Sergio Moro e Lula preparados para o combate do século
O juiz de Curitiba vai julgar o ex-presidente. Cultuados pelos fãs, serão os protagonistas jurídicos e políticos dos próximos meses

Sergio Moro e Lula da Silva
| Fotos Reuters
O
juiz de Curitiba vai julgar o ex-presidente. Cultuados pelos fãs, serão
os protagonistas jurídicos e políticos dos próximos meses
Os
anos de 2015 e 2016 foram marcados por dois combates de pesos-pesados:
primeiro entre Dilma Rousseff, a presidente da República reeleita pelo
Partido dos Trabalhadores (PT), e Eduardo Cunha, o poderoso presidente
da Câmara dos Deputados, do Partido do Movimento da Democracia
Brasileira (PMDB), que terminou com o KO de ambos, destituídos dos
respetivos cargos nas últimas semanas. E depois entre Dilma e o seu
ex-vice e sucessor Michel Temer, do PMDB, que o segundo ganhou mas do
qual saiu seriamente (talvez fatalmente) combalido na sua popularidade.
Já 2017 será o ano do duelo entre dois dos mais venerados protagonistas
do Brasil: Lula da Silva, no canto esquerdo, e Sergio Moro, no direito.
Um
tem 70 anos, o outro 44. O primeiro nasceu em Caetés, nos confins de
Pernambuco, no inóspito sertão nordestino, migrou com a numerosa família
para a periferia de São Paulo, passou uma infância miserável, tornou-se
operário, ganhou projeção nacional como sindicalista e perdeu três
eleições para a presidência da República antes de vencer duas e sair do
Planalto com 80 pontos de aprovação. O segundo é natural da temperada
Maringá, no Paraná, estado do desenvolvido Sul do Brasil, filho de
professores de classe média de origens italiana e alemã, estudou em
Harvard, chegou a juiz e tomou em mãos a Lava-Jato, operação mais
mediática da história do país.
Lula
apaixonou-se pelo sindicalismo e pela defesa das classes menos
favorecidas, entre as quais goza de quase adoração, e formou um partido
político, o PT, que durante anos a fio ergueu a bandeira da luta contra a
corrupção mas que comprometeu a sua imagem de defensor da ética,
escândalo após escândalo, em 13 anos no poder. Moro, por causa dos
rígidos valores impostos pelo pai, tornou-se um magistrado empenhado em
"mudar o Brasil", fascinado pelos giudici ragazzini, o grupo de jovens
juízes que transformou a Itália na operação Mani Pulite, e é cultuado
entre os anti-PT mas tido como parcial e autoritário pelos seus
críticos.
Para os amores e ódios que
ambos suscitam contribui a convicção, de um e de outro, de estarem com a
razão. Total, plena, inequívoca. Lula sente-se como Jesus julgado pelo
Sinédrio, ou, como ele diz, a República de Curitiba, aludindo à
cidade-sede da Lava-Jato e do juiz Moro. Moro vê-se como Eliot Ness em
perseguição de Al Capone ou, como afirma a sua equipa, do "comandante
máximo" do esquema de corrupção da Petrobrás. Para os lulistas, Lula
dedicou a vida aos pobres e por isso é perseguido pelos ricos. Para os
moristas, Moro dedica a carreira à justiça e é perseguido, por isso,
pelos corruptos.
O
combate Lula-Moro, que esteve em fermentação durante um ano, começou,
de facto, em março. Na 24.ª fase da Lava-Jato, o juiz decretou a
condução coercitiva, além de mandato de busca e apreensão ao apartamento
do petista em São Bernardo do Campo, arredores de São Paulo. Lula,
depois de ter dito que poderia depor sem necessidade de coerção e de ter
acusado Moro de prepotência, reagiu em conferência emocionada: "Não
mataram a jararaca!" Dias depois, após a controversa posse de Lula como
ministro de Dilma, Moro soltou para a imprensa uma gravação telefónica
daquele mesmo dia entre os hoje dois ex-presidentes. O célebre
telefonema que termina com um "tchau querida".
Ainda
em março, Moro justificou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a
divulgação dos áudios porque Lula tentou "intimidar" e "obstruir" as
investigações da Lava-Jato. E já em junho, advogados de Lula pediram ao
STF que as investigações sobre ele continuassem na suprema corte e não
com Moro, a quem acusam de "abuso de autoridade". No mês seguinte, o
juiz afirmou que as escutas efetuadas ao petista poderiam justificar
prisão temporária, depois de a defesa do antigo sindicalista falar em
"suspeição de parcialidade nas investigações". Lula recorreu mesmo ao
comité dos Direitos Humanos da ONU, queixando-se do abuso de poder de
Moro e dos procuradores da Lava-Jato. Já no mês passado, o antigo
metalúrgico disse que o facto de a polícia federal pedir novas
diligências contra a sua mulher e o filho mais velho no caso do Sítio de
Atibaia é o "atestado cabal" de que não há indícios do juiz paranaense e
da sua equipa contra ele.
Agora, com a
denúncia sobre o triplex do Guarujá contra o antigo presidente, o
dossiê chega às mãos do jovem magistrado. Nos próximos dias, Moro
decidirá se pega no processo e se necessita de ouvir o próprio Lula e a
sua mulher, Marisa Letícia. E, em aproximadamente seis meses, lá para
março ou abril, profere sentença. O ano de 2017 vai ser animado.
Em São Paulo COPIADO http://www.dn.pt/
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