Violência contra mulher Datafolha: um em cada três brasileiros diz que mulher é culpada por estupro 85% das mulheres revelam medo de serem vítimas de violência Um terço dos brasileiros culpa mulheres por estupros sofridos
Um terço dos brasileiros culpa mulheres por estupros sofridos
FERNANDA MENA
DE SÃO PAULO
"A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada."
A frase, capaz de provocar calafrios, é alvo de concordância de um a
cada três brasileiros, segundo pesquisa inédita Datafolha encomendada
pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Mesmo entre as mulheres, 30% concorda com este raciocínio, que culpa a vítima pela violência sexual sofrida.
PERCEPÇÃO SOBRE ESTUPRO
Concordam com a frase “A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada” (em %)
Entre pessoas que têm apenas ensino fundamental
41
30
Mulheres
30
Homens
30
Total
41
Entre pessoas que têm apenas ensino fundamental
No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, segundo registros oficiais, totalizando quase 50 mil crimes do tipo ao ano.
Estimativas apontam, no entanto, que apenas 10% dessas agressões sexuais
sejam registradas, o que sugere uma cifra oculta de até 500 mil
estupros anuais.
De acordo com dados do SUS (Sistema Único de Saúde), em 70% dos casos de estupro, a vítima é uma criança ou adolescente.
"Trata-se de um déficit civilizatório do Brasil ter tantas pessoas que
vinculam a vitimização da mulher a uma conduta moral", diz Renato Sérgio
de Lima, vice-presidente da entidade.
O índice de concordância com a frase que relaciona uso de roupas
provocativas com estupro sobe entre moradores de cidades de até 50 mil
habitantes (37%), pessoas apenas com o ensino fundamental completo (41%)
e com mais de 60 anos (44%).
O índice cai entre aqueles com até 34 anos (23%) e com ensino superior (16%).
PERCEPÇÃO SOBRE ESTUPRO
Concordam com a frase “Mulheres que se dão ao respeito não são estupradas” (em %)
Entre os que têm 60 anos ou mais
46
32
Mulheres
42
Homens
37
Total
46
Entre os que têm 60 anos ou mais
"Isso nos mostra uma transformação em curso na tolerância à violência
sexual e na percepção de que a culpa é da mulher", avalia Wânia
Pasinato, da ONU Mulheres. "Aqueles mais jovens e com mais educação
melhoraram sua compreensão sobre o papel da mulher na sociedade", diz
ela.
O papel da educação no combate às agressões sexuais é reconhecido por
91% dos entrevistados, que dizem ser possível "ensinar meninos a não
estuprar".
"A educação é um fator de mudança e, portanto, devemos trabalhar o
potencial transformador de valores das escolas", destaca Lima.
Para Pasinato, no entanto, a retirada de metas de combate à
discriminação de gênero dos planos nacional, estaduais e municipais de
educação, por pressão de bancadas religiosas, deve ter impacto negativo
nessas transformações.
#EUNÃOMEREÇO
Em 2014, pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
apontou que 65,1% dos brasileiros acreditavam que mulheres que mostram o
corpo "merecem ser atacadas".
O dado, depois corrigido para 26%, provocou uma enxurrada de
manifestações e uma campanha em que mulheres e homens expuseram seus
corpos em fotos acompanhadas da hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada.
"Os dados da nova pesquisa mostram um cenário ainda pior que aquele
apresentado pelo Ipea", avalia Nana Queiroz, idealizadora da campanha e
diretora da revista AzMina. "Não me surpreende que o percentual de
concordância com a frase [30%] seja igual entre homens e mulheres. A
cultura do estupro é tão arraigada que acaba sendo reproduzida também
por mulheres."
Na mesma tônica, 37% dos brasileiros declararam acreditar que "mulheres
que se dão ao respeito não são estupradas", o que reitera a ideia de
controle do comportamento e do corpo da mulher.
Entre entrevistadas do sexo feminino, o índice de concordância com a frase cai para 32%. Entre homens, sobe para 42%.
PERCEPÇÃO SOBRE ESTUPRO
Têm medo de serem vítimas de agressão sexual (em %)
Entre mulheres no Nordeste
90
85
Mulheres
46
Homens
65
Total
90
Entre mulheres no Nordeste
POLÍCIA E JUSTIÇA
Segundo o estudo, 65% dos brasileiros temem ser vítimas de violência
sexual. Entre mulheres, 85% têm medo de sofrer um estupro. No Nordeste,
este índice é de 90%.
A pesquisa revela ainda que 50% dos entrevistados avalia que a Polícia
Militar não está preparada para atender mulheres vítimas, enquanto 42%
diz o mesmo sobre a Polícia Civil.
De acordo com Pasinato, a capacitação de profissionais para o
atendimento à mulher vítima de violência está refletida na política
nacional de enfrentamento à violência contra a mulher. "O que falta é a
elaboração de protocolos de atendimento pelas instituições policiais,
algo capaz de mudar as práticas e a rotina deste atendimento", diz.
Nove em cada dez reclamações feitas à Ouvidoria da Secretaria de
Políticas para as Mulheres são queixas contra o serviço de atendimento
da PM, a assistência prestada em delegacias de polícia tradicionais e em
delegacias especializadas no combate à violência contra a mulher.
PERCEPÇÃO SOBRE ESTUPRO
Em relação à frase "As leis brasileiras protegem estupradores"
Não sabem
Não sabem
Concordam53
Discordam35
7
Não concordam nem discordam
5
Não sabem
Fonte: Datafolha (encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Pesquisa ent
"Um inquérito mal elaborado vai resultar em um processo judicial muito
frágil em que fica fácil construir uma defesa para o agressor", avalia
ela, para quem a visão que culpabiliza a mulher pelo crime de que é
vítima, apontada pela pesquisa, está presente também nas instituições
policiais e judiciais.
No Estado de São Paulo, apenas 2 em cada 10 inquéritos abertos pela
Polícia são esclarecidos. Dos casos que chegam à Justiça, a maioria
acaba em absolvição.
Daí que 53% dos entrevistados na pesquisa avaliem que as leis brasileiras protegem os estupradores.
Em cerca de 70% dos casos de estupro registrados, o agressor é conhecido
da vítima, o que dificulta a comprovação do não consentimento, baseado
em geral no relato da vítima.
Em mais de 80% dos crimes, a vítima não apresenta trauma físico ou
mental, o que dificulta a comprovação material da violência sofrida.
"O problema não está na lei, mas no aplicador da lei", explica Ana Paula
Meirelles, do Núcleo de Defesa da Mulher da da Defensoria Pública do
Estado de São Paulo. "Ainda há uma pouca valoração do discurso da mulher
alvo de crimes sexuais, especialmente naqueles praticados por
conhecidos, quando há uma inversão de valores e a vítima passa ser vista
como culpada pelo crime."
copiado http://www1.folha.uol.com.br/c
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