Nigéria
A luta dos nigerianos contra o terrorismo do Boko Haram
Militar nigeriano passa por um checkpoint em Bama, uma das cidades que o Exército conseguiu recuperar ao Boko Haram
| REUTERS/Afolabi Sotunde
Campanha
militar conseguiu curvar insurgentes que desde 2009 mataram 15 mil
pessoas, mas nesta nova fase do conflito os militares enfrentam pequenos
grupos de guerrilha
Os militares
da Nigéria conseguiram recuperar vastas áreas de território ao Boko
Haram, mas uma ronda com uma patrulha militar, com armas a disparar com
medo de uma emboscada, mostra quão longe está o Nordeste do país da
normalidade depois de a brutal insurgência islamita ter feito milhões de
deslocados.
O momento em que o comboio
de veículos militares parte da zona relativamente segura de Bama, a
segunda cidade do estado de Borno, os soldados na dianteira abrem fogo
para o mato para prevenir ataques de combatentes islamitas que por ali
restem ainda.
À medida que se dirigem
para a capital regional, Maiduguri, os soldados inspecionam a estrada à
procura de bombas ou armadilhas, disparando em simultâneo contra
qualquer possível esconderijo - uma bomba de combustível abandonada,
quintas queimadas, árvores e até aglomerados de erva capim-elefante.
"Se
estiver ali alguém e for atingido irá ripostar. Então sabemos a sua
posição e entramos em ação", diz o coronel Adamu Laka, comandante
militar em Bama. "Estamos a tentar manter a iniciativa". Tais medidas
extremas ilustram a falta de segurança em torno de Borno apesar de o
Exército estar a ser bem sucedido na expulsão do Boko Haram de
território ocupado, o qual era, há 18 meses, o equivalente ao território
da Bélgica.
A Reuters teve acesso ao
Exército nigeriano no terreno numa altura em que este luta para
reinstaurar a ordem em Borno depois de sete anos de domínio do Boko
Haram. Trata-se de um dos grupos terroristas islâmicos mais sanguinários
do mundo e um dos maiores desafios para um governo que enfrenta também
uma crise económica causada pela crise do petróleo.
É
possível ver o rasto de destruição deixado pelo Boko Haram. As estradas
são altamente perigosas, não há comida nos campos, as pessoas ainda
receiam sair dos seus esconderijos no mato.
A
campanha militar conseguiu curvar os insurgentes que desde 2009 mataram
pelo menos 15 mil pessoas mas nesta nova fase do conflito os militares
enfrentam pequenos grupos de guerrilha que operam em zonas pouco
populosas ou terrenos arborizados.
Em
julho combatentes do Boko Haram que se escondiam em árvores ao longo da
estrada entre Bama e Maiduguri emboscaram um comboio de veículos da ONU,
deixando cinco pessoas feridas.
Com a
ONU a dizer que 5,5 milhões de pessoas no Nordeste do país correm o
risco de precisar de ajuda alimentar este ano, os militares estão sob
forte pressão para tornar as estradas mais seguras. E isso não é tarefa
fácil.
"Há tantos locais de emboscadas
ao longo da estrada que estamos a cortar as árvores", afirma o coronel
Laka. Como o Boko Haram foi forçado a retirar, o governo e as
organizações de ajuda conseguiram pela primeira vez fazer face ao
desastre humanitário deixado à passagem dos islamitas.
A
agência da ONU para as Crianças, a Unicef, alertou no mês passado que
quase meio milhão de crianças estava em risco de "desnutrição aguda
grave"na área em torno do lago Chade, a qual foi devastada pelo Boko
Haram.
De acordo com a Unicef, em
Borno, onde dois em cada três centros médicos ou clínicas foram parcial
ou totalmente destruídos, 49 mil crianças morrerão este ano se a ajuda
não chegar a tempo. "Aldeias e cidades em ruínas não têm acesso a
serviços básicos", notou a Unicef.
Descrevendo
o estado de civis libertados pelo Exército, Mohammed Kanar, o
coordenador da agência nacional de ajuda humanitária no Nordeste da
Nigéria, diz: "Verão como estão magros. Nos adultos, até se veem as
costelas." Os números podem muito bem aumentar numa altura em que os
civis saem do campo para as cidades agora controladas pelo Exército.
"Tivemos
de sair do mato porque tínhamos fome", conta Haja Jamil, de 40 anos,
que apesar de grávida está muito magra. Chegou a Bama há duas semanas
com duas crianças. "O Boko Haram continua a vir atormentar-nos. Nós
ainda temos medo dele", confessa ela, sentada no chão da clínica militar
de Bama, enquanto dá de comer à filha de 3 anos, Aisha.
Desde
que o presidente Muhammadu Buhari, um antigo comandante militar, chegou
ao poder no ano passado, o Exército encontrou uma nova determinação na
luta contra o Boko Haram. Os militares transferiram o seu
quartel-general para Maiduguri e melhoraram a cooperação com os países
vizinhos, conseguindo recuperar o controlo de dezenas de cidades, como
Bama.
Antes de sair, o Boko Haram
(grupo cujo nome significa "a educação ocidental é pecado") pilhou
escolas e o palácio do líder tradicional local. Agora, os soldados
acampam em lojas abandonadas, atrás de sacos de areia. Os oficiais
trabalham numa tenda, perto de uma parede pintada com a bandeira do
Estado Islâmico, ao qual o Boko Haram jurou lealdade.
O
Exército instalou salas de aula improvisadas para as crianças
deslocadas, mas a proximidade com o Boko Haram na floresta de Sambisa
torna a paz um sonho longínquo. "É só a quatro ou cinco quilómetros
daqui. Assim que atravessamos o rio começamos a encontrar os checkpoints
deles", diz Laka, apontando para a floresta à volta de Bama.
A
luta contra o Boko Haram tornou-se mais difícil com a divisão no grupo
depois de o Estado Islâmico ter nomeado Abu Musab al-Barnawi como novo
líder. O anterior, Abubakar Shekau, não parece aceitar a decisão. Ambos
os grupos competem agora por recrutas, numa altura em que muitas
crianças deslocadas não vão à escola. Isso fará que fiquem vulneráveis
perante os islamitas, que exploram a pobreza e o desemprego. Por agora,
os homens do Boko Haram têm pouca comida e munições e a chuva tem
dificultado o seu avanço na floresta de Sambisa.
No
entretanto, tudo o que chega a Maiduguri, desde comida a munições, vem
por estrada. Atrás das suas fortificações, Maiduguri tornou-se um oásis
de segurança. A sua população quase triplicou nos últimos anos para
cinco milhões, de acordo com a agência nacional de ajuda, o que causa
escassez de tudo um pouco: desde espaço físico para viver até comida.
Em
agosto houve registo, pelo menos duas vezes, de tumultos por causa do
preço da comida, com a multidão a destruir carros. Valeu a intervenção
da polícia. Muitos estão desesperados por ir para casa, aparecem de
madrugada para apanhar um táxi minibus em Maiduguri e arriscar o caminho
pela estrada de Bama. Muitos são mandados para trás pelos soldados às
portas da cidade. Milhares encontram-se retidos neste momento em
Maiduguri.
"Gastaram todo o seu
dinheiro e comeram toda a comida que tinham trazido", afirma Mohammed
Tada, sentado na parte de trás de um camião com a mulher, os filhos e
sacos que tinham sido travados num checkpoint. "Toda a gente está a
sofrer de fome".
Jornalista da Reuters, em Borno
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