conflito
Nações desunidas na guerra civil síria
Um
dos veículos destruídos no ataque aéreo contra o comboio humanitário
nos arredores de Aleppo. Perderam a vida mais de 20 pessoas
| Reuters2016-09-21
Que consequências tem o ataque para as populações?
O
comboio humanitário, de mais de 30 veículos, transportava farinha,
alimentos, roupa de Inverno e cobertores para satisfazer as necessidades
básicas de quase 80 mil pessoas nos arredores de Aleppo quando foi
atacado por aviões e helicópteros segunda-feira ao fim do dia,
provocando a destruição de mais de metade dos veículos e a morte de 21
pessoas. Além da inutilização da maior parte da ajuda humanitária, as
Nações Unidas, a Cruz Vermelha Internacional, o Crescente Vermelho e as
ONG presentes na Síria anunciaram a suspensão das suas operações em
todas as áreas onde se verificam combates e cujo controlo está repartido
entre as diferentes fações. As consequências são as de uma ainda maior
deterioração das condições de vida dos civis nas áreas sob controlo das
forças da oposição, pressionando aqueles a abandonarem-nas ou mesmo a
trocarem-nas por aquelas na posse do regime de Damasco.
Quem foi responsável pelo ataque?
Testemunhos
oculares referem que, desde a partida de Aleppo do comboio de veículos,
este foi seguido por aviões de combate e helicópteros, iniciando-se o
ataque no momento em que este chegou ao seu destino. Segundo as ONG
envolvidas, todas as partes do conflito tinham sido notificadas do
trajeto do comboio e os veículos estavam claramente identificados. Um
ataque desta natureza equivale a "crime de guerra" e deve ser tratado
como tal, consideraram representantes da ONU e das ONG. O enviado
especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, classificou o sucedido
como um "monstruoso ultraje". Um porta-voz do Ministério da Defesa
russo afirmou que o comboio "se incendiou" durante uma "ofensiva
rebelde". As forças da oposição não dispõem de meios aéreos de combate.
Os EUA afirmaram ontem ao final do dia que o ataque foi levado a cabo
por aviões de combate russos.
Que influência terá na guerra civil o fim do cessar-fogo?
O
ataque de segunda-feira coincidiu com o anúncio do fim do cessar-fogo
em vigor há uma semana e que fora negociado pelos Estados Unidos e a
Rússia. Damasco utilizou como pretexto o ataque aéreo americano do fim
de semana em que foi alvejada uma concentração de forças fiéis ao
regime, provocando cerca de 60 mortos. A oposição também criticou os
termos em que foi negociado o cessar-fogo, afirmando que este favorecia o
regime de Bashar al-Assad, permitindo o descanso e reabastecimento das
tropas governamentais, enquanto as suas milícias permaneciam em
localidades cercadas e sem liberdade de movimentos.
Qual a situação no terreno após cinco anos de combate?
O
regime de Damasco recuperou alguma iniciativa no terreno após a
intervenção russa, em setembro de 2015. Anteriormente, contara com o
apoio em treino e efetivos dos Guardas da Revolução iranianos e do
Hezbollah libanês, mas sem conseguir passar à ofensiva, apesar da
debilidade militar da oposição, dividida entre diferentes grupos e em
conflito aberto quer com o Estado Islâmico (EI) e outras formações
islamitas quer, por vezes, com as milícias curdas. Só a intervenção
aérea da coligação internacional contra o EI e outros islamitas tem
contribuído para reforçar o controlo da oposição em certas regiões do
país.
Quais são os grandes aliados do regime de Assad?
Damasco
está isolado internacionalmente desde o início da contestação ao regime
de Assad. Em 2011 foi suspenso da Liga Árabe, que decretou um conjunto
de sanções nesse ano. Além do Irão xiita, denominação do Islão em que se
integra o regime de Assad, apenas a Rússia e, de forma até há pouco
mais discreta, a China são os seus grandes apoios. Os dois últimos têm
bloqueado projetos de resolução a condenar Assad com o seu direito de
veto no Conselho de Segurança da ONU. O apoio sino-russo-iraniano
assenta em fortes motivações geopolíticas. Para Teerão, é fundamental
manter um "arco xiita" na região (Irão-Síria-Líbano) enquanto para
Moscovo as bases aeronavais na Síria são indispensáveis para assegurar a
presença e projeção de forças na área do Mediterrâneo. Para Pequim,
qualquer adversário de Washington é um seu aliado no longo conflito por
procuração que mantém, em diferentes partes do mundo, com os Estados
Unidos. Mas para além da venda de armas - uma prática de longa data -e
da concessão de apoio no treino e preparação de militares sírios, não é
verosímil um envolvimento direto chinês no conflito, ao contrário do
sucedido com Teerão e Moscovo. Pela dupla razão de que contraria um dos
fundamentos da sua diplomacia - o princípio da não intervenção em
conflitos externos - e iria pôr em risco as relações de Pequim com
muitos países árabes dos quais depende para as necessidades em energia.
A coligação está a conseguir os seus objetivos?
A
coligação internacional formou-se em setembro de 2014 com a finalidade
de derrotar o EI. Integra 67 Estados e tem realizado ataques aéreos na
Síria e Iraque, além de missões de treino e formação das forças de
segurança iraquianas e apoios de países individuais a certos grupos da
oposição a Assad. O objetivo principal - a derrota do EI e a sua
neutralização como força combatente está ainda longe, mas o grupo
islamita está a perder terreno, influência e tem sofrido pesadas baixas.
Desde há um ano que passou à defensiva e, no mesmo espaço de tempo,
terá perdido cerca de dez mil combatentes, entre mortos, desertores e
voluntários que regressaram aos países de origem. No plano político, uma
solução para a guerra civil na Síria e a estabilização do país
permanecem tão distantes ou mais do que no momento do surgimento da
coligação.
De que maneira está o EI a perder influência?
Ainda
que de forma paulatina, o grupo islamita tem vindo a ser desalojado das
principais cidades sob seu controlo no Iraque, como Fallujah, Ramadi e
Sinjar. Dos grandes centros urbanos apenas domina Mossul. Na Síria,
perdeu o controlo de 20% do território na sua posse - dez mil
quilómetros quadrados na estimativa da coligação internacional - e viu
serem eliminados importantes dirigentes, como o número dois do grupo,
Abd al-Rahman Mustafa Al-Qaduli. Devido aos recuos no terreno, tem
perdido acesso a recursos, estimando-se que tenha sofrido uma quebra de
30%/mês nas suas receitas. Assim, segundo a agência de informações e
análise de mercados IHS Markit, as receitas mensais do EI - venda de
petróleo e drogas, impostos, expropriações - passaram de 80 milhões de
dólares (71,5 milhões de euros) em meados de 2015 para cerca de 56
milhões de dólares (50 milhões de euros) em março do corrente ano. Por
outro lado, a sua capacidade de recrutamento de combatentes estrangeiros
está comprometida pelos revezes no terreno, a redução das verbas que
lhe são prometidas e por um mais eficaz controlo das forças de segurança
daqueles suscetíveis de cederem à propaganda do EI.
Qual a situação atual dos civis na Síria?
A
longa duração do conflito e o nível de violência que não tem cessado de
se acentuar, visando de forma clara os civis - de que é exemplo mais
recente o sucedido segunda-feira nos arredores de Aleppo - afetou mais
de metade da população síria, cerca de 22 milhões em 2011. Assim,
existem hoje quase cinco milhões de refugiados e mais de seis milhões de
deslocados. Até março, tinham perdido a vida cerca de 470 mil pessoas e
quase dois milhões foram feridas. A expectativa de vida passou dos 70
anos, em 2011, para os 55 anos, em 2015. A destruição de infraestruturas
está a deteriorar as condições de vida das populações. O número de
pessoas a viverem no limiar da pobreza aumentou 85% só em 2015.
COPIADO http://www.dn.pt/
Nenhum comentário:
Postar um comentário