23/11/2011 - 18h34
Podem eleições afrouxar o domínio real do Marrocos?
MOHAMED BEN-MADANI
DO "GUARDIAN"
As eleições no Marrocos estavam previstas para apenas setembro de 2012, mas foram adiantadas para esta sexta-feira em resposta aos protestos amplos promovidos este ano, reivindicando reformas democráticas. O rei Mohammed criou uma comissão liderada por seu antigo professor, Abdellatif Mennouni, para redigir uma nova Constituição, que foi aprovada por referendo em 1º de julho. O resultado foram as seguintes mudanças: DO "GUARDIAN"
1.O rei precisa nomear um primeiro-ministro que seja do partido político que tem a maior presença no Parlamento.
2.Vários direitos passaram do monarca para o primeiro-ministro, incluindo o direito de dissolver o Parlamento.
3.O Parlamento pode conceder anistia a prisioneiros (o que antes era prerrogativa do rei).
4.As mulheres terão igualdade "cívica e social" com os homens. No passado, elas gozavam apenas de igualdade "política".
5.O berbere se torna uma língua oficial do país, ao lado do árabe.
Essas mudanças foram aprovadas por 98,49% dos marroquinos que foram às urnas. Mas muitos acreditam que as mudanças não são suficientes --o rei, por exemplo, conserva o controle total da segurança e da política externa do Marrocos, além da religião-- e continuam a protestar.
A eleição marroquina acontece exatamente um mês após a eleição livre da Tunísia e está sendo vista como teste do compromisso do rei em levar o país para mais perto da democracia.
Nos últimos 50 anos, as eleições parlamentares no Marrocos foram vistas mais comumente como fachada para agradar aos aliados ocidentais do rei. O controle real sobre o poder era beneficiado pelos altos índices de analfabetismo (até alguns parlamentares são analfabetos) e o misto de táticas de repressão e de dividir-e-governar empregadas pelo Ministério do Interior para dominar a dissensão política.
A eleição desta semana é diferente, em certa medida. Em discursos recentes, o rei Mohammed prometeu que ela será justa e transparente. Mas ele continua a ser a figura política mais poderosa do país, e a eleição está sendo disputada pela elite governante, vinculada ao monarca, que enxerga a evolução, e não a revolução, como a melhor resposta aos levantes em outros países da região.
Se a experiência da Tunísia se repetir no Marrocos, o que é bastante possível, o partido oposicionista islâmico da Justiça e do Desenvolvimento (PJD) vai conquistar entre 70 e 80 cadeiras no Parlamento, que tem 395 lugares, tornando-se o maior partido.
O principal adversário do PJD é a recém-formada Aliança para a Democracia. Esta promete romper com a política clientelista do passado, mas o PJD diz que ela é o establishment sob nova aparência. A Aliança é um grupo de partidos fundado por amigos do rei, e um de seus líderes é o ministro das Finanças.
Como o partido tunisiano Al-Nahda, o PJD agrada ao contingente imenso de eleitores marroquinos pobres, porque focaliza questões econômicas e sociais, o analfabetismo e o salário mínimo. Seus parlamentares são conhecidos por serem os mais ativos em um Parlamento conhecido tradicionalmente por seus altos índices de absenteísmo.
Os adversários do PJD estão focando principalmente as novas reformas constitucionais e outras iniciadas pelo rei, mas há também protestos de âmbito nacional do movimento oposicionista 20 de fevereiro, liderado por jovens, que pede um boicote da eleição. Um alto índice de abstenção seria um pesadelo para o establishment.
Contudo, as reformas mais importantes reivindicadas pelos marroquinos são econômicas, que o rei ainda não levou em conta. A riqueza do país ainda está em grande medida nas mãos da família real e de setores ligados ao palácio.
TRADUÇÃO DE CLARA ALLAIN
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