Quando levantou para ir ao banheiro, dois homens foram atrás. “Começaram
a falar: ‘Você está totalmente equivocada, vai defender bandido, só
Bolsonaro salva esse país’.”
Juliana disse que tentou argumentar, mas mesmo assim um dos homens
continuou em um tom agressivo. “Teve um momento em que ele fez o
movimento das armas com as duas mãos apontadas para o meu rosto. Aí eu
não tive reação, o outro homem do lado começou a rir. Saímos correndo do
bar.” Ela admite ter medo de voltar ao bar e andar por Caxias.
O estudante Gabriel Garcia foi agredido por dois homens enquanto
caminhava pela rua, perto de sua casa, no bairro do Ipiranga, em São
Paulo: “Aqui é Bolsonaro, caralho. A gente vai acabar com os viados do
Brasil”, gritou um dos homens, direcionando a fala para ele. E o outro
complementou: “É só eleger que vamos acertar lâmpada nessas porras”.
“Infelizmente, tive que baixar a cabeça e seguir caminho com uma vontade
imensa de retrucar sabendo já de antemão que iria terminar apanhando
feio e que não teria nenhum efeito”, relatou Gabriel. Região Nordeste: jornalista sofre ameaça de estupro
No domingo de eleição, começo de tarde, a jornalista pernambucana
Silvia Castro – o nome é fictício –, 40 anos, foi ameaçada de estupro e
de morte por ser uma profissional da imprensa. Com uma faca no pescoço e
imobilizada por dois homens logo depois de ter votado, os agressores
diziam: “Quando o comandante [Jair Bolsonaro-PSL] ganhar a eleição, a
imprensa irá morrer”.
Logo na sequência, eles – um vestido de camisa verde e outro, de
camisa preta estampada com o rosto de Bolsonaro – discutiam se iriam
estuprá-la ou recortar seu corpo. “E aí foi quando ele botou a faca no
meu queixo, cortou o meu braço e o meu rosto”, relata a jornalista à
Pública. O ato só não foi adiante graças a uma motorista que, segundo
ela, desceu a rua buzinando. “Eles se assustaram e saíram andando rápido
em sentido contrário ao meu.”
Assustada e em pânico, a repórter foi em busca de ajuda, deu uma
volta no quarteirão, mas não encontrou nenhum policial. Silvia foi à
delegacia do bairro Espinheiro e tomou as medidas legais cabíveis. Agora
aguarda a investigação e a captura dos homens que a agrediram. Segundo
ela, ambos tinham entre 36 e 38 anos, estavam bem-vestidos e aparentavam
ser de classe média.
O que ocorreu com a jornalista não foi um caso isolado. Houve pelo
menos 18 registros apenas na região Nordeste. Dos casos levantados pela
reportagem na região, apenas dois não tinham como agressores militantes
partidários de Jair Bolsonaro (PSL).
Entre homicídios, espancamentos e agressões verbais, os atos de
violência atingiram políticos, militantes e cidadãos que, pelo simples
ato de declararem em quem haviam votado, tiveram suas vidas ceifadas.
Foi caso do mestre de capoeira, o baiano Romualdo Rosário da Costa,
de 63 anos, conhecido como Moa do Katende. Ele levou 12 facadas nas
costas depois de ter dito que havia votado em Fernando Haddad (PT). O
assassino foi preso e confessou ter matado o capoeirista por ele ser
petista.
Outro caso é referente à morte de um cachorro a tiros durante um ato
pró-Bolsonaro, no último dia 30 de setembro, na cidade de Muniz.
Durante a carreata um homem que participava do ato desceu do veículo e
atirou três vezes contra o animal. Apesar de ter sido detido na hora,
logo em seguida foi liberado alegando legítima defesa, pois se sentiu
ameaçado pelo cachorro.
A raiva e o extremismo se concretizaram ainda no espancamento da
travesti Netinha Matias, de 40 anos, que, após ter declarado ser contra a
candidatura de Bolsonaro e ao fazer campanha nas redes sociais, teve
sua casa invadida e foi fortemente agredida, os agressores desferiram
socos no rosto e por todo o corpo. Em uma postagem nas foto postada nas
redes sociais, Netinha aparece com o nariz sagrando e com marcas de
violência no tórax. O caso ocorreu na cidade Sigefredo Pacheco, no
Piauí.
No Rio Grande do Norte, uma médica que trabalha em um hospital
público na cidade de Natal rasgou a receita que tinha acabado de fazer
para um paciente idoso, de 72 anos, após ele ter respondido que votou no
candidato do PT à Presidência. Antes de se aposentar, o idoso havia
trabalhado na unidade de saúde e tinha uma boa relação com a médica.
Todas as agressões motivadas por ódio relatadas foram confirmadas
pelas secretarias de Segurança Pública de cada estado à reportagem. Em
alguns casos, os agressores já estão presos, outros ainda estão em
investigação, como é o da jornalista pernambucana. Somente no Maranhão e
em Sergipe não foram encontrados registros de atos de violência dessa
natureza. Região Norte
Em Manaus, no Amazonas, o publicitário Elói Capucho também foi
agredido por um simpatizante de Jair Bolsonaro por ser gay e contra a
eleição do candidato do PSL. Na segunda-feira, como de costume, ele saiu
de casa às 8h40 para trabalhar, de Uber. De acordo com Elói, durante o
trajeto, o motorista lhe perguntou: “Qual a sua visão política sobre o
cenário atual do país?”. “Eu disse para ele que eu, como LGBT, tenho
muito medo pela comunidade, me referindo ao candidato Jair Bolsonaro,
por conta dos discursos de ódio dele.”
Assim que ouviu a resposta de Elói, o motorista pegou a Bíblia,
disse que Deus criou homens e mulheres e começou a agredi-lo. “Eu falei:
‘Eu exijo que você me respeite. Você deve fazer apenas o seu dever de
motorista e eu de cliente’. E foi quando ele puxou meu braço e,
simplesmente dirigindo em uma das avenidas de maior circulação aqui de
Manaus, virou para trás e disse: ‘Cala a boca, eu vou te matar, ou você
prefere que eu te jogue aqui do carro pra fora?’”.
Elói disse que ficou sem reação por algum tempo e em seguida teve
coragem de abrir a porta do carro em movimento. O motorista estacionou o
veículo e o passageiro saiu correndo. Elói registrou BO e está
esperando resposta da empresa Uber. No total, a reportagem localizou 3
relatos de agressões na região Norte. Centro-Oeste
Em Brasília, a estudante e ativista Mayra de Souza, de 27 anos, foi
vítima de um simpatizante de Jair Bolsonaro. Ela foi xingada e agredida
com dois socos na madrugada do dia 9 de outubro. De acordo com
informações do jornal Correio Braziliense, a militante do
movimento social Levante Popular da Juventude estava em um bar com
quatro amigas quando foi abordada pelo agressor. Após repetidos pedidos
para que ele se afastasse da mesa, o homem começou a gritar “Bolsonaro
2018” e, no momento em que Mayra foi fumar um cigarro, ele deu o
primeiro soco, no olho esquerdo. A mulher caiu no chão e recebeu outro
golpe, dessa vez no queixo. O homem fugiu do local. Mayra registrou o
caso na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher. Houve 3 casos
registrados na região. Eleitores de Bolsonaro também foram agredidos
Embora sejam ampla minoria, também há pelo menos seis relatos de
simpatizantes do candidato que sofreram agressões de opositores. No dia 5
de outubro, um professor da Universidade do Recôncavo Baiano (UFRB) foi
preso por atropelar um comerciante que vendiam camisetas do
presidenciável do PSL. O comerciante conseguiu sobreviver e teve apenas
os produtos danificados. Já o docente da UFRB responde em liberdade pelo
ato de violência. O ocorrido foi em Salvador, na Bahia, na orla de
Stella Maris.
Na noite de segunda-feira, dia 8 de outubro, Gilberto de Mattos
levou um chute, caiu e machucou a cabeça depois de ter gritado “ele sim”
quando passava por um grupo de pessoas que gritavam “ele não”, no
bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Ele afirmou que foi cercado e
impedido de sair do lugar por mais de 20 pessoas que estavam no teatro
Galpão Folia, e na sequência foi agredido pelas costas por um homem
identificado como Rafael.
Os policiais alegaram, no BO, que foram informados no local de que
Gilberto teria empurrado e dado um soco no peito de uma mulher,
identificada como Ariadna, durante a discussão política. Rafael teria
dado o chute em Gilberto para defendê-la. Gilberto, no entanto, negou à
Pública que tenha agredido a mulher. Colaborou a equipe do Livre.jor Leia mais na Agência Pública
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