ENTENDA O QUE É ADMINISTRAÇÃO DE PATRIMÔNIO Orçamento para lavar carros de deputados é quase três vezes maior que do que verba destinada a museu em 2018. Um longo e incerto caminho para tentar reconstruir o Museu Nacional. O descaso que corrói o patrimônio, de parque arqueológico à casa de Santos Dumont. Um projeto civilizatório que fracassou. O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo. Um triste símbolo de um país que abandona a si mesmo',. O valioso acervo, em imagens.
Ainda não se sabe
ao certo o que se pode recuperar e nem as causas imediatas da tragédia.
Ministério da Educação promete 10 milhões emergenciais para reconstrução
A instituição e
outros projetos de D. Pedro II, hoje criticados por seu viés elitista e
etnocêntrico, foram um grande impulso na construção de um esboço de
nação
Um museu relegado ao segundo plano pelo Governo Federal. Desde 2001, a União investe valores ínfimos num dos principais acervos históricos do país. O Museu Nacional, que foi consumido pelas chamas
no domingo passado, costumava receber uma verba pública que variava
entre 1 milhão e 1,9 milhão de reais anuais. Nos últimos cinco anos,
contudo, sofreu seguidos cortes drásticos e a previsão para 2018 era de
que apenas 205.821 reais fossem repassados para instituição, que é
subordinada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os dados foram
obtidos junto ao Siga Brasil, o projeto do Senado Federal que acompanha
par e passo os gastos o orçamento federal (veja mais no infográfico
abaixo).
Apenas para efeito de comparação, atualmente, a gestão Michel Temer
(MDB) investe menos no Museu Nacional do que a Câmara dos Deputados na
lavagem de seus 83 veículos oficiais ou que o próprio Poder Executivo na
manutenção do Palácio da Alvorada, a residência presidencial que está
desocupada desde o impeachment de Dilma Rousseff.
Neste ano, a Mesa Diretora desta casa legislativa e as lideranças
preveem gastar 563.000 reais em dinheiro público para deixar seus carros
limpos. O valor é 2,7 vezes de fato destinado ao primeiro museu
brasileiro. Já o Alvorada, custa cerca de 500.000 reais por mês, o que
inclui gastos com energia elétrica e jardinagem.
Se não bastasse a falta de apoio financeiro direto por parte da União, apenas um dos 49 parlamentares do Rio de Janeiro
(somando os 46 deputados federais e os três senadores) demonstrou
qualquer preocupação em ajudar com recursos o Museu Nacional. De 2015
para cá, só Alessandro Molon (PSB-RJ) destinou uma de suas emendas
parlamentares à instituição. Ele apontou que 300.000 reais deveriam ser
repassados ao órgão. Esse valor foi pago em duas vezes. Ao todo, cada
congressista pode distribuir 14,8 milhões para a área ou obra que bem
entender.
Não surpreende diante da ausência de prestígio político do museu. O
último presidente a visitá-lo foi Juscelino Kubitscheck (1902-1976), o
mandatário que transferiu a capital federal do Rio para Brasília e
governou o país entre 1956 e 1961. Recentemente, nem mesmo os
subalternos ao presidente vinham demonstrando qualquer afeição ao órgão.
No dia em que se comemorou o bicentenário do Museu Nacional, em 9 de
junho passado, o ministro da Cultura de Temer, Sérgio Sá Leitão, estava no Rio (a cidade onde ele se graduou e foi secretário da Cultura), mas não esteve nessas celebrações.
Na segunda-feira, depois da tragédia, Sá Leitão esteve no museu ao
lado de seu colega do Ministério da Educação, Rosielli Soares. Ambos
anunciaram um plano de recuperação que, em um primeiro momento, vai
custar 10 milhões de reais. Além disso, preveem financiar empresas que
ajudem na reestruturação do órgão.
Enquanto, isso, no Palácio do Planalto, o ministro da Secretaria de
Governo, Carlos Marun, reclamou que, entre os críticos dos baixos
investimentos, havia muitas pessoas que pouco ou nada fizeram pelo
museu. “Agora que aconteceu tem muita viúva chorando. Eu não tenho visto
ultimamente, na televisão, por exemplo, pelo menos em um horário,
alguém destacando o museu, para que ele se tornasse mais amado pela
nossa população. Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas, na
verdade, essas viúvas não amavam tanto assim o museu”.
Quando indagado sobre a responsabilidade da União sobre o baixo investimento, Marun disse que o principal órgão responsável por gerir a entidade
é a Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Não vou culpar ninguém,
não conheço o que a UFRJ priorizou. Só estou fazendo afirmações que
condizem com a realidade: a UFRJ tem autonomia financeira, e o orçamento
do museu sai do orçamento dela”. Ele só não disse que quem define os
valores repassados às universidades é o Governo federal, do qual ele é
um dos principais interlocutores e porta-vozes.
Visão do hall de entrada do Museu Nacional na foto do procurador Sergio Suiama.COPIADO https://brasil.elpais.com/brasil/
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