A bem da verdade… senador Jucá!
Eugênio José Guilherme de Aragão (*)
Tenho
respeito por Vossa Excelência como pessoa de inteligência incomum,
enorme capacidade de articulação e homem de diálogo. Estivemos,
quase sempre, em lados opostos, mas isso nunca impediu que
conversássemos, porque os interesses de nossa população sofrida
não permitem que agentes públicos se ignorem por razões de
cosmovisão diferenciada. Sou um menino, comparado com o Senhor, no
meu pendor intransigente por defender os excluídos e por não
tergiversar no que respeita a minha consciência ética, política e
ideológica. Mas aprendi consigo que, apesar das profundas
divergências, há espaços de confluência que merecem nosso esforço
de construir o consenso pontual.
“Por
meio de sua assessoria de imprensa, Romero Jucá negou que tenha
relação de amizade com Villela e ‘estranha como um procurador que
já pediu a cassação de seu mandato por duas vezes possa ser
próximo a ele’. Segundo Jucá, o fato de ele ter sido processado
por Villela mostra ‘que não há qualquer ligação’ entre os
dois.” (Coluna
Lauro Jardim, 28/05/17
– vide reprodução)
Infelizmente
– e isso me pesa muito – vou ter que o desmentir. Faço-o, porém,
com a paz na consciência de quem não tem nada a esconder, porque
não se desviou das privilegiadas lições que recebeu em seu lar
paterno: “esforça-te por ser como um livro aberto em que qualquer
um possa folhear sem se escandalizar ou se indignar”. Sábias
lições do egipciense João Guilherme de Aragão.
Para
que não pairem dúvidas sobre o que vou dizer, contar-lhe-ei quem é
Ângelo Goulart Villela, um dos quadros mais leais, honestos e
brilhantes do Ministério Público Federal. Tão honesto que, mesmo
admirando Vossa Excelência como um garoto admira um gigante da
política, não se esquivou de processá-lo, quando o dever funcional
não lhe deu outra escolha. A negação da amizade em sua nota é, em
verdade, seu melhor testemunho do excepcional caráter dele.
Ângelo,
um jovem procurador, deve ter, suponho, uns dez anos de carreira.
Conheci-o ao ser chamado, como corregedor-geral do Ministério
Público Federal, a resolver situação de conflito entre colegas em
Roraima. Era, ele, procurador-chefe e pessoa muito preocupada com a
harmonia no ambiente de trabalho. Seus colegas de geração tinham-no
como liderança inconteste. Transitava muito bem, igualmente, na
polícia federal. Conversei, à época, com o superintendente
regional em Boa Vista e lá ouvi os melhores testemunhos, provas de
sua integridade e correção. Ao mesmo tempo, notava que era uma
pessoa com disposição de diálogo, qualidade rara num ministério
público contaminado por mentalidade redentora e moralista. Enfim,
revelou-me inteligência emocional muito acima da média de nossos
colegas. Fiquei impressionado positivamente.
O
presidente da ANPR, José Robalinho Cavalcanti (esq.), senador
Romero Jucá (centro) e Angelo Goulart Vilela.
Procurei
então me informar melhor sobre Ângelo e soube que é sobrinho-neto
do ex-Presidente João Goulart, filho de membro do ministério
público e com irmão no quadro do MPT. Muito jovem, ganhando bem e
sem filhos, levava uma vida relativamente despreocupada,
permitindo-se algumas extravagâncias dentro de seu limite de renda,
como comprar bons vinhos, fazer turismo em lugares interessantes
deste mundão de Deus e frequentar bons restaurantes e hotéis,
práticas, aliás, comuns a muitos colegas em situação análoga e
típicas de uma geração de jovens que se sentiram atraídos pela
carreira por conta dos confortos que proporciona. Já fiz muita
crítica a respeito disso e nem sempre entendida por seus
destinatários.
Quando,
em 2013, fui nomeado Vice-Procurador-Geral Eleitoral, convidei Ângelo
para fazer parte de minha equipe. Estava, ele, lotado em Guarulhos.
Fiquei preocupado com a possibilidade de seus colegas de unidade não
o liberarem, porquanto a procuradoria local é uma das mais
movimentadas do Brasil. Mas tive a grata surpresa de saber que os
colegas não só o liberaram, como fizeram questão de expressar sua
satisfação de ver um dos seus ascendendo para atuar num órgão da
cúpula da instituição. Ângelo mereceu aplausos de seus pares.
Durante
minha atuação junto ao Tribunal Superior Eleitoral, Ângelo foi meu
braço direito, pessoa da mais estreita confiança e sabia se
desincumbir muito bem de casos complicados e sensíveis, jamais se
deixando levar por paixões, doutrinarismos ou tendências
político-partidárias. Gozava de respeito dos atores políticos que
acorriam ao tribunal e dos próprios ministros da Corte. A todos
buscava atender com presteza e compreensão, sobretudo a Vossa
Excelência. Nunca me deu motivos para desconfiar de qualquer desvio
de conduta. Muito pelo contrário, exibia rigor na aplicação da
lei.
Por
sua capacidade de dialogar e articular politicamente, Ângelo
despertou, também, a atenção do Procurador-Geral da República.
Foi frequentemente incumbido de dar recados do chefe da instituição
a parlamentares, inclusive a Vossa Excelência, Senador. Fazia o leva
e traz. No seu gabinete – isso testemunhei pessoalmente – Ângelo
era de casa, conhecido e estimado por boa parte de sua equipe.
Conseguia agendar reuniões consigo sem dificuldades e, por isso, era
usado não só pelo Procurador-Geral, mas, também, pela Associação
Nacional dos Procuradores da República, de cuja diretoria passou a
participar para facilitar a articulação parlamentar. Foi recebido
pelo Senhor juntamente com o Doutor Robalinho, presidente da ANPR,
para tratar de pautas legislativas, como se vê na foto abaixo.
Não
sei se Ângelo cometeu algum ilícito no episódio em que foi exposto
à sanha persecutória da mídia, numa sociedade doente como a nossa,
pela intensa polarização política causada interesseiramente para
desgastar os governos populares do Partido dos Trabalhadores. Na
verdade, isso não me interessa. Nosso amigo haverá de se defender
na instância própria e espero que receba a justiça que todos
merecemos, coisa, aliás, difícil nos dias de hoje, quando o
judiciário e o ministério público demonstram mais empenho de
agradar a tal “opinião pública” do que garantir direitos dos
jurisdicionados. Para mim, o que importa é manter-me fiel à máxima
inglesa: “a friend in need is a friend indeed”, um amigo na
necessidade é um amigo de verdade.
Ângelo
está sendo trucidado por aqueles a quem serviu com denodo e
fidelidade. Para ele, que aparentemente feriu a omertà ministerial,
não vale a presunção de inocência. A palavra torta de um advogado
metido em encrenca é suficiente para o Procurador-Geral taxá-lo
publicamente de corrupto, sem qualquer exame mais acurado sobre a
procedência da solteira acusação de que estaria a receber
cinquenta mil reais por mês do Grupo JBS.
Tristes tempos! Para entrar numa fria no Brasil de hoje, basta estar no lugar errado, na hora errada. Sua vida está destruída. Nunca o Ministério Público Federal agiu com tanta ferocidade contra qualquer um dos seus. E olha que lá não tem só carmelitas de pés descalços! Todos o abandonaram à própria sorte. Todos dele querem distância como se fosse um leproso. Inclusive Vossa Excelência.
Pois
não vou abandoná-lo. Aprendi a não julgar ninguém. Nem como
procurador. Não sei se, acaso estivesse no lugar de um errante,
agiria melhor do que ele. A vida não me colocou nessa prova. Cada um
carrega sua cruz e dá seu jeito para cumprir a tarefa. Limito-me a
verificar se certa conduta se subsume à hipótese de um tipo penal.
Só isso. E procedo à aplicação da norma cum
grano salis,
pois, summum
jus, summa injuria!
Afinal, é sempre bom desconfiar de si mesmo, de seus impulsos e de
suas emoções, pois ninguém é melhor que ninguém.
Ângelo
foi vítima daqueles que o usaram. Ao assumir a tarefa de estafeta,
foi útil para muitos colegas mais espertos e mais pusilânimes,
zelosos de não se exporem. Ele estava no olho do furacão, na crise
que tomou conta do país. É que o ministério público adora fazer
bonito para o público e, para ficarem belos na fita, não faltam
cúpidos colegas. Adoram se exibir na cruzada contra o mal, os
arautos da moralidade. Mas o que eles escondem é que seu
protagonismo político e social exige que consigam manter seu
prestígio como carreira, com bons ganhos e crescentes poderes de
ação. Tem-se aí um paradoxo: ao mesmo tempo em que batem em Vossa
Excelência e em seus pares no parlamento, precisam ter alguém que
os chaleire, que os cative, para que os seus sejam bonzinhos e não
partam para a vindita, numa guerra intercorporativa. Há nossos bad
cops e
nossos good
cops,
os “canas” malvados e os “canas” gente boa. Um não vive sem
o outro. Os Dallagnois e a patota de sua claque interna se adoram no
papel de bad
cops.
São os que os tratam na chibata, para todo mundo ver e criar ojeriza
a sua classe.
Ângelo tinha por função ser o good cop. Aquele que vem com papo agradável, diplomático; aquele que quebra galhos e oferece alguma previsibilidade aos ataques que estão por vir, para que a turma de Vossa Excelência possa se preparar. Afinal, a imagem para um político é seu principal ativo e ter algum insider que lhe ofereça alguma explicação sobre os sarrafos que está levando é mais do que útil, é necessário para se preservar minimamente.
Ângelo sabia que sua missão era necessária, também para preservar as conquistas corporativas do ministério público. Tinha que agir com extrema cautela, numa greta entre o lícito e o ilícito. Se os políticos são em sua maioria gente corrupta, como o ministério público dá a entender, negociar com eles benefícios da carreira beira à corrupção também. Mas não negociar é a certeza da perda de poder e de ganhos e privilégios.
Alguém
tem que fazer esse papel de modo a não comprometer a classe dos
limpinhos. Esse cristão tem que ser manhoso, simpático que nem todo
estelionatário e conseguir manter as aparências de decoro. Mas
Ângelo era bom no que fazia, porque não era um estelionatário. Era
sincero, compreendia o mundo político como ninguém e, sobretudo,
respeitava a soberania popular.
Ângelo
Goulart Vilela e o filho de Eugenio Aragão, na cama elástica
instalada na casa do Procurador-geral da República.
Não
tenho dúvida que o papel que lhe foi cometido levou Ângelo a fazer
o que fez. Sentia-se empoderado para isso. Negociar com gente
controversa era sua vocação. E sempre agiu sozinho, pois os
colegas, ainda que se beneficiassem, não queriam se meter nessa
roubada. E, enquanto as tratativas de nosso amigo traziam frutos bons
para a corporação, ele era festejado: “Graaande Ângelo”! Era
que nem Blokhin, o fuzilador preferido de Stalin: era adorado e
adulado pelo Vozhd,
mas nunca o tinha em sua companhia ao executar suas vítimas,
obedecendo a sua ordem de rastreliat.
Isso,
claro, não justifica a entrega de documentos internos a uma parte
investigada; mas a explica muito bem. Seu pecado foi achar que, na
força tarefa, poderia agir solo, dentro do coletivo de prime
donne,
como o fazia na política. Esqueceu de conversar com os russos,
combinar o jogo. Não podia cativar Joesley e seus cúmplices
sozinho, para aceitarem uma delação premiada que era a crème
de la crème do
bolo das vaidades.
Ângelo
tornou-se uma pessoa trágica. Foi sugado interesseiramente e depois
cuspido feito bagaço de laranja. Agora os amigos lhe viram as
costas.
Senador, o Senhor não! Não tem esse direito. Ele muito se sacrificou por Vossa Excelência e pelos seus. Assumiu muitos riscos. Lembra-se, nos estertores do governo da Presidenta legtima e eleita Dilma Rousseff – aquela que vocês traíram junto com a democracia? Pois é. Era na casa de Ângelo Goulart que eu, como Ministro de Estado da Justiça, conversava com o Senhor para garantir tratamento digno à Chefe de Estado!
Era
onde o Senhor se sentia melhor, mais protegido, não é? E agora diz
que não o conhecia? Sinceramente, não esperava isso de Vossa
Excelência.
Quem
sabe, Senador, consiga verter lágrimas de arrependimento e vergonha
que nem Simão Pedro, o pescador que episodicamente traiu seu Mestre?
Acredito
nos humanos. Por mais perversas que possam ser suas atitudes, são
filhos da luz e por isso são tão especiais, que nem Ângelo! Tenho
responsabilidade por quem cativei e cumprirei com essa
responsabilidade. Ele é e sempre será meu amigo. Afinal, não é
qualquer um que brinca com meu filho na cama elástica da casa do
Procurador-Geral da República.
COPIADO http://marceloauler.com.br/a-bem-da-verdade-senadador-juca/
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