'Se a democracia se perder, não se sabe quando voltará', alerta professora Geógrafa destaca que guinada à direita na AL está ligada a interesses estratégicos Caetano compara ato pró-impeachment à marcha que incentivou golpe video
Enquanto a disputa
pelo controle do país se acirra e setores conservadores tentam retomar o
protagonismo de outrora, movimentos perigosos se delineiam. Laura
Rougemont, professora do Departamento de Geografia da Universidade
Federal Fluminense (UFF), com estudos na área de geopolítica, ressalta
que as estratégias adotadas acirram os ânimos, dividem a sociedade --
como se o país estivesse separado entre os que são a favor do PT e os
que são anti-PT --, e multiplicam micro-fascismos. Neste cenário, o que
deve estar como prioridade, defende, é a defesa pela manutenção da
democracia."O que deve estar em jogo,
neste momento, é mais do que qualquer coisa, a defesa pela manutenção
da democracia. Pois se ela se perde, não se sabe mais quando voltará. E
muitas vezes, a História demonstrou que a espera pode ser longa",
adverte a professora em conversa com o JB por e-mail. "Micro-fascismos
se multiplicam, a ponto de pessoas vestindo a cor vermelha serem alvos
de agressões, inclusive mães com bebês de colo" [Na foto, manifestantes
participam da Malhação de Judas em SP]Ao
analisar a conjuntura geopolítica global e os movimentos na América
Latina, como a eleição de Mauricio Macri na Argentina e os atos
pró-impeachment no Brasil,
fica claro, argumenta Laura Rougemont, que a guinada à direita e
neoliberal já está ocorrendo, e que está ligada a interesses
estratégicos -- quando se observa o protagonismo da Petrobras e do
pré-sal no centro da crise política, por exemplo. Abre-se espaço para a
aprovação de projetos como o que retira a participação obrigatória da
Petrobras no pré-sal e a Lei de Responsabilidade das Estatais.
"Não
é mera casualidade que um dos focos da operação Lava Jato seja a
investigação de diretores de grandes construtoras privadas – OAS,
Odebrecht, Camargo Corrêa, etc – mas, principalmente da estatal
Petrobras. Para além do combate à 'corrupção pela corrupção', a
desmoralização pública
da maior empresa estatal brasileira,associada à desmoralização do
governo de Dilma Rousseff, não pode ser desconectada de interesses
políticos e geopolíticos. A operação Lava Jato – encabeçada pelo Poder
Judiciário – encaixa-se em perfeita sincronia com as estratégias de
impeachment – encabeçada pelo Congresso Nacional", analisa.
Rougemont salienta que as manifestações anti-governo são direitos
assegurados, mas que as manifestações de ódio resultantes deste cenário
preocupam, em meio a uma "cegueira" generalizada criada em paralelo.
"Dividir a sociedade de forma maniqueísta, em que de um lado está o
'bem', que é contra
a corrupção (e quem não é?) e o 'mal', que é a favor da continuidade de
tudo, dá o aval para que se possa odiar o outro, já que ele é pintado
como uma ameaça", diz. "Assim, os micro-fascismos se multiplicam, a
ponto de pessoas, pelo simples fato de estarem vestindo a cor vermelha,
serem alvos de agressões, inclusive mães com bebês de colo."
Para a
professora, o impeachment da presidente Dilma pode ter implicações
diretas na geopolítica externa do Brasil, já que o campo energético, que
tem como maior representante do país a Petrobras, é chave para um jogo
de disputas e manobras. Confira a conversa com a professora na íntegra, feita por e-mail: Jornal do Brasil - Qual a primeira impressão que
você tem sobre os últimos acontecimentos?
Laura Rougemont - Os últimos
acontecimentos evidenciam o acirramento de uma disputa pela hegemonia do poder,
ou, em outros termos, uma tentativa desesperada de setores mais conservadores
politicamente na retomada do protagonismo nas decisões, e que têm como alvo
principal a desconstrução do pacto social e conciliatório que permitiu a
governabilidade do Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2002. Para isso, a
direita tem se valido de estratégias obscuras, como a aliança com o Poder
Judiciário e, significativamente, com o apoio da mídia – também hegemônica – na
manipulação dos fatos e espetacularização da realidade. Este cenário tem
gerado, como resultado, um acirramento dos ânimos sociais, que se evidencia com
a banalização do ódio e de atitudes que beiram o fascismo não só nas
manifestações, mas também no dia a dia. Enquanto isso, por trás da cortina de
fumaça, há manobras muito mais profundas em curso, que sequer vêm a debate
público. Jornal do Brasil - Levando em conta um certo protagonismo da Petrobras e do pré-sal no discurso, o
que estaria em jogo?
Laura Rougemont - Não é mera casualidade que um dos focos da operação Lava Jato seja a
investigação de diretores de grandes construtoras privadas – OAS, Odebrecht,
Camargo Corrêa, etc – mas, principalmente da estatal Petrobras. Para além do
combate à “corrupção pela corrupção”, a desmoralização pública da maior empresa
estatal brasileira,associada à desmoralização do governo de Dilma Rousseff, não
pode ser desconectada de interesses políticos e geopolíticos. A operação Lava
Jato – encabeçada pelo Poder Judiciário – encaixa-se em perfeita sincronia com
as estratégias de impeachment – encabeçada pelo Congresso Nacional.
Neste clima de exaltação política, projetos que representam ameaça à
soberania nacional e retrocessos no campo dos direitos humanos ganham força e
são colocados em aprovação em regime de urgência. Uma destas ameaças é o Projeto
de Lei do Senado (PLS) 131/2015, de autoria do senador José Serra (PSDB/SP),
que acaba com a obrigatoriedade da Petrobras em ser operadora exclusiva do
Pré-Sal e abre prerrogativa para a empresa se abster da exploração mínima de
30% definida em lei. Outro exemplo é a Lei de Responsabilidade das
Estatais (PLS 555/2015), resultado de uma comissão mista criada por sugestão
dos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL), e da Câmara dos
Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), cujo relator é o senador Tasso Jereissati
(PSDB/CE). O PLS define atribuições mínimas de fiscalização e controle a serem
exercidas em sociedades empresariais nas quais as estatais não detenham
controle acionário. Neste sentido, trata-se de uma proposta que fere o
princípio da autonomia e cria um marco regulatório que enquadra as empresas
estatais na lógica do mercado financeiro.
Estes
dois exemplos são notórios da abertura para o capital privado – nacional e
internacional – de setores públicos estratégicos. Neste cenário de alvoroço
político, não há dúvida de que a reorientação da política nacional, com o
impeachment da presidente Dilma Rousseff e a possível assunção do cargo por
algum dos partidos da oposição,poderá ter implicações diretas na geopolítica
externa brasileira, visto que o campo energético, cujo maior emblema é a
Petrobras, é chave para um jogo de disputas e de manobras muito mais amplas. Jornal do Brasil - Como essas dinâmicas se inserem
num contexto da América Latina e também em um contexto global?
Laura Rougemont - Analisar
estas dinâmica sem termos regionais latino-americanos implica, compulsoriamente,
em analisar o que está em jogo em escalas mais amplas. É fato que a ascensão de
Lula à presidência, em 2002, foi reflexo de um período de fortalecimento de
governos supostamente progressistas e populares na América Latina. Além de
Lula, Hugo Chávez na Venezuela, Rafael Correa, no Equador, Cristina Kirchner,
na Argentina ou Evo Morales, na Bolívia, são exemplos de como a primeira década
do século XXI foi marcada pela ascensão de governos que tinham este caráter.
Esta
conjuntura permitiu, em muitos momentos, que fossem estabelecidas alianças
estratégicas entre os representantes de cada um destes países da América
Latina, fortalecendo projetos de integração regional, em especial de integração
econômica, como é o caso da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura
Regional Sul Americana (IIRSA). Tal projeto, já em execução, visa integrar as
infraestruturas de transporte, energia e telecomunicações, viabilizando as
riquezas do continente sul-americano para o mercado, especialmente para o
asiático. Diante desta conjuntura, a China figura como principal consumidora das
commodities produzidas na América
Latina, às custas da proliferação de uma série de conflitos socioambientais
e/ou trabalhistas nas áreas produtoras. É importante destacar que, neste
cenário, as empresas brasileiras de diversos ramos (agronegócio, construção
civil, etc.) foram as mais beneficiadas, contribuindo para transformar o Brasil numa
potência regional na América Latina, conforme defende o jornalista uruguaio
Raúl Zibechi, em seu livro intitulado “Brasil Potência – entre a integração
regional e um novo imperialismo”. Assim, a China tem deslocado as atenções para
a Ásia, disputando acirradamente com os EUA o posto de maior economia mundial. Isso
implica, de certa forma, numa nova reconfiguração geopolítica que decorre da
perda da hegemonia norte-americana neste continente, que, além do Pré-Sal,
também possui a Amazônia como área de interesse estratégico.
Se
analisarmos a conjuntura geopolítica global em associação aos movimentos em
curso na América Latina, como, por exemplo a eleição de Mauricio Macri na
Argentina ou os movimentos pró-impeachment no Brasil, fica claro que a guinada à
direita e neoliberal já está ocorrendo na região; e mais, ela está associada,
sem dúvida, à interesses estratégicos, em especial dos EUA. O jornalista Luis
Nassif, em matéria recente*, traz argumentos para a respeito de uma cooperação
geopolítica internacional, fazendo ligações entre a operação Lava Jato e os
EUA. [*“Hipótese: a
conexão EUA-Lava Jato”, de 09 de março de 2016. Disponível em: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/hipotese-a-conexao-eua-lava-jato/] Jornal do Brasil - Como você analisa esses
conflitos nas ruas e nas redes sociais?
Laura Rougemont - É sobremaneira
preocupante observar não as manifestações em si, que são direitos assegurados a
todos os indivíduos, mas principalmente as manifestações de ódio que resultam
destes movimentos. Isso decorre em grande parte pelo fomento, por parte da
mídia monopolista, de uma polarização da sociedade, como se existissem apenas
dois grupos socialmente distinguíveis: “os petistas” e os “anti-PT”. Quando se
polariza o debate, a cegueira se generaliza e é cada vez mais difícil enxergar
as nuances que atravessam as discussões. Dividir a sociedade de forma
maniqueísta, em que de um lado está o “bem”, que é contra
a corrupção (e quem não é?) e o “mal”, que é a favor da continuidade de tudo,
dá o aval para que se possa odiar o outro, já que ele é pintado como uma
ameaça. Por outro lado, a sociedade elege o seu novo “messias”, o juiz Sérgio
Moro, que personifica a legalidade e o bem.
Assim, os
micro-fascismos se multiplicam, a ponto de pessoas, pelo simples fato de
estarem vestindo a cor vermelha, serem alvos de agressões, inclusive mães com
bebês de colo. A violência tem sido naturalizada e as leis têm sido ignoradas,
tudo em nome do anti-petismo. Enquanto isso, tanto nas ruas quantos nas redes
sociais, discursos vazios e pouco contundentes, que bradam pelo combate a
corrupção dão subsídio para a continuidade disso que se assemelha a uma guerra
civil. Não precisamos ir muito longe para saber que esse cenário de mobilização
das massas, de consenso e de veneração de um suposto “salvador” da pátria é
bastante grave. O que deve estar em jogo, neste momento, é mais do que qualquer
coisa, a defesa pela manutenção da democracia. Pois se ela se perde, não se
sabe mais quando voltará. E muitas vezes, a História demonstrou que a espera
pode ser longa.
Caetano compara ato pró-impeachment à marcha que incentivou golpe
Cantor falou sobre crise no cenário político em programa televisivo
Caetano Veloso
comparou as manifestações do dia 13 de março, que reivindicavam o
impeachment da presidenta Dilma Rousseff, com a 'Marcha da Família com
Deus pela Liberdade', que antecedeu o golpe militar de 1964. O cantor
comentou sobre o cenário político no programa Altas Horas, da TV Globo, neste sábado (26).
"A
manifestação de domingo era bela, tinha presença das pessoas, mas eu
não reconhecia nela a passeata dos 'Cem Mil' contra ditadura. E também
não era suficientemente diferente da passeata da família que incentivou o
golpe", declarou o artista.
Caetano Veloso também comentou as
desigualdades sociais no país e alertou que as elites se incomodam
quando surgem políticas para diminuir as diferenças entre ricos e
pobres: "O Brasil é um país desumanamente desigual. E é assim há muito
tempo ou desde sempre. Toda movimentação no sentido de libertar essa
estrutura desumana, essa estrutura injusta, sempre tem encontrado
manifestações dos privilegiados de maneira para não deixar que nada
aconteça".
Para o artista, o cenário político é complexo e ele
rechaçou reflexões simplistas. "É complexo, mas a gente tem que olhar
com objetividade e coragem. Não temos que, para facilitar a nossa vida,
escolher um lado e dizer que "fulano é ladrão". Não é simples assim",
alertou Caetano.
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