Sessão durou mais de 17 horas. Com a aprovação, o governo não é obrigado a cumprir meta de superávit primário
Oposição pressiona, mas Congresso aprova alteração da meta fiscal de 2014
Sessão durou mais de 17 horas e teve momentos de tensão
Após mais de 17
horas de discussão, e mesmo sob intensos protestos e duras críticas da
oposição, a base governista conseguiu aprovar, no Plenário do Congresso,
na madrugada desta quinta-feira (4), o projeto de lei do Congresso
(PLN) 36/2014, que muda a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em vigor
e desobriga o governo de cumprir a meta de superávit primário deste
ano. A decisão, entretanto, ressalva quatro destaques apresentados pelos
parlamentares oposicionistas.O clima tenso foi o mesmo
verificado nas duas últimas semanas, tanto na Comissão Mista de Planos,
Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) quanto no próprio Congresso,
com a oposição resistindo à mudança e acusando o governo de crime de
responsabilidade fiscal por não conseguir economizar o que ficou estabelecido na LDO 2014.
Durante
toda a quarta-feira, algumas dezenas de manifestantes protestaram — com
gritos, palavras de ordem e até insultos dirigidos a alguns
parlamentares — contra a aprovação do projeto e o governo. Todos foram
impedidos de entrar no Plenário da Câmara e nas galerias para acompanhar
a votação. Até o cantor Lobão participou das manifestações.
O autor de Vida Bandida e Essa Noite Não,
entre outros sucessos dos anos 1980, disse à imprensa que vai entrar
com um mandado de segurança no STF pedindo a anulação da sessão do
Congresso. Também criticou a proibição da entrada de manifestantes no
Plenário.
— Estão rasgando a Constituição não só ao formular o PLN
36, mas também ao impedir o povo brasileiro de entrar. Estão tirando
nosso direito de ir e vir, estão partindo da premissa de que nós somos
arruaceiros, golpistas e baderneiros e isso nós não somos. Nós queremos
entrar no Congresso porque o Congresso é nosso — afirmou Lobão. Sessão do Congresso para votar alteração da meta fiscal durou mais de 17 horasNa
prática, o PLN 36/2014 retira da LDO o teto de abatimento da meta de
superávit, inicialmente estabelecida em R$ 116,1 bilhões. A regra
original previa que o governo poderia abater até R$ 67 bilhões da meta,
com base nos investimento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)
e das desonerações tributárias destinadas a estimular setores da
produção, principalmente o automobilístico e o de eletrodomésticos.
Ao
não estabelecer um teto, o projeto abre a possibilidade de o governo
abater da meta fiscal até o total do PAC mais as desonerações, montante
que já passou de R$ 130 bilhões. Agora, o Executivo pode manejar o
superávit e, mesmo que feche as contas com déficit primário, não terá
descumprido a meta definida pela LDO em vigor (Lei 12.919/13).
Na
semana passada, o governo comunicou que pretende obter superávit
primário de pelo menos R$ 10,1 bilhões em 2014. A estimativa consta do
Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias, publicado pelo
Ministério do Planejamento a cada dois meses com parâmetros para a
execução do Orçamento da União. A última edição foi divulgada em 21 de
novembro.
Até setembro, o resultado das contas públicas do governo
registrou déficit de R$ 20,4 bilhões - o pior resultado mensal desde
1997. No acumulado de janeiro a setembro, o resultado é deficitário em
R$ 15,7 bilhões.
O texto aprovado nesta quinta é o mesmo que foi
apresentado pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR) ao relatar a matéria na
CMO. Ele substituiu a expressão “meta de superávit”, da proposta
original, por “meta de resultado”, uma vez que não se sabe se o governo
fechará o ano com déficit ou superávit primário, e rejeitou as 80
emendas apresentadas à proposição.
Em seu parecer, Jucá afirma que
a meta de resultado primário “não é imutável ou rígida”. Segundo ele,
fixar ou alterar o número “tem o propósito básico de trazer ao
conhecimento e ao debate público as consequências de todo o conjunto de
decisões adotadas no campo econômico e fora dele”. O relator diz ainda
que ajustar a meta evita também problemas maiores, como o
comprometimento dos programas sociais.
Jucá ressalta ainda que a
alteração da meta fiscal é necessária devido à presente conjuntura
global e à arrecadação prevista, que não se configurou. Ele também
ressalta que a meta de resultado primário “não é imutável ou rígida”. E
observa que fixar ou alterar o número “tem o propósito básico de trazer
ao conhecimento e ao debate público as consequências de todo o conjunto
de decisões adotadas no campo econômico e fora dele”. O relator diz
ainda que ajustar a meta evita também problemas maiores, como o
comprometimento dos programas sociais.
A mudança na meta fiscal de
2014 também foi defendida pelo presidente do Senado, Renan Calheiros,
que conduziu os trabalhos de votação em Plenário. Ele disse que a
alteração é necessária para o governo manter as contas em dia.
—
Se não alterarmos a LDO, não vamos ter dinheiro não só para as emendas
parlamentares, não vamos ter dinheiro para muita coisa e teremos de
fazer, em dois meses, uma economia que não foi feita em dez — afirmou.
Em resposta, o senador Magno Malta (PR-ES), contrário ao projeto, disparou:
— Quem pariu Mateus, que o embale.
Renan
lembrou ainda que a meta fiscal foi alterada em 2001, durante o mandato
de Fernando Henrique Cardoso. Por sua vez, o deputado Sílvio Costa
(PSC-PE) defendeu a redução da meta de superávit como medida temporária,
e lembrou que apenas em desonerações a setores econômicos foram R$ 76
bilhões em impostos que deixaram de ser recolhidos.
— Em sua
maioria são médias e pequenas empresas beneficiadas, e o PAC, que já
consta da redução da meta de superávit teve incremento de 47% nesse ano —
afirmou.
O deputado Vicentinho (PT-SP) lembrou que os estados e
os municípios vão precisar fazer metas menores de superávit em 2014, e
não estão de acordo com a oposição dos deputados que querem a todo custo
ignorar a crise por que passa o mundo.
— Dos 20 maiores países do
mundo, 17 vão adotar déficit em 2014, e nosso governo vai fazer
superávit de R$ 10 bilhões. Será menor do que o programado, mas ainda é
uma demonstração de responsabilidade — afirmou.
Em seguida, o
deputado Paulo Teixeira (PT-SP) lembrou que 15 estados não cumpriram
suas metas de superávit em 2013. Ele afirmou que Minas Gerais e São
Paulo, estados governados pelo PSDB, alteraram suas metas, assim como o
governo federal, para que uma meta menor fosse cumprida.
— O próprio presidente Fernando Henrique reduziu a meta em 2001, e não vimos essa reclamação toda — acrescentou.
Os
deputados Pauderney Avelino (DEM-AM) e Marcus Pestana (PSDB-MG)
criticaram a política econômica atual, que resultou na necessidade de
mudar a meta de superávit.
— Em sua primeira entrevista, o novo ministro da economia já admitiu que isso não pode mais ser feito — disse Pestana.
Para
o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) e o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) é
preciso rever “essa política de trocas com o governo”.
— Oficializar essa política que não é de forma alguma a boa política” — disse Alencar.
Defensor
do projeto, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que a oposição
está “flertando com o golpismo”, porque pretende usar a meta como
justificativa de crime de responsabilidade para provocar um impeachment.
Já
o líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS), disse
que a diminuição do superávit é questão de política econômica. Segundo
ele, os gastos tiveram o objetivo de manter a política de
empregabilidade. Fontana destacou ainda que o então presidente Fernando
Henrique Cardoso também mudou o cálculo da meta.
— Quando foram governo, também mudaram a LDO e não fizeram todo esse drama que aqui fazem — afirmou. Antes da votação do superávit, Congresso mantém vetos presidenciais
Antes
da votação da alteração da meta fiscal, a Câmara dos Deputados manteve
os dois vetos (28/14 e 29/14) da presidente Dilma Rousseff a projetos de
lei com origem na Câmara (PL 6096/09 e 5005/09). O resultado foi
divulgado após mais de meia hora de apuração oral dos votos. Como o
resultado na Câmara manteve os vetos, os votos dos senadores não
precisaram ser apurados porque, ainda que expressassem a derrubada de
algum deles, isso somente pode ocorrer se ambas as Casas decidirem
assim.
O PL 6096/09, da deputada Alice Portugal (PCdoB-BA),
propunha a mudança do nome do Instituto Federal Baiano para Instituto
Federal Dois de Julho.
O texto foi vetado totalmente pelo governo
com o argumento de que a lei de criação desse e de outros institutos
federais de ensino (11.892/08) atribuiu-lhes atuação regionalizada,
devendo seu nome referir-se à sua localização. Foram 257 votos a favor
do veto e 54 contra.
O segundo projeto cujo veto foi mantido é o
PL 5005/09, do deputado Felipe Maia (DEM-RN), que propunha a mudança do
nome da barragem Boqueirão de Parelhas, em município de mesmo nome no
Rio Grande do Norte, para Dr. Ulisses Bezerra Potiguar.
Segundo o
Executivo, a proposta é inconstitucional porque a União não tem
competência legislativa para isso, pois o texto pretende atribuir nome a
bem público do estado do Rio Grande do Norte. Foram 257 votos a favor
do veto e 56 contra. >> Renan Calheiros defende mudança na meta fiscal >> Líder do PCdoB diz que mudança na meta fiscal não fere Responsabilidade Fiscal >> Manifestantes aguardam votação do projeto que muda meta do superávit >> Congresso tenta votar vetos presidenciais e discute superávit >> Deputado diz que grupo de direita é responsável pelos tumultos no Congresso >> Congresso faz sessão com galerias fechadas para votar mudança na meta fiscal
Informações da Agência Senado
copiado http://www.jb.com.br/
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