Programa do governo tenta amenizar falta de produtos básicos; sistema é criticado A inflação galopante e a escassez de produtos da cesta básica fizeram com que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciasse um programa de distribuição de comida para tentar amenizar os efeitos da crise e a queda de sua popularidade. A medida, no entanto, é criticada por seu alto custo e pela falta de investimento na produção local.
08 Maio 2016 | 03h 00 - Atualizado: 08 Maio 2016 | 03h 02
Programa do governo tenta amenizar falta de produtos básicos; sistema é criticado
A inflação galopante e a escassez de produtos da
cesta básica fizeram com que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro,
anunciasse um programa de distribuição de comida para tentar amenizar os
efeitos da crise e a queda de sua popularidade. A medida, no entanto, é
criticada por seu alto custo e pela falta de investimento na produção
local.
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Os
produtos serão entregues de porta em porta para os beneficiários de
programas sociais, por meio dos Comitês Locais de Abastecimento e
Produção (Clap). As cestas custam de 1 mil a 3 mil bolívares – um custo
baixo diante da atual situação dos venezuelanos, que recebem ao menos
33.636 bolívares de salário mínimo e auxílio refeição (cerca de US$ 1,5
mil na menor taxa de câmbio oficial, mas apenas US$ 35 no câmbio
paralelo), valor insuficiente para compra de alimentos não subsidiados.
Durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, começou
um processo de expropriação de fábricas de alimentos e de áreas para
criação de gado e terras para cultivo. Muitos desses projetos não deram
certo porque produziam abaixo da capacidade. Como o governo lucrava
muito com o petróleo, começou a importar comida.
Com a queda do valor do barril, Maduro decidiu congelar os
preços dos produtos em plena alta da inflação, o que levou à falência
produtores locais e, consequentemente, à escassez de alimentos. O
sistema de distribuição anterior, por meio de supermercados estatais,
entrou em colapso. Por isso, o governo decidiu implantar esse novo
programa de entrega. “O problema não está na distribuição em si, mas na
produção e, sobretudo, na falta de poder aquisitivo”, avalia o professor
de economia da Universidade Central da Venezuela, Leonardo Vera. Comerciante aguarda clientes em mercearia sem iluminação na cidade de Puerto Ordaz
Para o cientista político José Vicente Carrasquero, o problema
da medida também é a responsabilidade das Clap. “Todas as redes de
comercialização e distribuição de alimentos nas mãos do governo têm dado
lugar a corrupção e fraude”, afirma. No começo do ano, funcionários da
administração da rede de supermercados estatais Bicentenário foram
presas pelo desvio de produtos subsidiados pelo governo. Em 2010,
durante o governo Hugo Chávez, descobriu-se que cerca de 150 mil
toneladas de alimentos foram perdidas por uma empresa importadora
controlada pelo governo.
Atualmente, a gerência da maioria dessas empresas foi
transferida para os militares. O governo atribui os problemas a uma
“guerra econômica” orquestrada por indivíduos dentro e fora da Venezuela
para derrotar o chavismo.
Segundo Carrasquero, entretanto, o problema deve continuar. “É
um projeto político-partidário condenado a fracassar, basicamente
porque se está delegando o processo de distribuição a organizações de
bairro que cairão rapidamente em corrupção e nepotismo”, explica.
A diretora da Fundação Bengoa para Alimentação e Nutrição,
Maritza Landaeta, também acredita que o programa deve fracassar. “Não há
como sustentá-lo, é uma fonte de corrupção, com alimentos vencidos ou
prestes a vencer, sem controle de qualidade e sem o cumprimento das
regras mínimas para o transporte”, afirma.
O economista Leonardo Vera acredita que o governo gastará
cerca de US$ 5 bilhões por ano com a importação. “Cerca de 96% das
exportações da Venezuela são petróleo. Mais do que nunca, nos tornamos
um país monoexportador”. Atualmente, o preço do barril venezuelano está
em cerca de US$ 30, bem abaixo dos US$ 88 de dois anos atrás. Segundo
Vera, o país recebe US$ 25 bilhões por ano, mas precisa de, pelo menos,
US$ 40 bilhões. Política. Ao anunciar o projeto de
distribuição de alimentos, o governo o chamou de “Revolução Econômica”.
Para a pesquisadora do Centro de Estudos de Desenvolvimento da
Universidade Central da Venezuela, Marianella Herrera Cuenca, a
revolução necessária deve buscar o crescimento econômico e o progresso
social. “Esses elementos não são contrários, são complementares, já que
um bom desenvolvimento econômico apoiará o desenvolvimento social que
todos os venezuelanos merecemos”, ressalta. Venezuelana espera a energia voltar em sua casa, durante racionamento na cidade de Puerto Ordaz
Além da população, os produtores locais também estão sendo
prejudicados pela competição com produtos importados. “A maior parte dos
produtos tem preços regulados pelo governo, então, os produtores devem
vender uma cota da produção por preços irrisórios e sem controle da
distribuição”, explica Vera. O governo venezuelano também se tornou
dono, por meio de expropriação e intervenção, de mais da metade de
diversos setores ligados à produção de alimentos, como usinas de
pasteurização de leite, de processamento de farinhas, de refinarias de
açúcar e afins. Escassez. Segundo a mais recente Pesquisa
sobre Condições de Vida na Venezuela, 12,1% da população faz duas
refeições ou menos por dia – 40% desses estão no grupo dos mais pobres
do país. Além disso, carne, peixe, leite e feijão são consumidos apenas
por uma minoria. O restante se alimenta basicamente de farinhas, arroz,
pão e gorduras.
“É possível comprar frango, com preço tabelado, após ficar
cerca de 12 horas na fila do supermercado”, afirma a coordenadora da
pesquisa, Maritza Landaeta. Segundo ela, pessoas ficam o dia inteiro em
filas e passam por vários tipos de humilhação, maus-tratos e violência. O
estudo foi realizado pela Universidade Católica Andrés Bello,
Universidade Central da Venezuela, Universidade Simón Bolívar e pela
Fundação Bengoa.
O alto consumo de gorduras é uma questão metabólica. “É uma
dieta de sobrevivência. A gordura consegue compensar a deficiência
calórica e promove sensação de saciedade”, explica a pesquisadora
Marianella Herrera Cuenca, também responsável pelo levantamento. Além
disso, cerca de 81% dos cidadãos são considerados pobres e 87% dizes não
ganhar o suficiente para comprar alimentos.
A pesquisa também mostrou que o custo de comer fora de casa,
de 2014 para 2015, subiu em até 497%. Na avaliação de Marianella, uma
solução para a crise de escassez é aceitar ajuda internacional.
“Precisamos cuidar dos grupos vulneráveis, como grávidas e crianças
menores de 5 anos, para protegê-los nos períodos críticos do crescimento
e desenvolvimento e evitar um dano maior às futuras gerações”, afirma.
O economista Leonardo Vera também acredita na necessidade de
receber recursos do exterior, além de aumentar a importação de insumos,
matérias-primas e o que mais for necessário para os produtores locais.
“O país precisa de uma revolução econômica, mas certamente em outra
direção.”
copiado estadão
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