Censurada no Clarín, ex-editora da Folha denuncia submissão aos EUA
Censurada no Clarín, ex-editora da Folha denuncia submissão aos EUA
"O jornal argentino me encomendou um artigo sobre o impeachment.
Escrevi e enviei. Pediram para eu 'amenizar' trechos. Especificamente
não queriam que eu falasse em 'submissão aos EUA'. Recusei fazer
qualquer modificação no texto. Há duas semanas ele está numa gaveta
virtual em Buenos Aires", denunciou, pelo Facebook, a jornalista
Eleonora de Lucena; em seu artigo, que não foi publicado, ela afirma que
"o julgamento de Dilma Rousseff atropela a democracia e expõe de
maneira crua o embate de interesses antagônicos na América Latina. De um
lado, um projeto de integração regional sem submissão aos Estados
Unidos; de outro, a volta das conhecidas 'relações carnais' com o
império do Norte. O governo de Michel Temer mostra que quer esvaziar o
Mercosul"; o governo argentino de Mauricio Macri já declarou seu apoio a
Michel Temer e ao golpe no Brasil; leia a íntegra
12 de Setembro de 2016 às 11:10
Por Eleonora de Lucena, em seu Facebook
FUI CENSURADA PELO "CLARÍN".
O jornal argentino me encomendou um artigo sobre o impeachment.
Escrevi e enviei. Pediram para eu "amenizar" trechos. Especificamente
não queriam que eu falasse em "submissão aos EUA". Recusei fazer
qualquer modificação no texto. Há duas semanas ele está numa gaveta
virtual em Buenos Aires.
Para registro, aí vai o que o "Clarín" não quis publicar.
Um golpe à democracia e à
soberania na América Latina
ELEONORA DE LUCENA
O julgamento de Dilma Rousseff atropela a democracia e expõe de
maneira crua o embate de interesses antagônicos na América Latina. De um
lado, um projeto de integração regional sem submissão aos Estados
Unidos; de outro, a volta das conhecidas "relações carnais" com o
império do Norte.
O governo de Michel Temer mostra que quer esvaziar o Mercosul.
Repetindo ardis usados internamente no país, manobra para golpear essa
construção da união sul-americana que vai muito além de acertos
comerciais.
De supetão, dá início a uma onda de privatizações, vendendo um naco
do pré-sal brasileiro, onde estão valiosas reservas de petróleo.
Tenciona desidratar e esquartejar a Petrobras, ícone de uma proposta
independente de desenvolvimento e objeto de desejo de companhias
estrangeiras.
Temer anuncia cortes em gastos em saúde, educação e previdência.
Planeja desmantelar conquistas trabalhistas obtidas desde meados do
século 20. Almeja transferir renda dos mais pobres para os mais ricos:
projetos sociais serão podados para garantir o pagamento dos juros
estratosféricos pagos à elite.
É a reedição de um enredo já desenhado no Paraguai e em Honduras: um
golpe sem tanques que corrói as instituições para minar a independência.
Num ritual kafkaniano, políticos acusados de corrupção votam a cassação
de uma presidente que todos reconhecem ser honesta.
Nos anos 1990, com governos neoliberais, a América Latina
experimentou uma combinação de concentração de renda,
desindustrialização, privatizações selvagens e perda de soberania. A
Argentina viveu com radicalidade esse processo. Nas ruas, o derrotou.
Agora, as mesmas armações daquele tempo tentam ressuscitar no
continente. Aproveitam a situação adversa na economia e disseminam um
discurso de ódio, preconceito e intolerância. Conquistam, assim, fatias
das classes médias, muitas vezes refratárias à ascensão que os mais
pobres obtiveram nos últimos anos.
O movimento precisa ser entendido dentro da atual crise capitalista e
das mudanças na geopolítica mundial. O capital financeiro busca
garantir ganhos na América Latina. Necessita derrubar barreiras de
proteção na região _o que é mais viável com governos dóceis, também
dispostos a vender ativos a preços baixos.
Enquanto se atolavam na guerra do Iraque e adjacências, os EUA viram a
influência da China crescer de forma exponencial no continente
sul-americano. O petróleo, os minérios, a água, os mercados internos, as
empresas inovadoras _tudo é alvo de interesse externo.
Nesse contexto de disputa é que devem ser analisadas as intenções
norte-americanas de instalar bases militares na Argentina _na tríplice
fronteira e na Patagônia. O império volta a se preocupar com o que
considera o seu eterno quintal.
O impeachment de Dilma é peça chave no xadrez de poder da região.
Afastar quem não se submete a interesses dos EUA será uma advertência
aos países. O processo, que deixa as instituições brasileiras em
farrapos, demonstra, mais uma vez, como a voracidade dos mercados e a
força imperial são incapazes de conviver com a democracia.
ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha de S. Paulo. Foi editora-executiva do jornal de 2000 a 2010.
copiado http://www.brasil247.com/pt/blog/
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