Jennifer Nansubuga homenageia sua tradição oral. / D. R.
A surpresa da literatura negra
Uma nova geração de autoras combate os lugares comuns e tem como objetivo tentar definir o papel da nova mulher do continente africanoA surpresa da literatura negra
Conhecem a realidade de onde vieram e os códigos ocidentais
Uma geração de autoras tem como objetivo definir a nova mulher do continente africano.
Jennifer Nansubuga homenageia sua tradição oral. / D. R.
Nem americana, nem africana, nem cidadã do mundo. O termo afropolita,
impulsionado pela escritora Taiye Selasi, equivale a uma realidade: ser
africana do mundo, que é a sua própria. Esta ganesa residente em Berlim
– cujo livro Ghana Must Go – faz referência a “uma noção mais
flexível de identidade.” Faz parte de uma geração de narradoras nascidas
no continente e educadas no Ocidente, lançadas ao mundo a partir do
Canadá, dos EUA ou do Reino Unido, que mostram o outro lado de sua
sociedade. “As representações ocidentais reduzem todo um continente ao
clichê que convém a eles”, comenta Selasi, que viu como as traduções
para o italiano e o alemão de seu livro suprimiam a alusão ao país no
título. “E despojada de suas complexidades culturais, políticas,
religiosas, linguísticas e econômicas – acrescenta –, a história se
transforma em uma tragédia, nada mais. Tenho muita fé em meus leitores e
confio em que conseguirão ver além disso.”
Se os seus personagens mantêm uma relação complicada com sua origem,
ela vive o paradoxo de contar sobre a África sem residir ou publicar lá.
“Acho antiquado reduzir o problema aos escritores locais e leitores
ocidentais. Um escritor atinge o mundo inteiro”, diz ela. Aminatta Forna
concorda, seu livro The Hired Man (Donde crecen las flores silvestres),
acabou de ser traduzido ao espanhol pela Alfaguara. Criada entre a
Escócia e Serra Leoa, e orgulhosa de sua “dupla herança”, Forna evita os
estereótipos: “Muitas atitudes das mulheres no leste da África são mais
progressistas do que as das ocidentais. A mulheres de Serra Leoa
trabalhavam e mantinham seus sobrenomes muito antes que as europeias”.
De fato, países como Ruanda (56%), África do Sul (45%) e Moçambique
(42%) têm uma representação política feminina igual ou superior à de
muitos países europeus. Os esforços destas autoras “podem mudar a ideia
predominante sobre a mulher africana”, explica Izaskun Legarza,
responsável pela Librería de Mujeres das Ilhas Canárias. “As revoluções
devem ser geradas de baixo para cima e não vendidas a partir do
exterior”, acrescenta. Contribuindo com isto estão novos personagens
como Ifemelu, a protagonista do romance Americanah(Literatura
Random House, 2014), da nigeriana Chimamanda Ngozi. Depois de passar
pela universidade nos Estados Unidos, afasta-se do sucesso para
recuperar sua vida na Nigéria e decide quem e como quer amar, viver e
trabalhar. O destino reserva infelicidade para aquelas que se submetem
aos homens; para Ifemelu também, quando renega seu cabelo afro e,
sutilmente, sua raça.
Nova fornada. Outros nomes de destaque são o da
combativa NoViolet Bulawayo, do Zimbabwe, que acaba de ganhar o Prêmio
PEN/Hemingway por seu romance We Need New Names; o de Carole Enahoro, filha de nigeriano e britânica, que divide editores com Alice Munro e analisa em Doing Dangerously Well
a conversão capitalista da Nigéria usando a ironia; Chinelo Okparanta,
também nigeriana e premiada nos EUA por seus romances e livros de
contos, que aborda questões como o lesbianismo na África ou a religião
católica no seu país de origem; ou a ugandesa Jennifer Nansubuga
Makumbi, vencedora pela saga de Kintu do Prêmio Kwani de melhor
manuscrito – um dos poucos prêmios na África para obras inéditas – em
uma espécie de viagem contra a corrente: ela mora em Manchester, Reino
Unido, embora publique em Nairóbi, capital do Quênia.
Qual o impacto deste novo feminismo na África promovido a partir da literatura? “Talvez haja uma sensibilização, mas muitas vezes é uma ilusão. Você não pode falar de direitos quando não tem dinheiro para a educação dos seus filhos, ou para ir ao médico, quando a sua opinião não importa”, diz a escritora madrilenha María Ferreira, que trabalha em Nairóbi. “Além disso, não é uma sociedade homogênea. Na minha cidade, por exemplo, as mulheres podem optar por ter cargos de responsabilidade, vão à faculdade... mas nas zonas rurais, muitas não foram à escola.”
“O termo feminismo é controverso por seu viés ocidental”, diz Soledad Vieitez, professora da Universidade de Granada, que trabalha em seu livro Revoluciones de género em África. “No entanto, uma nova geração de autores (também homens) está reinterpretando estes conceitos.”
copiado http://brasil.elpais.com/brasil/
Revelou-se com The Sex Lives of African
Girls, um texto entre o ensaio e a ficção publicado na prestigiosa
revista Granta. Taiye Selasi não tem certeza “se o talento vai ser
repatriado”. / Nancy Crampton
We Should All Be Feminists, da nigeriana
Chimamanda Ngozi Adichie (publicado em formato digital pela Vintage
Books), argumenta que o feminismo é também uma luta dos homens. / Getty Images
Aminatta Forna insiste no erro de pensar
que “um escritor é desconhecido por não ser popular no Ocidente”, e
defende que há características da mulher africana desconhecidos por
aqui. / Getty Images
Qual o impacto deste novo feminismo na África promovido a partir da literatura? “Talvez haja uma sensibilização, mas muitas vezes é uma ilusão. Você não pode falar de direitos quando não tem dinheiro para a educação dos seus filhos, ou para ir ao médico, quando a sua opinião não importa”, diz a escritora madrilenha María Ferreira, que trabalha em Nairóbi. “Além disso, não é uma sociedade homogênea. Na minha cidade, por exemplo, as mulheres podem optar por ter cargos de responsabilidade, vão à faculdade... mas nas zonas rurais, muitas não foram à escola.”
“O termo feminismo é controverso por seu viés ocidental”, diz Soledad Vieitez, professora da Universidade de Granada, que trabalha em seu livro Revoluciones de género em África. “No entanto, uma nova geração de autores (também homens) está reinterpretando estes conceitos.”
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