António Martins da Cruz foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2002 e 2003
| Jorge Amaral/Global Imagens
Embaixador
Martins da Cruz teme que pressão dos EUA e divisões na UE sobre sanções
à Rússia destrua unidade europeia nessa matéria.
Como é que vê um Presidente dos EUA como Donald Trump?
Há
um novo paradigma e temos que nos adaptar. Os republicanos tiveram
grandes presidentes, como Ronald Reagan, e os democratas também. O
melhor presidente dos EUA que conheci foi Bill Clinton, para os EUA e
para o exterior. Com Donald Trump é preciso esperar quatro anos,
porventura oito, para sabermos se foi um bom presidente.
O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, já afirmou que Trump é uma ameaça para a UE...
É
verdade e devia ter moderado o que disse. Na reunião do Conselho
informal de Malta já o criticaram. Países como o seu (a Polónia), a
Hungria e outros já disseram "não nos revemos no texto que o presidente
Tusk enviou à administração americana". Portanto, perdeu uma boa
ocasião...
Em Bruxelas há forte oposição ao embaixador [Ted Malloch] que Trump nomeou para a UE...
É
uma polémica suscitada exclusivamente pelo Parlamento Europeu e não
pelo Conselho ou pela Comissão, que são quem tem de o acreditar. Ele vai
apresentar as cartas que o acreditam ao presidente Tusk e provavelmente
ao presidente da Comissão, não é ao Parlamento.
Berlim e Paris já criticaram afirmações de Trump sobre a UE e NATO. Lisboa terá de optar um dia entre Bruxelas e Washington?
Acho
que nunca se vai colocar a questão de ter de escolher entre o Atlântico
e a Europa, a não ser que a Europa impluda. A Europa está-se a
deslaçar. Se houver uma implosão da Europa, que é a primeira prioridade
da política externa portuguesa, aí vamos ter que nos recolocar
politicamente. Mas ainda é cedo e não creio que a Administração Trump
tenha interesse em que a Europa desapareça.
Não considera que Donald Trump antagoniza a UE como um todo?
O
Trump não é um isolacionista, não quer os EUA isolados. Um empresário
com negócios em 30 ou 40 países não é um isolacionista. Pode ser outras
coisas, um isolacionista não é. Vai querer ter parceiros privilegiados e
na Europa até agora foi escolhido o Reino Unido, seguramente será a
Alemanha e, pelo que vemos, a Espanha posiciona-se para ser o
interlocutor dos EUA para a Europa, a América Latina e até para o Médio
Oriente e o Magrebe.
Madrid vai ser o aliado preferencial dos EUA face a Portugal?
Não
há estados de alma em política externa. Temos que ter a noção de qual é
a perceção que os outros têm de nós e isto é muito claro: para os
Estados Unidos basta um interlocutor na Península Ibérica. Devo dizer,
aliás, que essa foi uma das principais razões porque Portugal esteve ao
lado dos EUA na questão do Iraque em 2003. A Espanha, que sempre tinha
tido uma posição pró-árabe nos governos de Felipe González, mudou com o
governo de [José Maria] Aznar. E na perceção dos americanos era preciso
seguir a voz de Aznar e Portugal seria mais uma vez esquecido.
Ainda
em relação à UE, a aproximação dos EUA à Rússia e um alívio de sanções
não pode acentuar as divisões entre Estados membros?
No
caso da Rússia, em que tem havido algum consenso, espero que se
mantenham os timings e o diálogo com os EUA. Há uma coisa que sabemos ou
que se pressente: as sanções à Rússia vão ser levantadas. Então, que
sejam levantadas ao mesmo tempo pelos EUA e pela UE e não comece cada um
[dos 28] a agir para o seu lado, a ter uma política específica. Já que
conseguimos ter uma posição comum, então que se mantenha até ao fim. O
meu receio é que as campanhas eleitorais que aí vêm na Europa [França,
Alemanha, Holanda] e alguma pressão que a Administração Trump possa
exercer tende a esfrangalhar esta unidade europeia neste caso concreto.
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