Quantos anos para ultrapassar a herança maldita de 64?
No auge da ditadura a democracia era uma coisa sonhada e redentora – e não um combate diuturno em defesa do coletivo.
A democracia é um regime flexível, um processo de aprendizagem de todos – que anda de mãos dadas com a educação, portanto, lento entre nós.
Só agora, depois de 30 anos, temos um certo filtro ético que é a Ficha Limpa (proposta pelos cidadãos e não pelos políticos!!!) e alguns indicadores de governança (por exemplo saúde, educação, IDH). Como comparar performances de governo sem índices confiáveis (mesmo que redutores)?
A opinião pública, muito antes disso, com a delicadeza de um elefante, produziu uma síntese curiosa em torno de dois verbos: roubar e fazer.
A expressão fere o ouvido: 'rouba mas faz' – foi cunhada para políticos que conseguem convencer os eleitores de que realizam ações importantes apesar da pouca lisura dos seus atos. Continua atual.
Bem sabemos que a aceleração do capitalismo transformou a 'eficácia' num dos valores centrais da vida. Ela mede o controle instrumental sobre coisas e estados de coisas, e se envolve em cada intervenção na sociedade.
Não espanta que os eleitores coloquem o fazer no alto das prioridades, mas dói até o nervo a perversão que o 'rouba mas faz' abriga.
Uma perversão da própria ideia de eficácia, pois o fazer torto nem é fazer – é algo que desfaz a democracia. Fazer roubando é falsificar o maior bem da sociedade – seu padrão ético (aliás, continuamente ameaçado pela exigência imperiosa de lucro).
E quanto maior repercussão tiver, maior será o estrago produzido, na medida em que educação e deseducação dependem de exemplos. Abre o caminho para inúmeros imitadores.
A expressão 'rouba mas faz' não nasceu sozinha – surgiu ladeada por outra não menos significativa: 'não rouba, mas também não faz'.
Nesse caso, o crime é de eficácia. Colocar-se à frente da sociedade e não responder às suas demandas é gravíssimo. E além disso, abre espaço para o pensamento destrutivo do 'rouba mas faz' – como se não houvesse alternativa.
Temos que desenvolver algo parecido com a Ficha Limpa, só que versando sobre a capacidade dos candidatos… Mas, o que seria?
Na verdade, roubar e fazer podem ser modalizados em quatro instâncias:
a) rouba mas faz
b) não rouba mas também não faz
c) rouba e não faz
d) não rouba e faz

Esse quadrado semântico e suas variantes sutis definem boa parte do nosso imaginário político. 
A letra 'c' é da ordem do execrável – exemplos não faltam. A letra 'b' é da ordem da tragédia, como penalizar os incompetentes?
Já a última alternativa é o sonho dourado de imagem do mundo político. Aquele que conseguir incorporar essa imagem terá a confiança de milhões de eleitores. Especialmente os jovens, acreditam que é possível e lutam por uma abertura nessa direção.
Mas não é nada fácil, pois o nosso sistema político exige alianças majoritárias com muitos partidos, os nossos processos de transformação tem sido lentos e nada radicais – na verdade, pílulas de correção da desigualdade sem afetar a capacidade de enriquecimento das elites… (talvez esticando a classe média que agora reage).
E isso sem falar nas muitas zonas cinzentas e até promíscuas entre candidatos e empreiteiros.
Como tramar o bem coletivo num ambiente assim incerto, onde o eleitor muitas vezes tende a pensar que ética é um luxo, pois as urgências de sua vida exigem escolher alguém que acene com uma proposta palpável, mesmo que 'cinzenta por dentro'? Eis a questão, ou pelo menos uma delas…

(a ser continuado)


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