Pela boca de Riobaldo – seu personagem em Grande Sertão
Veredas – Guimarães Rosa sentenciou que “viver é muito perigoso”. Eliseu
Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, sente na pele que viver no mundo
moderno digital, dos smartphones, é muito mais perigoso ainda. Pego de
calça curta por uma gravação inesperada, o ministro demonstrou, em toda
sua crueza, a natureza e o funcionamento do sistema político no Brasil. É
claro, arca com enorme desgaste. Afinal, o rosto revelado por sua fala é
justamente a feição que o governo Temer procura esconder.
Mas,
Padilha foi didático: o sistema é primordialmente fisiológico. Há
pouquíssimo espaço para questões ideológicas, para “notáveis” em áreas
técnicas ou considerações programáticas. Parlamentares, mais que tudo,
querem cargos, recursos e, a depender das circunstâncias, esquemas que
contribuam para suas reeleições. Governos são pragmáticos e guardam
pouco espaço para considerações e princípios de purismo ético. Isto é
coisa para a oposição.

Pedro Ladeira/ Folhapress 9. Fev. 2017
Assim,
agem e reagem conforme objetivos delineados pelas circunstâncias e
pelas pressões que administram. Salvo raríssimas exceções, esta é a
lógica: se as circunstâncias econômicas exigem reformas, busca-se os
quadros técnicos para isto; monta-se uma agenda, apresentando-a ao
Congresso em busca de sua legitimação política e institucional. Quanto
custa os votos de uma bancada? Um ministério! Paga-se. Uma bancada maior
e mais fiel, compreende ministérios mais robustos, mais recursos.
Se
os grupos de pressão, com expressão na sociedade e no Congresso, têm
interesses contrariados, negocia-se. Se a pressão social se choca com o
governo e a lógica da máquina e do fisiologismo, negocia-se; cede-se se
for o caso. Implicando em custos maiores que os ganhos de fazer parte do
governo, entrega-se os cargos, abandona-se o governo; busca-se
alternativa de poder. Cálculo racional, político e eleitoral. Ilusões
românticas remetem a um mundo lírico e ingênuo que se perdeu no tempo.
Há
anos procuro explicar isto em sala de aula — gastei muita saliva e
tinta; ultimamente, muitos bites em torno desse assunto –, o
funcionamento do sistema tem lógica própria, reage a estímulos, é
pragmático. Como dizem os economistas, a “utilidade” desse tipo de
político não é o bem-estar, mas a manutenção do poder. Se seus
interesses coincidirem com os interesses da maioria da população, muito
que bem. Mesmo com Lula e, depois com Dilma, foi assim.
A fala de
Padilha tem, portanto, enorme valor pedagógico. Mas, mesmo na suposta
inviolabilidade de uma sala fechada, ela deve ser relativizada: o
ministro afirma que “em toda a democracia é assim”; nem todas. Em
regimes onde o número de cargos à disposição do balcão é menor,
forçosamente, a negociação, no nível demonstrado por Padilha, também é
diferente.
Além disso, governantes com menor disposição
fisiológica estabelecem saudáveis quedas-de-braço com o Legislativo;
cedem ao fisiologismo com menos facilidade; impões parâmetros distintos
de convivência – e, sim, às vezes, pagam altos preços por isso, mas
tendem a conduzir negociações mais transparentes e, portanto, mais
facilmente fiscalizadas pela sociedade. Quando cedem, o fazem no limite,
apenas no limite.. De certo modo, o parlamentar fisiológico fica mais
exposto. Equiparar casos como o de Abrahan Lincoln ou de Lyndon B.
Johnson — cujas experiências foram retratadas recentemente pelo cinema –
ao quadro pintado por Eliseu Padilha é exemplo de desinformação ou
má-fé.
No mais, governantes experientes sabem que, como tudo na
vida, mesmo os recursos do Estado têm fim. Um dia, ficam escassos — seja
pela crise, resultado do fim dos ciclos econômicos, seja em virtude da
voracidade fisiológica, sem recato e sem freios — e o resultado é o
colapso de um sistema cujo vício já não permite outro tipo de
racionalidade e comportamento.
Isto ocorreu com o PT: ao final do
terceiro mandato do partido, nada mais havia a dar; seu governo,
capitulando a essa lógica, desprezou a voracidade – do próprio partido,
inclusive. O fato é que 39 ministérios já não bastaram ao mesmo tempo em
que a crise fiscal caiu feito um viaduto… A história é conhecida: com a
elevação de Eduardo Cunha –
primus inter pares do fisiologismo — e do Centrão ao poder, o segundo mandato de Dilma Rousseff não chegou ao fim.
Padilha
jacta-se: “88% de apoio… nem Vargas, nem Juscelino, nem Fernando
Henrique, nem Lula conseguiram isto”. Chama a isto de “capacidade
política do presidente Temer”. Com efeito, tendo nas mãos o espólio dos
cargos do PT — desalojado após o impeachment – Temer os redistribuiu e
deu um reloading no sistema. Aderiu ao fisiologismo, que aliás sempre
morou no DNA do PMDB, e recebeu, então, carradas de adesões. Não há
surpresas nisso.
O sucesso de Temer – “88% de apoio”, segundo
Padilha – pode não ser exatamente um mérito. No médio e longo prazos,
pode mesmo se voltar contra ele. Mais prudente seria não apostar apenas
nisso — transformador mesmo seria ousar outra relação. A distopia
nacional, no entanto, não comporta tanta ilusão. Melhor voltar a
Riobaldo: “…sertão que se alteia e se abaixa… O mais difícil não é um
ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que
quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”. Pego pelo rabo da
palavra, o “escorregão” de Padilha é tão pedagógico quanto revela um
grave erro político.
Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.
copiado http://carlosmelo.blogosfera.uol.com.br/
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