Nos últimos meses, o
aprofundamento da crise política brasileira expôs aos quatro cantos do
país a mediocridade de boa parte da classe política brasileira. Desde o
desfile de discursos rasos, no dia da votação do impeachment na Câmara, à
infinidade de denúncias, que não pararam de vir à tona, o que se vê é
uma quantidade assustadora de parlamentares que, em circunstâncias
normais, jamais poderiam estar representando o povo no Congresso. Diante
deste quadro, o que esperar do futuro político do país?Apenas
para citar os exemplos mais recentes, na terça-feira (3), a Câmara dos
Deputados escolheu os presidentes das 25 comissões permanentes da Casa,
entre eles deputados que são investigados na Operação Lava Jato, como
Lázaro Botelho (PP-TO), designado para a Comissão de Agricultura.
Situação
semelhante também ocorre na Comissão de Minas e Energia, em que o
titular, o deputado Paulo Feijó (PR-RJ) esteve envolvido no episódio
conhecido como 'Máfia dos Sanguessugas'.
Principais opositores ao
governo, Aécio Neves (PSDB-MG) e Eduardo Cunha (PMDB-RJ) também
enfrentam denúncias de participação em diversos esquemas. O senador
mineiro, inclusive, é alvo da Procuradoria Geral da República por ter,
supostamente, participado de irregularidades na Furnas, empresa
subsidiária da estatal Eletrobras.
Já o peemedebista é um dos
principais investigados na Operação Lava Jato, que apura esquemas de
corrupção que envolveriam diversos partidos políticos, a elite
empresarial e diretores da Petrobras. Cunha é acusado de receber propina
de US$ 5 milhões para viabilizar, sem licitação, a construção de dois
navios-sonda da estatal.
Diante deste cenário, especialistas
alertam que mais do que nunca se faz necessária uma reforma
política. "Há a necessidade de uma imperiosa reforma
partidária-eleitoral", avaliou o professor Alvaro Bianchi, do
departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Contudo, para ele essas mudanças, que precisariam passar por
votação no Congresso Nacional, são difíceis de ocorrer pela composição
das casas legislativas: "A reforma necessária não contaria com o apoio
daqueles que deveriam aprová-la". Parlamentares: cerca de 60% possuem pendências na JustiçaBianchi
ressalta que mudanças mais urgentes que poderiam influenciar a
composição e o andamento do jogo político seriam a limitação radical do
financiamento de campanhas e o fim da votação por lista, mecanismos que
poderiam aumentar o controle popular dos parlamentares eleitos.
O
cientista político Frederico Almeida, também da Unicamp, vai ao encontro
do colega de departamento. Para ele, o fim da corrupção está ligado a
causas estruturais. "Há uma ilusão de que o impeachment da presidente
Dilma pode acabar com a corrupção, há um entusiasmo em relação à
Operação Lava Jato, mas a gente não vê avanço nas discussões mais
estruturais", salientou Almeida.
De acordo com ele, o
financiamento privado de campanha, que passou pelo Congresso Nacional em
novembro do ano passado, após manutenção de veto da presidente Dilma,
favoreceriam as negociatas entre setor público e privado.
Para
Bianchi, outra peça fundamental que complexifica o tabuleiro da política
brasileira é a quantidade de partidos políticos sem identidade
ideológica. "São agremiações sem identidade ideológica ou programática.
Uma das consequências disso é a intensa migração partidária. A situação
seria diferente se os partidos fossem diferentes, apesar de existirem em
um número grande. Nos últimos anos, o governo operou em constante
barganha, com troca de cargos para a assinatura de emendas e projetos
com toda essa quantidade de partidos", comentou o professor.
Para o
futuro, Bianchi prevê que um eventual governo de Michel Temer deve
exacerbar as piores características de um governo de coalizão e também
acelerar o processo de pautas conservadoras: "Não é difícil fazer um
prognóstico. O programa "Uma Ponte para o Futuro" inclui reforma da CLT,
da Previdência". *do programa de estágio do JB
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