Como salvar a natureza no Brasil e o clima na Terra
Destruição de florestas não é sinônimo de desenvolvimento. O governo resiste a liquidar de vez a devastação, o que daria novo impulso à luta contra mudança do clima. A Folha vasculhou a Amazônia para mostrar em quatro capítulos, com 65 fotos, 26 infográficos e 8 vídeos, que zerar a devastação pode ser bom negócio para todos
VEJA http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2016/12/1842667-ibama-destroi-equipamentos-de-madeireiros-ilegais-na-amazonia.shtml
Como salvar a natureza no Brasil e o clima na Terra
Destruição de florestas não é sinônimo de desenvolvimento. O governo resiste a liquidar de vez a devastação, o que daria novo impulso à luta contra mudança do clima. A Folha vasculhou a Amazônia para mostrar em quatro capítulos, com 65 fotos, 26 infográficos e 8 vídeos, que zerar a devastação pode ser bom negócio para todos
Marcelo Leite
Fabiano Maisonnave
Rafael Garcia
Sérgio Adeodato
Lalo de Almeida16/09/2015
Fabiano Maisonnave
Rafael Garcia
Sérgio Adeodato
Lalo de Almeida16/09/2015
O Brasil é o herói das florestas tropicais, mas continua campeão de desmatamento no mundo.
Na
Amazônia Legal, a destruição recuou mais de 80% em uma década, mas
empacou no limiar de 5.000 km² por ano. No cerrado a redução foi menor,
de 54%. Ainda se devasta a savana brasileira com mais afinco que a
floresta amazônica, à taxa de 6.000 km² anuais –uma área maior que a do
Distrito Federal.
No corte raso
das matas, mais cedo ou mais tarde, madeira, folhas e raízes se
convertem, pela queima ou pelo apodrecimento, em gás carbônico (CO₂) e
outros gases do efeito estufa (GEE). Com a contenção do desmatamento,
atividade que já representou 70% das emissões brasileiras de GEE, essa
fatia encolheu para 35% do total. No entanto, o desflorestamento ainda é
o que mais contribui para o aquecimento da Terra no Brasil.
Aqueles
11 mil km² destruídos a cada ano não são o preço a pagar pelo
desenvolvimento do país, ao contrário do que muita gente acredita. Pará e
Mato Grosso, Estados amazônicos onde mais se desmata, geram só 2% do
PIB nacional e têm 5,6% da população, mas produzem 22% dos gases do
efeito estufa que fazem do Brasil o sexto ou sétimo maior poluidor
climático do mundo (a depender da lista que se consulte).
É
nessa posição ambígua que o país vai anunciar suas metas para a
Conferência de Paris, reunião da ONU em dezembro para adotar um acordo
sobre a mudança do clima que substitua o ultrapassado Protocolo de
Kyoto.
Limite de segurança
Cada
uma das 194 nações que participam da negociação tem de apresentar suas
“contribuições pretendidas e nacionalmente determinadas” (INDCs, na
sigla em inglês). Somadas, essas promessas deveriam ser suficientes para
manter o aquecimento da atmosfera em menos de 2°C acima dos níveis
pré-industriais, mas os INDCs até aqui divulgados indicam que ele
ultrapassará a marca de 3°C. Falta ambição, portanto.
O
Brasil, nos piores anos de desmatamento na Amazônia, chegou perto de
lançar na atmosfera 3 bilhões de toneladas de CO₂ ou outros GEE
convertidos a esse gás-padrão (abreviadamente, 3 GtCO₂eq). Caminhou,
contudo, para uma posição confortável: em 2013, segundo o Sistema de
Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg, iniciativa da
rede de ONGs Observatório do Clima), houve emissão de 1,59 GtCO₂eq
–menos de 8 toneladas por habitante a cada ano, perto da média mundial.
As
emissões brasileiras caíram por causa da redução no desmatamento, mas
continuam subindo em outros setores, tendo à frente o da agropecuária
(sem contar a destruição de florestas) e o da energia (por causa dos
transportes e das usinas termelétricas). Se nada mais for tentado,
calcula-se que voltariam em 2030 aos 3 GtCO₂eq.
Reduzir
o desmate a zero, em termos absolutos, permitiria subtrair mais de 500
milhões de toneladas dessa conta a cada ano. Mas também seria necessário
fazer muita economia de carbono na pecuária e incentivar energias
renováveis, como a dos ventos (eólica) e a da radiação solar
(fotovoltaica), para que o país diminuísse, em vez de aumentar, a parte
que lhe cabe no latifúndio do aquecimento global.
Sem compromisso
O
governo Dilma Rousseff, no entanto, não avança nessa direção, como já
havia deixado claro há um ano quando refugou a Declaração de Nova York
sobre Florestas e a proposta de desmatamento zero nela contida. Em
junho, ao encontrar-se com Barack Obama em visita aos EUA, a presidente
explicitou seu tímido compromisso em favor do clima: desmatamento ilegal
zero até 2030.
Ao incluir o
qualificativo “ilegal” na expressão consagrada, o Estado brasileiro
sinaliza que só tem expectativa de ver a legislação florestal plenamente
respeitada daqui a 15 anos. Admite, assim, que permaneçam milhares de
quilômetros quadrados de devastação a cada ano.
O
governo propõe que a destruição tolerada seja compensada com o
sequestro de carbono na restauração de 120 mil km² de matas (ao crescer,
árvores retiram CO₂ do ar pela fotossíntese). Florestas demoram para se
formar, contudo, e alguns especialistas estimam que seria necessário
recompor 30 km² para sequestrar o carbono de cada quilômetro quadrado
desmatado.
Há propostas bem mais
audaciosas na praça. O Observatório do Clima, baseado nos números do
Seeg, traçou um plano detalhado para não só impedir que as emissões
nacionais cresçam como também para diminuí-las. A rede de ONGs calcula,
setor por setor, como chegar a 1 GtCO₂eq em 2030, quando cada brasileiro
estaria emitindo pouco mais de 4 toneladas anuais de CO₂ –uma cifra
considerada factível também pelo respeitado climatologista Carlos Nobre.
Um
papel preponderante nesse esforço caberia à pecuária, apontada como
maior responsável pelo desmatamento na Amazônia. Com reforma de
pastagens degradadas, rodízio de pastos e suplementação alimentar para o
gado, o estudo “Cenários para Pecuária de Corte Amazônica”, da UFMG,
estima que seria possível aumentar o rebanho de 212 milhões de cabeças
para 250 milhões, ao mesmo tempo em que se diminui a área ocupada de 2,2
milhões de km² para 1,74 milhões de km², liberando 460 mil km² para a
agricultura de grãos.
No
processo, a criação de gado deixaria de induzir desmatamento e ainda
capturaria carbono da atmosfera na forma de matéria orgânica acima do
solo (folhas) e abaixo dele (raízes). O Observatório ABC (Agricultura de
Baixo Carbono) estima que a recuperação de 520 mil km² de pastos
degradados no Brasil possibilitaria evitar a emissão de 0,67 GtCO₂eq e
ainda armazenar 1,1 GtCO₂eq ao longo de dez anos –o total de 1,77
GtCO₂eq vale mais de 13 meses de emissões brutas nacionais hoje.
É
por essa razão que a atrasada pecuária amazônica ocupa o primeiro dos
quatro capítulos desta reportagem multimídia. Assim como nos outros três
textos (áreas protegidas/terras indígenas; madeira; e assentamentos de
reforma agrária), o objetivo é menos o de denunciar a continuada
destruição de florestas que o de revelar como já se tornou possível
combater o desmatamento ao mesmo tempo em que se melhora a saúde do
clima mundial, a vida e a produtividade de quem vive na Amazônia.
Mais do mesmo
O
gargalo são as políticas públicas. A dificuldade de reconduzi-las para o
rumo correto parece ser a razão tanto da resistência em Brasília a
adotar metas mais ambiciosas para o desmatamento quanto do ceticismo de
alguns especialistas com sua viabilidade.
Um
deles é Gilberto Câmara, que já presidiu o Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe) e hoje lidera um esforço para modelar com
computadores o uso da terra no Brasil e suas consequências para o clima.
“Pedir o céu e jogar para a plateia é fácil”, diz Câmara. “Difícil é
fazer como fizemos no caso da redução do desmatamento: estabelecer uma
política dura e conseguir mantê-la contra todos os ventos e eventos.”
Já
para Tasso Azevedo, do Observatório do Clima/Seeg, “com esforço, mas
sem sacrifício”, por meio da recuperação de áreas degradadas, a pecuária
poderia estar emitindo entre 0,2 e 0,3 GtCO₂eq em 2030, no lugar de 0,8
GtCO₂eq projetada no cenário “mais do mesmo”.
O
governo Dilma Rousseff tem uma escolha a fazer. Pode ousar com uma meta
de desmatamento zero, de verdade, enfrentar a ventania doméstica e
destacar-se em Paris como uma nação que faz mais do que o previsível
para descarbonizar sua economia. Mas também pode abrigar-se das
intempéries e ficar deitado no berço nada esplêndido do desmatamento
ilegal zero e da tolerância com 11 mil km² de devastação improdutiva a
cada ano.
Este especial foi financiado pela Clua (Climate and Land Use Alliance)
Como salvar a natureza no Brasil e o clima na Terra
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