A situação é confirmada pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED),
divulgada nesta semana pelo Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos (Dieese). Ela mostra que a desigualdade entre
negros e não negros diminuiu ao longo da última década, mas que o
racismo nesse ambiente persiste
20 de Novembro de 2014 às 08:46
Helena Martins - Repórter da Agência Brasil
Diferenças salariais, maior presença em postos de trabalho precários,
exclusão. O acesso e a qualidade da permanência no mundo do trabalho
são desafios enfrentados cotidianamente pela população negra, que “vai
de graça para o subemprego” e acaba se tornando “a carne mais barata do
mercado”, como denuncia a música A Carne, cantada por Elza Soares.
Para quem sofre na pele a discriminação, práticas comuns, como a
cobrança de fotos nos currículos, acabam viabilizando essa seletividade
que tem como recorte a questão racial. “A sua competência ainda é
exposta por meio de uma foto 3x4. E a gente vive, nas entrevistas de
emprego, a avaliação mais forte em dois pontos: a cor da sua pele e o
CEP [Código de Endereçamento Postal] da sua casa”, opina Henrique QI, rapper, educador social e morador do Recanto das Emas, no Distrito Federal.
A situação é confirmada pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED),
divulgada nesta semana pelo Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos (Dieese). Ela mostra que a desigualdade entre
negros e não negros diminuiu ao longo da última década, mas que o
racismo nesse ambiente persiste.
Produzido por meio de convênio com a Fundação Seade, o Ministério do
Trabalho e órgãos parceiros no Distrito Federal e nas regiões
metropolitanas de Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, do Recife, de
Salvador e São Paulo, o estudo avalia dados de 2013 e aponta que, na
maior parte das cidades pesquisadas, as disparidades permanecem maiores
quando o assunto é remuneração ou qualidade do trabalho.
Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, o rendimento médio
de negros por hora (R$ 7,98) representou, em 2013, 65,3% do recebido
por não negros (R$ 12,22). O percentual era 54,6%, em 2002, e passou
para 61,6%, em 2011, e para 63,4%, em 2012.
Embora a diferença tenha diminuído, os negros seguem mais presentes
do que os não negros em ocupações não regulamentadas. Também existem
mais negros entre assalariados sem carteira de trabalho assinada no
setor privado (9,2% negros e 8,7% não negros); entre trabalhadores
autônomos (16,0% e 15,4%, respectivamente) e entre empregados domésticos
(9,7% e 5,1%, respectivamente).
A supervisora da pesquisa, Lúcia Costa, destaca que as análises
mostraram que os negros são preteridos independentemente de sua
qualificação. “Pelo simples fato de terem uma aparência que identifica a
origem africana, eles são preteridos no momento da obtenção do
trabalho. Eles também ocupam postos de trabalho de menor prestígio e,
com isso, têm menor renda. Por isso, as famílias têm menor capacidade de
garantir a escolaridade dos seus filhos. Assim, você mantém a
perpetuação da desigualdade”, explica.
Lúcia considera que a redução das desigualdades no país provocou
melhoras no mercado de trabalho, quando se comparam os números coletados
ao longo da última década. Houve queda na diferença entre os
rendimentos, os negros se posicionaram em postos de melhor qualidade,
como é o caso da indústria e do setor público, e a diferença de taxas de
desemprego diminuiu.
Esse resultado está relacionado às políticas afirmativas que foram
implementadas, como as cotas raciais em universidades públicas e a
reserva de 20% das vagas nos concursos públicos que visam ao provimento
de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da Administração
Pública federal, conforme o estudo. Para que esse processo continue, na
opinião de Lúcia, o país precisa ter decisão política de acabar com o
racismo.
Os jovens são os que mais sofrem com a situação, de acordo com o
coordenador do Fórum Nacional da Juventude Negra, Elder Costa. “Além de
você enfrentar um problema histórico, que é o racismo contra os negros,
você tem o problema da exclusão em um país que não se preparou para
receber esse contingente de jovens, um país que não se preparou para
construir oportunidades para a sua juventude”. Por isso, o Movimento
Negro tem demandado ações específicas de acesso ao trabalho e à educação
para a juventude negra.
Presidenta do Conselho Nacional de Juventude e integrante da
Secretaria Nacional de Juventude da Presidência da República, Ângela
Guimarães concorda que a situação está relacionada ao racismo que, se é
velado em diversas esferas da sociedade, “no mundo do trabalho é
completamente aberto. “Quem fica na frente do balcão, não pode ser
negro. Já no telemarketing, onde a face da pessoa não aparece, você tem
empregado jovens negros aos montes”, diz.
Ela defende que, além das cotas, políticas públicas como o Projovem
Trabalhador e o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego
(Pronatec), têm buscado mudar a situação e diminuir as desigualdades.
O coordenador do Plano Juventude Viva pela Secretaria de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Felipe Freitas, também comemora
as melhorias ocorridas nos últimos anos, mas destaca que os jovens
negros ainda são os que mais sofrem com o desemprego, a qualidade do
trabalho e as baixas remunerações.
Ele lembra que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad)
2012 mostrou que enquanto 2,6 milhões de jovens brancos estavam
desempregados, eram 4 milhões de negros nessa situação. Em relação à
remuneração, 15% dos brancos recebiam menos de um salário mínimo,
percentual que chegava a 27,8% no caso dos negros.
Para Freitas, a ampliação da escolarização e a adoção das cotas nos
concursos públicos, que pode induzir o setor privado a adotar política
semelhante, são as duas medidas mais importantes “na correção das
desigualdades”.
“Você colocou, por meio das cotas, no horizonte da juventude negra,
algo que estava totalmente distante, que era a inserção no ensino
superior”, comenta Elder Costa. Mas às conquistas elencadas, ele
acrescenta outros desafios, como garantir a permanência nas
universidades e incluir conteúdos relacionados à população negra. Além
disso, aponta a importância da adoção de políticas afirmativas também na
pós-graduação, “que ainda é muito racista no Brasil”.
Sem equipamentos como praças, salas de cinema e bibliotecas, jovens
questionam a ausência de maior participação política; esta foi a opção
do Artsam (Arte Solidária, Autônoma e Militância); o grupo reúne jovens
que, por meio de diversas expressões culturais, como a música e o
teatro, procuram dialogar com a comunidade
20 de Novembro de 2014 às 06:52
Helena Martins – Repórter da Agência Brasil
Em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal (DF), a
existência de poucos espaços públicos e áreas de lazer levou a própria
comunidade a se organizar para construir uma praça. Mas a presença dos
jovens incomodou. Para evitá-la, moradores retiraram os bancos e as
mesas que eram usados nos encontros. O exemplo retrata uma lógica
recorrente: o reconhecimento dos jovens, sobretudo, negros, como
sujeitos perigosos e que devem ser mantidos à margem.
Sem equipamentos como praças, salas de cinema e bibliotecas, resta a
esses jovens ocupar lugares sem infraestrutura, por vezes inseguros, ou
ainda construir os próprios espaços de convivência. Esta foi a opção do
Artsam (Arte Solidária, Autônoma e Militância). O grupo reúne jovens
que, por meio de diversas expressões culturais, como a música e o
teatro, procuram dialogar com a comunidade.
“Foi um despertar coletivo para a necessidade de ter uma organização que dialogasse com a juventude e com o movimento Hip Hop Samambaia”,
conta Marcus Dantas, o Markão Aborígine, 29 anos. Ele relata que os
integrantes decidiram “se organizar e passar a reivindicar direitos que
são historicamente violados”.
“Não dava para a gente ficar reclamando uma política pública de
cultura. Decidimos colocar o cinema na rua. Então, a gente faz um
cineclube, vai para as praças e para as garagens das casas fazer
debates”, explica.
Além dos cineclubes, os integrantes do Artsam, moradores de
Samambaia, do Recanto das Emas e de outras regiões administrativas do
DF, desenvolvem uma série de atividades, como saraus, ensaios abertos e
escolas de formação. O coletivo também participa de ações com outros
movimentos sociais, como o plebiscito popular pela reforma política e a
luta contra as opressões.
A organização da juventude negra e moradora da periferia é um dos
pontos destacados pelos integrantes do grupo, que reclamam da falta de
representação política dessa população e de, muitas vezes, serem os
brancos a terem a voz valorizada, mesmo quando falam sobre a questão
racial.
“Em qualquer lugar que a gente vá, principalmente institucional, a
gente não tem uma maioria de negros e negras atuando. A gente ainda tem a
elite branca, classista e racista aparecendo como salvadora da pátria
de um negro, querendo defender pautas de moleques que apanham da polícia
quase todos os dias, na periferia”, avalia Henrique QI, 22 anos, rapper e educador social.
A opinião é compartilhada por Markão. Embora comemore conquistas,
como a ampliação do acesso à universidade e ao mundo do trabalho, ele
aponta que a desigualdade permanece, o que gera uma grande demanda por
participação em diversas esferas da sociedade.
“Há uma demanda de participação no mundo do trabalho, no cinema, em
uma festa. Uma demanda de se colocar, de espaço de fala. E como isso foi
historicamente arrancado da gente, muitas vezes eles vão participar de
outras maneiras para serem vistos e vistas, daí a gente pode pensar nos
submundos que existem”, destaca Markão.
Um desses espaços é o mercado ilegal do varejo de drogas. Henrique
conta que chegam à periferia não apenas drogas, mas também armas, que
acabam sendo usadas para matar esses jovens. Por isso, ele aponta a
importância de debates sobre a legalização das drogas e a proposta de
mudança na idade penal, por exemplo, para envolver esses jovens. “A
gente tem noção do perfil que está sendo eliminado [jovens negros], mas
não proporciona [a eles] espaço de fala”, destaca.
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