PROCESSO de paz » Sequestro das FARC aumenta a polarização entre os colombianos ANÁLISE A paz das FARC

Sequestro das FARC aumenta a polarização entre os colombianos

A negociação de paz que reúne a guerrilha e o Governo da Colômbia em Cuba acontece sem um cessar-fogo e gera forte divisão entre os colombianos. O ex-presidente Uribe atiça a fogueira dos medos
  • Presidente da Colômbia suspende diálogo com as FARC

    Sequestro aumenta a polarização

    A negociação em marcha sem cessar-fogo provoca forte divisão entre os colombianos


    Membros das FARC, a principal guerrilha colombiana. / luis ramírez (ap)
    O diálogo de paz entre as FARC e o Governo colombiano tem sido, desde o começo, material inflamável que suscita uma enorme divisão no país. O sequestro do general Rubén Darío Alzate e seus acompanhantes ocorre quando a agenda da negociação em Havana enfrentava os temas mais complicados e que mais irritação causam nas ruas. Um exemplo é a justiça para as vítimas – e, portanto, se os guerrilheiros acusados de delitos graves irão para a prisão – ou como será o desarmamento e a reintegração na vida civil dos rebeldes desmobilizados. O sequestro ocorre quando os militares estão inquietos por seu futuro como instituição depois de uma guerra que durou cinco décadas. Tudo isso em um momento no qual o presidente anterior, Álvaro Uribe, atiça a fogueira dos medos e das dúvidas legítimas de muitos cidadãos sobre o processo.
    Horas depois do sequestro, o agora senador Uribe, líder da oposição, pelo Partido de Centro Democrático, declarou em um comunicado que “os membros das Forças Armadas não deveriam continuar sendo igualados ao terrorismo”. Ele o publicou em sua conta no Twitter, uma poderosa plataforma com 3,3 milhões de seguidores, na qual lança dardos todos os dias, implacável, contra o presidente Juan Manuel Santos – a quem acusa de ter vendido o país ao castrochavismo –, e ao processo de paz. Nesta segunda-feira, por exemplo, disse em um tuíte: “Santos permitiu que as FARC se sintam em igualdade com as Forças Armadas, por isso os terroristas sequestram e dizem que é detenção”. Em outro ele afirmava que houve “639 soldados e policiais assassinados por terroristas das FARC durante o diálogo com Santos”.
    Há muitos ouvidos para essas mensagens e o sequestro do general Alzate dá oxigênio aos que acreditam que não há nada a negociar com a guerrilha. Uma pesquisa de outubro do instituto Cifras e Conceitos mostra que somente 39% dos cidadãos acreditam que as negociações serão concluídas com sucesso, e que a grande maioria rejeita que os guerrilheiros possam não ir para a prisão (85%). O grande descrédito das FARC e o ódio que seus crimes causam, em particular o sequestro – que se comprometeram a não praticar –, contribuem para a polarização. A lembrança dos sequestrados durante anos na selva, em penosas condições, está muito presente em um país onde seis milhões de pessoas foram deslocadas e 220 mil acabaram mortas pelo conflito.
    O sequestro de um general impacta em cheio no Exército, uma instituição inquieta quanto à missão que terá se o processo de paz for levado adiante e quanto as penas que terão de cumprir seus membros acusados de delitos cometidos em decorrência do conflito. Santos lhes garantiu que gozarão de benefícios penais se a paz for assinada, ao mesmo tempo que se debate no Senado se os casos de execuções extrajudiciais, os chamados falsos positivos – civis assassinados e apresentados como guerrilheiros caídos em combate –, serão transferidos à justiça militar. Há mais de 4.000 militares investigados por esse motivo e organizações de Direitos Humanos, como a Human Rights Watch, temem que se forem julgados pelos tribunais militares estará sendo aberta uma via de impunidade.
    No processo de paz, se negocia sem que haja um cessar-fogo. Essa condição o Governo estabeleceu para evitar que as FARC usem o diálogo para se rearmarem, como fizeram na frustrada tentativa anterior de diálogo, as conversações de El Caguán (1999-2002). “É difícil explicar às pessoas que estão negociando a paz em Havana e matando aqui na Colômbia”, reconhecia o presidente Santos em uma entrevista ao EL PAÍS em junho, depois de reeleito. Agora essa pressão aumentou, e o primeiro a fazer isso foi Uribe, que disse nesta segunda-feira: “A comunidade internacional, que tanto apoiou os diálogos com as FARC, deveria exigir desse grupo terrorista a cessação unilateral de atividades criminais”. Apesar da divisão que essas questões desencadeiam, houve avanços em três dos seis pontos da negociação. Se for retomada, fica agora o mais complicado. E com a fogueira em plena combustão.

A paz das FARC

O sequestro do general pode ter acontecido porque a guerrilha não quer paz. Ou os chefes de Havana não controlam as FARC
ANÁLISE

A paz das FARC

O sequestro do general pode ter acontecido porque os insurgentes não querem realmente a paz, ou porque os dirigentes de Havana não controlam as FARC


O presidente colombiano Juan Manuel Santos foi obrigado a suspender as negociações de paz em Havana por causa do sequestro de um general que estava inspecionando o que não devia na inóspita e subdesenvolvida província de Chocó. Com essa maravilhosa facilidade com que na Colômbia se escurece e se brinca com o sentido das palavras, fontes oficiais afirmam que não houve esta suspensão, mas apenas uma pausa, os negociadores do Governo atrasam seu retorno à mesa em Cuba enquanto se esclarece o ocorrido. Mas há algo que precisa ser esclarecido.
Santos sabe perfeitamente que as FARC estavam em seu direito de sequestrar na região, já que não há nenhuma trégua e a todo momento isso ficou evidente em Bogotá e onde existe guerrilha, pois as hostilidades continuavam, e que até que tudo estivesse assinado nada estaria decidido. Mas não é menos verdade que o sequestro serve apenas para aumentar o poder do uribismo, o sentimento incitado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, ferozmente contrário à paz pela via de Havana. As FARC enlouqueceram? Percebem que acontecimentos como o atual só favorecem seu máximo inimigo, o formidável e anterior mandatário?
Por isso, podemos elencar uma série de hipóteses, todas verossímeis – ou seja, todas podem ser verdade ao mesmo tempo. A primeira é que não há uma verdadeira vontade de obter a paz entre os insurgentes, que negociam porque isso lhes dá, ou é o que acreditam, um pouco de legitimidade na comunidade internacional; ou, o que é quase o mesmo, que somente querem uma paz à sua paz e semelhança, por isso totalmente inviável, que passaria por uma negociação especialmente prolongada para provar à opinião que a Colômbia é o único importante. A segunda seria que as FARC têm, na prática, uma indisciplinada autonomia, incontrolável de Havana, e que os primeiros e desagradavelmente surpresos pelo sequestro foram os líderes guerrilheiros na capital cubana. A presidência disse várias vezes que as FARC estão organizadas com algum tipo de centralismo democrático e, se fosse assim, os mesmos cimentos da negociação sofreriam hoje um forte abalo, porque o estado maior guerrilheiro não dominaria a situação. E, por último, uma combinação de todo o anterior: alguns chefes são partidários de uma paz mais ou menos, enquanto que outros não a querem e todos os matizes do erro se reproduzem na prática. O que parece seguro é que a insurgência, apesar do tempo que está negociando – justo amanhã se cumprem dois anos –, continua tendo pouco conhecimento de como é o mundo, e ainda pior, a Colômbia.
O presidente disse que 2015 seria o ano da paz, assim como em uma reunião em Madri em 2013 confiava que a assinatura aconteceria este ano. E, claramente, a paciência da opinião nacional não é inesgotável. Pensar em negociações continuando até depois, digamos, da próxima Semana Santa, seria brincar perigosamente com o fogo, e não precisamente um “cessar-fogo”. E as FARC dão a sensação, bastante forte, de que não sabem ou não querem saber isso. O fim das negociações sem um acordo não apenas arruinaria a presidência de Santos, mas constituiria a maior decepção para o país. Por isso, o presidente não apenas deve esclarecer o que aconteceu com o general, mas o que a guerrilha está pensando. Uribe Vélez, sem pressa, aguarda.
copiado  http://brasil.elpais.com/brasil/2

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