Contra os prognósticos, Saleh deixa o Iêmen às serpentes

Contra os prognósticos, Saleh deixa o Iêmen às serpentes
27 de novembro de 2011 11h14

Saleh acena em Washington, em 2000: hoje, após protestos, inconfidências e atentados, acordo e caneta devem grantir transição no Iêmen. Foto: AFP
Saleh acena em Washington, em 2000: hoje, após protestos, inconfidências e atentados, acordo e caneta devem grantir transição no Iêmen
Foto: AFP

Neste momento, Ali Abdullah Saleh é o virtual ex-presidente do Iêmen e se prepara para viajar aos Estados Unidos para tratamento médico. Trata-se de uma condição que até pouco tempo parecia improvável, desafiando o histórico da Primavera Árabe iemenita, e que deve significar, de modo inesperado, o quarto governo árabe derrubado, depois de Tunísia, Egito e Líbia.
Os protestos no Iêmen não viveram uma repressão da magnitude que a Líbia, onde se estima que 30 mil tenham morrido, e a Síria, onde a revolta ainda em curso já deixou 8 mil vítimas fatais. Isso não significa, no entanto, que a Primavera iemenita tenha sido violenta.
Após intensas manifestações no início do ano, seguidas da repressão pelas forças oficiais, o Iêmen enveredou a uma revolta cuja intensidade era exposta em atentados. Foram ataques e explosões de grupos opositores contra símbolos do governo em Sanaa. O auge desta violência foi a própria tentativa de assassinato de Saleh, que, no início de junho, sobreviveu a uma bomba detonada no palácio presidencial de Sanaa, a capital do país.
O atentado frustrado em Sanaa, que levou Saleh a um exílio médico de três meses na vizinha Arábia Saudita, foi o modo encontrado pela oposição iemenita para obter o que pretendia. Antes da tentativa de assassinato, Saleh havia prometido entre abril e maio que assinaria um acordo para coordenar uma transição pacífica. O trato chegou a ser anunciado como o fim da era Saleh, que, em seguida, recusou-se a assinar qualquer documento, frustrando seus opositores.
Saleh recuperou-se e, três meses depois, desafiando a oposição, retornou ao Iêmen. Os protestos se seguiram. E foi destes capítulos de promessas quebradas, desconfiança mútua e atentados a bomba que o Iêmen encontrou, contra os prognósticos, uma saída diplomática para a crise: no dia 23 de novembro, em frente às câmeras da TV pública e na presença do rei saudita, Abdullah Ben Abdel Aziz, Saleh finalmente assinou o esperado acordo.
O texto garante imunidade a Saleh, que assume o posto de 'presidente honrário'. Quem assume a presidência é seu vice, Abdrabuh Mansur Hadi, que tem até três meses para convocar eleições e colocar a transição definitivamente em marcha.
Assim, após a morte de centenas de civis, são o papel, a caneta e a diplomacia que abrem caminho a transição. É um desfecho que chega antes da a Síria onde a pressão internacional sobre Assad aumenta na mesma proporção da impossibilidade de diálogo com a oposição - e com um capítulo final menos violento que o da Líbia - onde o furor pela captura de Muammar Kadafi acabou gerando, entre os tiros de rebeldes e aliados, a morte do coronel em frente ao seu esconderijo.
Boa parte dessa situação se explica pela geopolítica iemenita. Localizado no extremo-sul da Península Arábica, o país de Saleh está na área de influência da Arábia Saudita, e, diferentemente da Síria, com laços não tão fortes com o Irã e mais longe da área de influência da Turquia.
A distância com o Irã é espelhada, por sua vez, na proximidade com os Estados Unidos. Em 2001, por exemplo, o Iêmen proclamou apoio à Guerra ao Terror. Dez anos depois, em setembro deste ano, uma operação americana matou um clérigo da al-Qaeda em solo iemenita.
A caminho de tratamento médico nos EUA, Saleh dá um discreto e silencioso adeus à presidência do Iêmen, enquanto que este, por sua vez, vive o auge da sua Primavera Árabe: uma primavera que, entre protestos, atentados e inconfidências, teve seu capítulo mais importante na assinatura de um acordo que deu imunidade ao líder deposto, fato que, para muitos críticos, encobre as mortes impingidas durante os protestos e durante as décadas de Saleh no Iêmen.
Dançar com serpentes
Sem formação formal completa, Ali Abdullah Saleh, nascido em 1942, cresceu nas carreiras militares e assumiu a presidência do Iêmen do Norte em 1978. Em 1990, promulgando um governo de unidade, conseguiu unificar o país com o território do sul, até então sob a influência da União Soviética. Foi a unificação para a moderna República do Iêmen, da qual Saleh manteve-se presidente.
Se confirmada sua saída dentro de 90 dias, Saleh, hoje com 69 anos, terá sido um dos presidentes mais longevos da região: são 38 anos, um tanto mais que Ben Ali na Tunísia (24) e Mubarak no Egito (quase 30) - mas menos que Kadafi na Líbia (42). Assad, o atual presidente no olho do furacão, comanda a Síria desde 2000 (11), mas representa a sucessão de seu pai, Hafez, que comandou o país de 1971 a 2000 (29).
Segundo lembraram jornais e agências nesta semana, Saleh disse uma vez que "governar o Iêmen é como dançar com serpentes". A partir de agora, o desafio do baile com os répteis caberá aos remanescentes do antigo de Saleh e a oposição.

COPIADO : http://noticias.terra.com.br/mundo



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

Ao Planalto, deputados criticam proposta de Guedes e veem drible no teto com mudança no Fundeb Governo quer que parte do aumento na participação da União no Fundeb seja destinada à transferência direta de renda para famílias pobres

Para ajudar a educação, Políticos e quem recebe salários altos irão doar 30% do soldo que recebem mensalmente, até o Governo Federal ter f...