Raúl frustra expectativa de reforma migratória em Cuba
Anúncio de indulto de presos ocorreu quando esperava-se flexibilização de viagens
Maite Rico, do El País
Com agências internacionais
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Na verdade, poucos apostavam numa liberalização total de seu ir e vir, mas sim, talvez, num relaxamento das duras limitações na hora de viajar. No lugar disso, Raúl Castro criticou "as circunstâncias excepcionais" vividas por Cuba por conta da "política intervencionista e subversiva do governo dos EUA", que adiam as mudanças numa "temática complexa". Raúl lembrou que as mudanças chegarão de forma "paulatina" e que em jogo está "o destino da Revolução e da Pátria".
— Essas palavras demonstram que o regime tem muito medo. É o habitual: Raúl anuncia medidas e logo adia muitas delas — assegura o escritor Antonio José Ponte, vice-diretor do portal dissidente Diário de Cuba. — A reforma da lei migratória toca no centro da política cubana porque pressupõe derrubar barreiras colocadas há mais de meio século. No lugar, o regime anuncia o indulto, que é positivo, porém pouco essencial para o que está ocorrendo em Cuba e para atender aos desejos da população. Daí vem a frustração.
O indulto beneficia 2.900 presos comuns, inicialmente não políticos, que já cumpriram a maior parte da pena. Além disso, foram levadas em conta outras circunstâncias, como a idade, a saúde e o bom comportamento. Os dissidentes se alegram pelo anúncio, mas o consideram insuficiente.
— É uma medida cosmética e mesquinha — acusa Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos, lembrando que há mais de 70 mil pessoas presas nas 200 cadeias de Cuba. — É uma forma escusa de entreter a opinião pública internacional.
Dissidentes defendem reforma do Código Penal
A decisão, segundo algumas fontes, foi tomada para agradar à Igreja cubana que esperava um gesto do regime antes da próxima viagem papal a Havana. Há antecedentes: para a visita de João Paulo II, em 1998, o regime libertou 200 presos.
— A junta militar sempre achou de bom tom libertar presos antes da visita de um chefe de Estado importante — lembra Regis Iglesias, um dos 75 dissidentes detidos durante a Primavera Negra de 2003, que esperou sete anos antes de ganhar autorização para viver na Espanha. — Agora o grupo é bastante amplo, e estamos felizes. Mas o problema fundamental de Cuba não se resolverá com um indulto.
Para Iglesia, o fundamental seria primeiramente revogar "as leis draconianas e segregacionistas" que puseram milhares de cubanos na prisão. E logo decretar uma anistia, e não apenas por delitos políticos.
— Há muitos presos por delitos econômicos devido à escassez e às carências. Eu tenho companheiros que foram condenados a 20 anos de prisão por roubar bananas. Não há leis justas, nem tribunais imparciais, nem garantias — protesta Iglesia.
O médico Antonio Guedes, vice-presidente da organização dissidente União Liberal Cubana compartilha desta opinião.
— A maioria dos presos não estaria presa se tivesse cometido o mesmo delito em um sistema democrático. Até que se transforme o atual Código Penal, que viola os direitos humanos, e se estabeleça um autêntico Estado de Direito, todo o resto será conto-do-vigário.
Para Guedes, o indulto é um gesto que não afeta o essencial.
— Em Cuba nada se transforma de verdade. Não há mudanças fundamentais e as que existem, por exemplo, no plano econômico, são demasiadamente lentas e dispersas. Resumindo: não há vontade real de mudança e sim medo por parte do regime — avalia.
Yoani: cadeados da grande prisão não foram abertos
De Havana, a blogueira Yoani Sánchez escreveu, em artigo publicado ontem no site do "El País", que a expectativa era grande em Cuba de que Raúl anunciaria a reforma migratória. "Mas, ao anunciar o indulto para presos com mais de 60 anos, doentes, mulheres e jovens sem antecedentes criminais mais graves, o general preferiu abrir os cadeados das prisões pequenas e ainda não parece disposto a abrir os cadeados burocráticos da grande prisão".
Sánchez reafirma, no artigo, a frustração dos cubanos com as transformações "paulatinas" que ocorrem em Cuba. No entanto, comemora que "famílias e amigos dos indultados tenham tido motivos para um Natal de maior felicidade".
Expectativa com a visita de Bento XVI em março
Em Havana, ontem, cristãos celebraram o Natal e falaram sobre a expectativa da iminente visita do Papa Bento XVI à ilha — 14 anos depois da visita de João Paulo II.
— A visita de João Paulo II fez muita coisa mudar aqui. Espero que, com esta, o diálogo se amplie ainda mais — disse Felipe Díaz, morador da capital, lembrando do encontro entre o Papa e Fidel Castro.
Em 2010, o cardeal Jaime Ortega foi fundamental nas negociações que libertaram dissidentes políticos presos, que viajaram à Espanha.
COPIADO : http://oglobo.globo.com/
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