Sucessor de Raúl Castro terá dificuldades para abrir novo capítulo com EUA Raúl Castro, o arquiteto da revolução de Fidel em Cuba

Sucessor de Raúl Castro terá dificuldades para abrir novo capítulo com EUA

AFP / YAMIL LAGEMulher passa em frente â foto do presidente cubano, Raúl Castro, em Havana em 9 de abril de 2018
A passagem de poder do presidente cubano, Raúl Castro, para um novo líder abre uma enorme interrogação sobre o eventual impacto dessa mudança nas difíceis relações bilaterais com os Estados Unidos.
Em um quadro caracterizado pelo drástico esfriamento das relações entre Washington e Havana, analistas concordam que essa situação dificilmente mudará, enquanto Donald Trump ocupar a Presidência.
Castro, de 87 anos, transmitirá o poder para um novo presidente no dia 19, depois de ter dado o passo histórico de negociar com Barack Obama uma reaproximação entre Havana e Washington após meio século de ruptura e de desconfiança.
Esse processo ficou literalmente estagnado com a chegada de Trump à Casa Branca em janeiro de 2017, e agora resta saber se a presença de um novo líder no Palácio da Revolução mudará esse cenário.
Entre as figuras que podem suceder a Castro se destaca o engenheiro eletrônico Miguel Díaz-Canel, de 57 anos e primeiro vice-presidente, mas sua ascensão à Presidência ainda não está confirmada.
No entanto, uma eventual melhora nas relações com Washington não dependerá somente da vontade, ou da autoridade política de Havana, mas obedecerá fundamentalmente à dinâmica da política interna americana.
- Não há muito por fazer -
A menos que o novo presidente cubano "chegue ao poder e mude tudo radicalmente, francamente não vejo que haverá muitas mudanças", disse à AFP Elizabeth Newhouse, diretora do programa sobre Cuba no Centro de Política Internacional (CIP).
Para a especialista, "Trump não obterá nenhum benefício político com uma mudança na relação, e seus eleitores na Flórida parecem querer que as relações continuem estagnadas, exatamente no mesmo lugar em que estamos agora".
Mavis Anderson, especialista em Cuba para o Grupo de Trabalho da América Latina (LAWG) em Washington, acredita que, independentemente de quem for designado para suceder a Raúl Castro, "a bola está no campo dos Estados Unidos. E é uma pena, porque esse campo está destruído".
Anderson disse à AFP que não acredita que Díaz-Canel, ou qualquer outro dirigente cubano, "possam mudar significativamente a relação bilateral por enquanto".
- Os "duros" no comando -
Newhouse e Anderson concordaram que o governo de Trump colocou a política externa nas mãos de representantes da "linha dura" do conservadorismo americano.
Isso inclui o secretário de Estado (ainda a ser confirmado) Mike Pompeo, e o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, que nunca se preocuparam com moderar declarações agressivas contra Cuba.
Ao mesmo tempo, o governo deixou que a política específica para Cuba seja delineada por dois legisladores ultraconservadores de origem cubano: o senador Marco Rubio e o legislador Mario Díaz Balart.
Não há nada que Díaz-Canel, ou outro dirigente, possam fazer para satisfazer Rubio e Díaz Balart, disse Anderson.
Uma mudança nas relações bilaterais "provavelmente vai exigir um novo presidente" na Casa Branca, apontou Newhouse.
- Então, o que fazer? -
Um primeiro passo evidente, apontam as analistas, seria deixar atrás o confuso episódio pelos "ataques sônicos" e voltar a tornar operante a embaixada dos Estados Unidos em Cuba, onde a equipe da missão foi reduzida à sua mínima expressão.
Newhouse apontou que o encarregado de negócios na embaixada dos Estados Unidos em Cuba, o diplomata Philip Goldberg, "tem interesse em uma melhora das relações, mas está com as mãos atadas".
Anderson afirma, por sua vez, que "o primeiro passo é eliminar imediatamente a designação dessa embaixada como destino para diplomatas sem acompanhamento familiar. É necessário repôr o pessoal dessa embaixada".
Para o advogado cubano-americano Pedro Freyre, especialista na legislação bilateral, a eliminação de barreiras ao intercâmbio comercial adotada durante o governo de Barack Obama continua vigente.
"O processo de aproximação está estagnado, mas poderá ressuscitar, se houver uma mudança na administração americana", disse Freyre.
Todos os analistas concordam que, para além do nome designado para substituir Castro e do humor das relações com os Estados Unidos, o novo presidente cubano terá prioridades internas.
Para Anderson, o novo presidente cubano certamente "se concentrará na economia, e não nas relações bilaterais, que é uma área que promete muito pouco".
Segundo Newhouse, o sucessor de Castro inicialmente "terá que consolidar sua legitimidade" à frente do governo.
Freyre disse à AFP, porém, que espera "uma reivindicação dos chamados princípios revolucionários" e a garantia da continuidade do modelo. Por isso, disse se sentir "cautelosamente otimista" sobre uma melhora das relações bilaterais.

Raúl Castro, o arquiteto da revolução de Fidel em Cuba

AFP/Arquivos / Rodrigo ARANGUARaúl Castro
Antes de ser revolucionário, Raúl Castro era um menino travesso que preocupava seus pais.
"Eu cuido dele", disse seu irmão Fidel, sem antecipar que Raúl seria o guardião de seu legado socialista.
Hoje, aos 86 anos, está se preparando para deixar o cargo em Cuba depois de promover mudanças históricas.
Um negociador habilidoso e um soldado implacável em relação aos inimigos, logo ficou bem claro seu papel. "Fidel é insubstituível, a menos que o substituamos todos juntos", disse ele depois de assumir o poder interinamente, quando o irmão adoeceu.
Atuando nas sombras, ele foi fundamental para obter o apoio da União Soviética após o triunfo da revolução em 1959, graças às amizades que fez em suas viagens na juventude. Mas já tinha outros feitos. Foi ele quem pegou a arma de um sargento para libertar seus companheiros depois do ataque fracassado no quartel de Moncada em 1953.
O mais jovem dos sete irmãos Castro, Ruz, aos 4 anos de idade, pediu à sua mãe que deixasse Birán ficar com Fidel, que frequentava a escola em Santiago de Cuba (leste).
"Ele chorou, esperneou, insistiu tanto que ela teve que deixá-lo ir", recordou o próprio líder da revolução cubana, como registrado em "Cem horas com Fidel", de Ignacio Ramonet.
Foi Fidel, 5 anos mais velho, que cultivou nele o hábito de ler e estudar.
- "Fundador de sonhos -
"Era uma associação política; Fidel não estreitou tal relação com nenhum outro irmão. Raúl tornou-se o número dois depois da morte de outros revolucionários (que o precederam)", explica o cientista político cubano Arturo López Levy.
Depois de derrubar Fulgencio Batista, enquanto Fidel estava encarregado das funções do governo, Raúl estruturou os dois pilares institucionais da revolução: o Partido Comunista e as Forças Armadas Revolucionárias (FAR), necessários para seus planos.
Ministro histórico da Defesa, Raúl comandou as FAR por 50 anos e as transformou um exército de rebeldes idealistas em um eficiente aparato militar que atingiu 300.000 soldados. Eles têm sido o pilar da economia, controlando as atividades produtivas.
"O relacionamento era de chefe e lugar-tenente. Raúl Castro se torna o fundador dos sonhos de Fidel, e Raúl foi o arquiteto institucional da revolução", explica López-Levy, coautor do livro "Raúl Castro and the New Cuba: A Close-Up View of Change".
- Mudar o que tem de mudar -
Seu carismático irmão Fidel liderou um país que enfrentou uma grave crise econômica após a desintegração da União Soviética. Tudo isso em meio a um forte embargo americano.
Menos expressivo, Raúl assumiu a presidência em 2008 e começou a modificar lentamente o modelo cubano. Abriu o país para investimentos estrangeiros, para empresas privadas e para a compra e venda de imóveis. Também permitiu as viagens de cubanos ao exterior.
"Comparado com o carisma de Fidel, o carisma de Raúl equivale a uma garrafa de água mineral sem gás. Isso o obrigou a fazer reformas porque o sistema não era sustentável sem Fidel e sem mudanças", acrescenta López-Levy.
No final de 2014, ele abalou o mundo ao anunciar a restauração das relações diplomáticas com Washington, rompidas por mais de meio século.
Foi anfitrião dos papas Bento XVI e Francisco, depois que Fidel recebeu João Paulo II em uma visita histórica em 1998.
Em 2016, Raúl recebeu Barack Obama e ajudou a assinar a paz com as FARC da Colômbia.
Depois, anunciaria a morte de Fidel na TV.
Em 2017, ratificou um plano para continuar atualizando o modelo econômico e "mudar tudo o que precisa ser mudado", lema que o próprio Fidel, definiu como conceito de "revolução".
Com a chegada de Donald Trump e a restituição da difícil relação com os Estados Unidos, Raúl se entrincheirou no Partido Comunista, que para ele é o apoio de suas batalhas.
- Divertido e implacável -
Raúl, um homem de família, foi casado por 48 anos com Vilma Espín, sua companheira de armas que morreu em 2007. Ele tem três filhas, incluindo a deputada Mariela Castro, e um homem, o influente coronel Alejandro Castro, nove netos e uma bisneta.
Pode alternar o uniforme, o terno e a tradicional camisa guayabera e desfrutar da lealdade absoluta do corpo militar e dos antigos revolucionários.
O ex-agente Nicolai Leonov, seu amigo e contato na Rússia, lembra-se dele como um amante de caminhadas e um homem brincalhão.
Mas também são atribuídas a ele as ordens de execução dos Batista. "Não podia comparecer ante o inimigo como um homem com uma alma caridosa", disse Raúl em entrevista ao jornal mexicano Sol, em 1993.
Ele esteva por trás do julgamento de 1989 que levou Arnaldo Ochoa, junto com outros três policiais, ao paredão de fuzilamento por tráfico de drogas.
Embora tenha libertado dezenas de opositores através da mediação da Igreja Católica, sob seu mandato foram realizados prisões temporárias e o julgamento de dissidentes por crimes comuns.
Precavido, mandou criar o local onde será enterrado: um nicho de pedra próximo a Santiago de Cuba, ao lado dos restos mortais de sua esposa.
copiado https://www.afp.com/pt/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

Ao Planalto, deputados criticam proposta de Guedes e veem drible no teto com mudança no Fundeb Governo quer que parte do aumento na participação da União no Fundeb seja destinada à transferência direta de renda para famílias pobres

Para ajudar a educação, Políticos e quem recebe salários altos irão doar 30% do soldo que recebem mensalmente, até o Governo Federal ter f...