Conspiração em marcha
A reportagem do "Estadão" deve servir de alerta ao Palácio do Planalto para o panorama que se desenha no país. Afinal, cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém
Foi preciso que o jornal "O Estado de São Paulo", na última quinta-feira, denunciasse o comportamento político dos delegados federais responsáveis pela operação, xingando a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula e fazendo a propaganda de Aécio Neves nas redes sociais, para que o ministro determinasse uma investigação à Corregedoria Geral da Policia Federal. "Não podemos admitir a partidarização de nenhuma investigação", ele disse, acrescentando: "A manifestação é livre, mas um delegado não pode conduzir uma investigação parcialmente, pelas suas convicções íntimas, nem divulgar informações sigilosas".
Essa providência, na verdade, deveria ter sido tomada desde o primeiro vazamento, que, sob os olhares atônitos dos brasileiros, virou rotina durante a campanha eleitoral, abastecendo de pólvora a mídia oposicionista para continuar atirando contra a candidatura da presidenta Dilma. Surpreendentemente, o governo assistiu apático a essa prática visivelmente destinada a influenciar a decisão dos eleitores, que culminou com a escandalosa reportagem de capa da revista "Veja" às vésperas do pleito, a última cartada para impedir a reeleição de Dilma, que liderava as pesquisas de intenção de votos.
Não deixa de ser sintomático, por outro lado, a presteza com que procuradores da República divulgaram nota de "confiança e apoio" aos delegados que trabalham na Operação Lava-Jato, afirmando que "em nosso país, expressar opinião privada, mesmo que em forma de gracejos, sobre assuntos políticos é constitucionalmente permitida". Não há dúvida de que qualquer brasileiro tem todo o direito de expressar suas simpatias ou antipatias a qualquer candidato a um mandato eletivo, mas o servidor público, especialmente aquele que ocupa um cargo onde o profissionalismo e a isenção são fundamentais para o seu exercício, como magistrados e policiais federais, por exemplo, não podem manifestar publicamente suas preferências políticas, pois isso compromete a confiabilidade do seu trabalho. Sem esquecer os estatutos e regimentos que balizam seu comportamento.
Ao comentar a matéria do "Estadão", em artigo publicado no portal "Observatório da Imprensa", o jornalista e escritor Luciano Martins Costa disse que a reportagem mostra que "os delegados federais responsáveis pela Operação Lava-Jato compunham uma espécie de comitê informal do candidato Aécio Neves à Presidência da República enquanto vazavam seletivamente para a imprensa dados do inquérito". Ele acrescenta que a revelação expõe "a perigosa contaminação de toda uma superintendência regional da Polícia Federal por interesses externos ao da atividade policial, o que coloca em dúvida a qualificação de seus agentes para conduzir essa investigação, e, por consequência, de todo o noticiário que se seguiu".
Vale recordar que no seu governo o presidente Fernando Henrique Cardoso agia com rigor nessas situações, só que ao invés de mandar apurar os fatos denunciados determinava fosse o denunciante investigado. E quando as investigações se aproximavam do Palácio do Planalto trocava o diretor geral da Policia Federal. Ao contrário de FHC, a presidenta Dilma Rousseff tem assistido aos vazamentos, criadores de factóides que causam enormes prejuízos ao seu governo, sem uma reação mais vigorosa, capaz de inibir a ação deletéria dos seus adversários que, hoje, autotransformados em inimigos, estão disseminados por toda parte.
Percebe-se, sem muita dificuldade, que a conspiração vem ganhando corpo e cercando o Palácio do Planalto. E enquanto os conspiradores agem nas sombras, infiltrados até no Judiciário, os seus líderes intensificam suas ações no Congresso Nacional, onde o principal acólito do candidato derrotado Aécio Neves, o deputado Carlos Sampaio, afirmou que vão infernizar a vida da presidenta Dilma, que não terá paz durante o seu segundo mandato. "O povo quer de nós vigilância e fiscalização implacáveis sobre esse governo. Não daremos espaço", ele disse. Constata-se que está em marcha uma udenização do PSDB, com o consequente ressurgimento do lacerdismo, onde o que está em jogo não é o interesse do país, mas o poder. Pretende-se conquistar o poder a qualquer preço, mesmo com o sacrifício da própria democracia. Será que Aécio e sua turma imaginam que um golpe lhes daria, na bandeja, o poder que não conquistaram nas urnas?
As manifestações de rua que pediram a volta dos militares ao poder, como parte do processo conspiratório, ainda ecoam em ouvidos aparentemente moucos. O silencio dos quartéis pode ter várias interpretações, mas nunca é demais lembrar que os trabalhos da Comissão da Verdade provocaram irritação em altas patentes militares. O fantasma do comunismo, que hoje não assombra mais ninguém, foi substituído pelo bolivarianismo, uma tolice de quem não sabe o que Simon Bolívar representou para a América do Sul. Mas não se deve subestimar o poder das chamadas forças ocultas, internas e externas, que estão atuando intensamente com o decisivo apoio da grande mídia. A reportagem do "Estadão", portanto, deve servir de alerta ao Palácio do Planalto para o panorama que se desenha no país. Afinal, cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
copiado http://www.brasil247.com/pt/247/
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