País - Sociedade Aberta
Da cena aos bastidores
O Paraguai não é para o Brasil o que o México é para os Estados Unidos. O Brasil foi apoiador de primeira hora da independência do Paraguai e da sua integridade territorial, mesmo na tragédia da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), “guerra maldita” que encerrou o confronto mais que secular no Prata. De qualquer forma, nesta Sudamérica não existe o abismo psicossocial que divide outra América, e a nossa diplomacia faz um jogo complexo na região, cuja história, geopolítica e cultura conformam um ambiente no qual o Brasil busca promover estabilidade.Em função dessa meta, no que diz respeito ao Paraguai, o Brasil tem duas grandes preocupações, imediatas. A primeira é impedir que a questão dos brasiguaios extrapole em violência, gerando uma crise bilateral e regional de consequências imprevisíveis. A segunda é esvaziar qualquer risco de confrontação armada no país vizinho, o que poderia aspirar o Brasil a uma intervenção ou oportunizar outras, estranhas, que trariam ainda mais problemas.
Seria muito bom se ficássemos na impertinência do chanceler brasileiro pressionando o Congresso paraguaio e não prosseguíssemos na tentativa de intervir num país soberano sem motivo e respaldo. Até mesmo as inoportunas sanções ao Paraguai que beneficiam Buenos Aires e Caracas merecem ser contextualizadas no lugar nenhum a que esse eixo vai chegar. Já o atendimento dos interesses vitais do Brasil na região passa pela manutenção das melhores relações com o governo paraguaio, algo que não pode ser alterado ao sabor dos ideólogos do Planalto.
Fatos são criados, porém acontecimentos adquirem sua dinâmica. Tão bruscamente como se deu a substituição do presidente do Paraguai — golpe para uns, ruptura para outros — afastaram-se as ameaças à paz e à segurança no país vizinho. Retórica à parte, o resultado é claro: por ora, os brasiguaios estão menos ameaçados, o risco de uma crise militar interna foi afastado, e os atores rivais podem ter perdido o momentum.
Por trás do pano, o Brasil tem razões para estar aliviado. Mas não dá para comemorar. Melhor seria se voltasse a jogar como sempre ganhou: nos bastidores, e profissionalmente.
* Sérgio Paulo Muniz Costa, historiador, é membro do CPE (Centro de Pesquisas Estratégicas da UFJF) e do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).COPIADO : http://www.jb.com.br/
Nenhum comentário:
Postar um comentário