A vitória republicana nas eleições legislativas superou as piores
previsões de Barack Obama. Os candidatos democratas ao Senado e a
Câmara foram vencidos aonde parecia…
De recuo em recuo, Barack Obama abriu a porta e
estendeu um tapete para o adversário, preparando-se para um patético
final de governo
A
vitória republicana nas eleições legislativas superou as piores
previsões de Barack Obama. Os candidatos democratas ao Senado e a
Câmara foram vencidos aonde parecia provável e aonde parecia impossível.
O saldo, na partilha de cadeiras para o Senado, é a pior derrota
democrata desde 1953, quando o republicano Dwight Einsenhower encerrou
20 anos de presença democrata na Casa Branca.
A vitória republicana de 1953 foi uma desforra após as cinco
mandatos consecutivos de seus adversários, que colocaram de pé o New
Deal e inauguraram o grande período progressista da história dos Estados
Unidos no século XX. Republicano relativamente moderado no plano
interno, convencido de que não era conveniente contestar a herança
social de Franklin Roosevelt e Harry Trumann, Eisenhower cultivou uma
diplomacia imperial. Foi o presidente que derrubou um governo
constitucional do Irã para instalar uma monarquia submissa em Teerã.
Ampliou os arsenais nucleares para fazer pressão sobre a União
Soviética. Assumiu um tratado que obrigava Washington a defender o
governo nacionalista de Taiwan toda vez que houvesse uma ameaça da
Pequim de Mao Tse-Tung. Einsenhower mandou 15 000 soldados para o
Líbano, para impedir o nascimento de um governo nacionalista aliado de
Gamal Nasser, presidente do Egito. Partidário da teoria do dominó, que
justificava ações de força contra regimes comunistas, seu governo
preparou a invasão de Cuba após a revolução de Fidel — operação que
seria realizada já no governo de John Kennedy.
É certo que, até o momento, os republicanos da segunda década do
século XXI não foram capazes de apresentar uma candidatura com a
estatura de Eisenhower, cuja biografia começou a ser construída no
Exército, como comandante das tropas aliadas que participaram da
vitória sobre Adolf Hitler.
A proliferação de adversários presidenciais para 2016 confirma que as
chances reais de uma vitoria oposicionista têm origem nas fraquezas do
próprio Obama, em sua dificuldade para dar respostas capazes de
interessar à maioria da população norte-americana.
Eu morava nos Estados Unidos como correspondente quando George W
Bush foi eleito presidente, com auxílio providencial da Suprema Corte.
Também me encontrava por lá como enviado especial quando Wall Street
veio abaixo, no colapso de 2008. Estava no Capitólio quando os
parlamentares começaram a debater o primeiro pacote de recursos
destinados a levantar a economia, uma bolada da ordem de 800 bilhões de
dólares. Assisti a primeira vitória de Barack Obama, o primeiro
candidato negro a chegar a Casa Branca. Estive em comícios, viajei pelo
interior, entrevistei sindicalistas ligados ao Partido Democrata,
empresários com simpatias republicanas. Depois de um conflito sórdido
como a Guerra do Iraque, não havia dúvida de que George W Bush fora o
pior presidente norte-americano desde a independência, em 1776.
A visão da pior crise do capitalismo desde 1929 contribuía para
entender por que era preciso autorizar o Estado investisse recursos
imensos para impedir a quebra de grandes bancos e também para proteger
grandes empresas, inclusive gigantes do automóvel, como a GM.
Seis anos depois, Obama é um presidente derrotado em profundidade.
Num país onde o voto é voluntário, muitos eleitores democratas sequer se
animaram a sair de casa para ir até as urnas — o que explica uma
derrota maior do que diziam as pesquisas eleitorais. A economia dos EUA,
hoje, encontra-se num ritmo melhor do que há um ano, mas isso não
ajudou como se poderia imaginar. Foi um crescimento com poucos empregos,
com menores garantias e uma ampliação da desigualdade, que é um traço
característico da sociedade norte-americana em comparação com o bloco
desenvolvido.
Ao contrário do que ocorre com governos de países condenados a
exercer um papel muitas vezes passivo na conjuntura internacional,
recebendo benefícios e prejuízos em função dos movimentos gerados pelas
principais potências econômicas, os Estados Unidos estão no eixo, no
centro de gravidade. Não são objetos do “mercado.” São seu sujeito. Seu
mercado interno é o mais dinâmico do mundo. Seu potencial tecnológico é
incomparável. Idem para a força financeira. O mundo cresce quando os EUA
crescem. Fica parado e até cai, quando caem.
Com uma mensagem renovadora que lhe permitiu vencer o racismo da
cultura norte-americana, e um prestígio externo que lhe permitiu ganhar o
primeiro Premio Nobel preventivo da história, Obama dedicou-se a um
exercício permanente de concessões exageradas, auto-enfraquecimento e
perda de identidade. Renunciou a gerar estímulos mais rápidos e maiores
para a economia porque não queria confrontar-se com as preferências do
capital financeiro, ainda que, em situação de miséria, este passasse o
chapéu para receber ajuda. Afastou-se sem muito pudor dos movimentos
populares que sustentaram sua candidatura a ponto de derrotar estruturas
consolidadas do Partido Democrata aglutinadas em torno de Hillary
Clinton. Evitou oxigenar a diplomacia dos Estados Unidos com novas
alianças. Cultivou gestos e opções pequenas, típicas de grandes
potências.
Pretendia construir consensos imaginários, quando seus adversários só
pretendiam sabotar seu governo em qualquer oportunidade, porque sua
bandeira é acabar com o Estado.
Este é o pesadelo que retorna.
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