‘El País’: É possível morrer de muitas formas Na América Latina, a democracia está na unidade de terapia intensiva e não são permitidas visitas

  • ‘El País’: É possível morrer de muitas formas

    Na América Latina, democracia está na UTI

    ‘El País’: É possível morrer de muitas formas

    Na América Latina, a democracia está na unidade de terapia intensiva e não são permitidas visitas

    O jornal espanhol El País publicou nesta sexta-feira (14/11) um artigo de Karla Morales R. onde analisa as dificuldade de manter a democracia nos países da América Latina. "A gravidade das situações que nos afetam não reside exclusivamente na situação como tal, ou em quem a gera, mas também naqueles que a permitem, ignoram e toleram, sendo cúmplices: “o mal triunfa quando os bons não fazem nada”, é a máxima atribuída a Edmund Burke e a tantos outros", escreve Morales, que é advogada especializada em Direitos Humanos.
    "Ibérico Saint-Jean, governador de Buenos Aires durante a ditadura de Videla, sabia muito bem disso. Por isso o praticava: “Primeiro mataremos todos os subversivos, logo depois mataremos seus colaboradores, depois seus simpatizantes, em seguida aqueles que permanecem indiferentes e, finalmente, mataremos os tímidos”. O fim era desaparecer com todos. E uma pessoa pode morrer de muitas formas", lembra ela.
    É possível tirar a vida de uma pessoa e mesmo que isso pareça terrível, pode acabar sendo suportável. Silencia-se uma voz, uma ideia ou uma caneta mas não necessariamente se elimina um legado. O que realmente mata é ter vida com a certeza de não ser. Uma voz calada, uma imagem assassinada, uma pena sequestrada ou uma ideia assalariada são mortes mais catastróficas. São métodos invisíveis de tortura que vão aos poucos operando de forma sistemática por toda a América Latina. Isso confirma que nossa democracia está na unidade de terapia intensiva e não são permitidas visitas.
    Nossos líderes parecem ter esquecido um princípio básico da vida em democracia: a necessidade de dialogar, especialmente com aqueles que pensam diferente. Estamos vivendo tempos em que a primeira opção para rebater o diferente é apagar vozes em vez de agregar novas. Tempos em que exercer a cidadania virou palavra bélica e diante da guerra, disparos. E para disparar e torturar, é preciso remover espaços, fechar portas, assassinar nomes. Destruir.
    Uma pessoa pode morrer de muitas formas e na América Latina a comunidade internacional está lavando essas mortes. Os chefes de estado assumem posturas de cumplicidade, disfarçada de “respeito à soberania” e “integracionismo” o silêncio que mantém diante dos abusos e prepotência de seus vizinhos. Gritam em coro que a região não é mais o quintal dos fundos dos yankees enquanto seu comportamento evidencia que no hemisfério sul o que temos são czares, na realidade. E não é que os gringos sejam a melhor opção, é que o sujo não pode falar do mal lavado.
    O messianismo político do século XXI está avançando em suas pretensões através do turismo legislativo. Como se não bastasse o uso e abuso dos meios para posicionar-se, deixam vulneráveis a independência das câmaras, assembleias ou congressos como mecanismo para legitimar suas intenções de perpetuar-se no poder. Não querem entender que até o melhor dos governos precisa ser mudado, porque a opção da mudança é o oxigênio para a democracia.
    É certo que estes governos latinoamericanos — que definem a si mesmos como revolucionários —  implementaram políticas públicas populares e algumas delas foram acertadas e oportunas. Mas também é certo que não são atos misericordiosos nem favores cidadãos. São ações obrigatórias de conformidade ao estipulado nas leis vigentes de cada nação. Por isso, o que outros governos têm ignorado das normas e princípios elementares do serviço público não faz do governo que está no poder uma divindade política. Não há maior violência do que a exercida pelas autoridades às custas da ignorância das populações.
    "O caminho que leva à instauração de um regime autoritário e repressivo costuma ser muito parecido aos territórios onde há minas terrestres. O espaço se pinta livre, dependendo de como e onde você pisa, pode lhe causar a morte. Esse é o risco que você corre quando decide questionar e se opor a decisões políticas em países onde seu primeiro mandatário não aceita posturas diferentes à dele mesmo. A morte se torna irrelevante quando você perdeu seu nome de forma continua em propagandas estatais.
    A pátria grande não se gere a partir da fabricação de terroristas e a violação de garantias numa suposta busca de respeito ao estado de direito e ordem social. Não se preserva a democracia guardando luto eterno por um comandante", conclui o artigo.
    Tags: AMÉRICA LATINA, democracia, Direitos Humanos, ditaduras, el pais
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