Esculturas de Ron Mueck em SP
9 trabalhos do artista hiper-realista estarão expostos na Pinacoteca
9 trabalhos do artista hiper-realista estarão expostos na Pinacoteca
Exposição com esculturas de Ron Mueck chega a São Paulo
Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo
19 Novembro 2014 | 03h 00
Nove trabalhos do artista hiper-realista estarão expostos na Pinacoteca a partir de quinta-feira, 20
O curador-chefe da Christchurch Art Gallery da Nova Zelândia, Justin Paton, estudioso da obra de Mueck, prefere agrupar o artista na tradição dos escultores hiper-realistas do barroco espanhol, descartando sua filiação ao barroco italiano (Bernini) ou ao realismo francês (Rodin). Paton tem razão: o australiano não cria suas figuras a partir da extração – do mármore, no caso dos dois artistas mencionados. Como um demiurgo alucinado, ele constrói meticulosamente seus homens e mulheres gigantescos em resina, fibra de vidro, silicone e acrílico, como o casal de velhos banhistas que vai ocupar o octógono e tem 3 metros de altura, 20 centímetros a mais que o monumental Balzac de Rodin e um metro a menos que o David de Michelangelo.
Apesar disso, a curadora associada da mostra, Grazia Quaroni, que ajudou a selecionar as obras, não considera lícita uma associação entre Mueck e Hanson. Defende que Mueck não leva em conta o contexto social em que a figura ou as duplas de figuras se inserem. Hanson, de fato, deixava explícito esse contexto, como lembra o crítico Justin Paton, ao citar uma das obras icônicas do norte-americano, Race Riot (1969/71), que mostra um policial branco batendo num negro. Paton nota que, ao contrário, os personagens da escultura Jovem Casal (Young Couple, 2013), de Mueck, estão fora do contexto, desorientando o espectador sobre as reais intenções de seu autor. O que perturba nesses jovens retratados pelo australiano, argumenta Paton, é “a mistura de carinho e o desapego” entre eles.
Essa é a menor das obras com duas pessoas que Mueck exibe em São Paulo. Outras esculturas de pequenas dimensões mostram uma grávida com possível depressão pós-parto e seu bebê no colo, além do citado garoto negro esfaqueado. São tipos urbanos, desses com os quais se cruza diariamente nas metrópoles, mas há na exposição figuras campesinas que rementem às fábulas ambientadas no meio rural, como Mulher com Galhos (Woman with Sticks, 2009), roliça matrona que carrega um feixe e parece uma bruxa saída de um perverso conto de fadas dos irmãos Grimm.
Esses tipos bizarros não são recentes na obra de Mueck. Eles já aparecem no início de sua carreira. Australiano de Melbourne, nascido há 56 anos, o artista começou fazendo marionetes e depois, ao se fixar em Londres, passou a trabalhar para a televisão e o cinema (os monstros do filme Labirinto, de Jim Henson, são dele). Seu début está associado à pintora portuguesa Paula Rego, sua sogra, para a qual montou uma exposição na galeria Hayward, onde foi apresentado por ela ao megaempresário Charles Saatchi. O colecionador escolheu uma escultura de Mueck que retrata seu pai morto para exibir na polêmica mostra Sensation, montada na Royal Academy, em 1997, que revelou outros artistas da cena britânica, entre eles Damien Hirst.
O que une Mueck e Hirst, além do laço geracional, é a imobilidade como característica dominante. Hirst conserva tubarões em formol. Mueck congela pessoas em situações desconfortáveis, tentando fixar a realidade em bonecos colossais. Ele desfaz, por exemplo, o glamour da maternidade quando mostra a jovem mãe desprotegida com o filho colado ao corpo, levando nas mãos alimentos comprados no supermercado. Mesmo seu autorretrato (Máscara II, de 2002) revela uma despudorada leitura da tradição moderna, ao reciclar o busto dourado de Brancusi (La Muse, 1912) num registro realista – a posição da cabeça de Mueck é idêntica à do escultor romeno, mas a de Brancusi constitui uma celebração vital, enquanto a de Mueck parece a de um morto. Diferença básica com vantagem para o romeno.
RON MUECK
Pinacoteca. Praça da Luz, 2, 3324-1000. De 3ª a dom., 10 h/ 17h30; 5ª, 10 h/ 22 h. R$ 6 (5ª, 17 h/ 22 h e sáb. grátis). Até 22/2.
COPIADO http://economia.estadao.com.br
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