
Secretário-geral da Unasul diminui tensão com Brasil após encontro com Serra

"Ontem tive a oportunidade de dialogar (...) com o chanceler Serra aqui mesmo em Paris. Foi um diálogo muito cordial e muito sincero sobre os pontos de vista de um lado e do outro", disse o ex-presidente colombiano (1994-1998) em uma entrevista à AFP.
O Senado brasileiro abriu no dia 12 de maio um julgamento de impeachment contra Dilma por suposta manipulação das contas públicas. A presidente foi afastada de seu cargo e substituída pelo vice-presidente Michel Temer, à espera de que o Senado determine em até 180 dias se é culpada das acusações formuladas contra ela.
O ministério brasileiro das Relações Exteriores respondeu com uma dura nota, na qual afirmava que os argumentos de Samper, "além de errôneos, deixam transparecer juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro e seus poderes constituídos".
Na entrevista desta terça-feira, Samper disse que suas reservas não impediam o trabalho conjunto com o governo interino de Temer.
"Esperamos que respeitem este direito de defesa (de Dilma) e, evidentemente, enquanto isso seguimos trabalhando com o governo interino", declarou.
"Mantemos em vigor nossa preocupação, que não tem outro objetivo que não seja garantir que o desenvolvimento e o desenlace deste episódio seja um desenlace democrático e ajustado ao Estado de direito brasileiro", disse Samper.
"Expressamos isso ao chanceler Serra e ele compartilha a necessidade de que este julgamento contra a presidente seja realizado dentro do rígido respeito à institucionalidade brasileira", concluiu.
Reunião sobre a Venezuela
Samper também revelou que na próxima semana realizará uma nova reunião de mediação entre o governo e a oposição da Venezuela.
"Na próxima semana está previsto um segundo encontro" sobre a Venezuela, anunciou Samper, que participa da Semana da América Latina e Caribe organizada pela França.
"A primeira reunião foi de diálogos alternativos entre os três mediadores com o governo e a oposição. Esperamos que já na próxima semana possa haver uma reunião entre eles", acrescentou.
O secretário-geral da Unasul indicou que o papa Francisco, com quem na semana passada teve uma audiência no Vaticano, "se colocou a disposição para ajudar no que fosse necessário" para superar a grave crise na Venezuela.
Em paralelo, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, convocou nesta terça uma "reunião urgente" do Conselho Permanente da organização para discutir a situação na Venezuela, invocando a Carta Democrática Interamericana.
A oposição tramita a realização de um referendo revogatório do presidente Nicolás Maduro, mas o governo considera o processo inviável.
O país enfrenta uma grave escassez de alimentos e medicamentos, com uma inflação considerada a mais alta do mundo (180,9% em 2015 e projetada pelo FMI em 700% para 2016) e altos níveis de insegurança.
Trump 'Godzilla'
Na entrevista à AFP, Samper também equiparou a eventual eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos com "a chegada de Godzilla à política mundial".
E indicou que na Unasul, a organização que reúne os doze países da América do Sul, já existe uma reflexão sobre a eventualidade de que Trump, que só espera sua indicação formal como candidato republicano para as eleições de novembro, vença a provável candidata democrata Hillary Clinton.

Trump varreu todos os seus adversários nas primárias republicanas, em uma campanha na qual não hesitou em insultar as mulheres, os mexicanos e os muçulmanos. Entre suas promessas figuram a construção de um muro na fronteira mexicana, fazendo o México pagar por ele, e expulsar dos Estados Unidos 11 milhões de imigrantes ilegais, em sua maioria de origem latino-americana.
"Acredito que (Trump) representa o que existe de mais mesquinho na política americana", disse Samper, também comparando o magnata ao best-seller dos anos 1950 (adaptado ao cinema) "Quando Irmãos se Defrontam", que satiriza a arrogância e a incompetência de um diplomata americano em uma intervenção militar no sudeste asiático.
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